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DO
OBJETO E DAS SOMBRAS
Vou falar da gaiola com os bichinhos dentro e sua sombra.
Tanto o objeto quanto sua sombra extrapolam sua situação
de ser.
O objeto não é só um objeto nem a sombra só
uma sombra.
Eu havia feito duas esculturinhas e para elas desejava uma gaiola. Não
sabia como fazê-la, se de arame ou de outro material. Passeando
pelo ferro-velho da Usina de minha família, estava eu a cata de
materiais para meu trabalho, quando o olhar de uma amiga viu a gaiola.
- "Não é isto que você está precisando?"
Ali estava ela, exposta, oferecida, necessitando apenas de um olhar para
tirá-la do contexto de ferro-velho e mudar seu estado.
Coloquei os bichinhos dentro, pendurei orgulhosa minha escultura no atelier
e sua sombra imediatamente formou um desenho, uma nova realidade, mais
forte do que qualquer sombra ou qualquer objeto. É como se a sombra
se libertasse de sua humilde condição de dependência
e mostrasse ao objeto seu poder de superação.
Ela era agora um novo ser, com uma grande riqueza de detalhes e estava
muito mais relacionada com a luz do que com o sólido.
Posso contar da magia do encontro, do rapto do objeto que já existia
a espera do desejo, à espera do olhar, à espera da luz para
desdobrar-se em sombras.
Objeto criador de um novo ser, ser expansivo, humilde em expor-se, em
ser capturado, em ser multiplicado, em ser criador de um desenho onde
os traços, as linhas e as massas não dependem do lápis
e do papel mas da generosidade do corpo que oferta.
A sombra vira obra de arte. Ultrapassa o sólido, ganha força
de expressão.
A sombra supera seu doador.
Leila de Sarquis
S P 07/95
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