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Dimensões da elaboração da experiência pessoal e coletiva em comunidades tradicionais da estação ecológica Juréia - Itatins
por Maria Luísa S. Schmmidt e Miguel Mahfoud



Tradição Oral e Confiabilidade

Nas histórias de vida destes seis moradores de Cachoeira de Guilherme, o vivido e o observado advindos da experiência direta se entrelaçam com o relato de histórias, casos e lendas (3). A experiência pessoal é cunhada não apenas pela observação e elaboração de acontecimentos ou fatos de uma vida, mas através do contato com a tradição oral. A comunicação oral, com seu acervo de histórias, casos e lendas, franqueia ao sujeito da experiência a passagem a dimensões distantes no tempo e no espaço: o tempo dos antepassados se presentifica nos relatos sobre o tempo de dantes (4) e o espaço além da comunidade se aproxima através do que se ouve dos que viajam ou dos que vêm de fora.

Histórias, casos e lendas são, portanto, testemunhos da existência de um mundo anterior e mais amplo que se oferece, como matéria-prima, à elaboração da experiência pessoal dos sujeitos: um mundo que se oferece através da palavra, da fala, do relato; um mundo que se projeta na tela tecida pela comunicação oral.

A confiança na existência desse mundo, com suas dimensões fantásticas e de mistério, depende, em grande parte, da confiança depositada na palavra proferida por um narrador diante de uma comunidade de ouvintes.

A confiabilidade é, certamente, um aspecto fundamental na transmissão da experiência numa cultura predominantemente oral. Esta relevância da confiabilidade aparece, em diferentes níveis e de diferentes maneiras, nas histórias de vida recolhidas na comunidade de Cachoeira do Guilherme. Passa-se, a seguir, à análise das formas através das quais a questão da confiabilidade se expressa nos relatos.

Formas da Confiabilidade

Na disposição do sujeito para narrar sua história de vida para os pesquisadores existe já a expectativa e a esperança de que o ouvinte confie naquilo que está escutando. Ao mesmo tempo, a narrativa é pontuada por elementos que visam dar sustentação a uma escuta confiante.

Um desses elementos narrativos é o cuidado que o narrador tem em explicar que está transmitindo algo tal qual viveu ou ouviu, sem exagero ou falta.

Eu não estou exagerando nada...

Este cuidado é refinado pelas distinções sobre a origem da experiência relatada. Para o ouvinte fica claro quando o relato provém de uma experiência direta do narrador!

O palmito é assim: eu cortei palmito, eu dou a explicação...

Eu posso dizer porque estou com trinta anos.


(3) As histórias são relatos constituídos por um corpo narrativo definido e reproduzido com fidedignidade pelos narradores. As lendas dizem respeito a relatos que não têm um padrão mais constante como as histórias, mas têm como referência certos personagens imaginários ou acontecimentos fantásticos, tais como, a mudança da Mãe de Ouro, o lobisomem, a bruxa, o saci, a negra giganta. Os casos incluem toda sorte de relatos sobre acontecimentos mais próximos, envolvendo personagens conhecidos da própria comunidade ou de comunidades vizinhas.

(4) Dantes: substantivação da contração da preposição de com o advérbio antes

 

 
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