 |
Arte
- o Dom da dádiva
Enquanto
o sabiá canta em algum galho do jardim, escrevo estas palavras
que se forem lidas em voz alta trarão também o gorjeio,
a luz acesa, o avião que passa, as fases da lua e o bater do coração
compassado.
Tomemos ar.
Vivemos de doações.
Trocamos coisas por papéis, papéis por favores, abraços
por amores, socos por ódios e crescemos num jogo de adensamento
que faz de todos nós relíquias perenes.
Os passos da humanidade sempre serão encima de pegadas alheias,
pequenas covas onde meu pé repousa para o impulso do próximo
passo.
Recebemos com tal intensidade que as vezes nos despojamos aos gritos e
suspiros desse excesso todo que é a vida.
Então fazemos arte.
Mas, de repente algo foge ao controle e se instala uma não consciência
do gesto - uma compulsão de não desejo, uma intromissão
na terra de ninguém.
Terra de ninguém - Terra de todos.
Ao alcançar esta região temos momentos privilegiados onde
nossa humanidade extrapola a própria consciência de ser e
estar - do tempo-espaço.
Nesse momento tenho o dom da dádiva - faço arte.
Devo a quem me ofertou e aquele que comunga com minha obra se junta nesse
ato ritual e entra também soberbo nessa estranha terra, movida
a cada olhar, sempre nova porque não se repete e que sempre está
porque nunca mudou.
Teu olhar me muda, que muda o teu olhar que me muda.
Veja algumas
Conheça alguns
|