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A Imagem Católica: luta pela Preservação do Belo
por Maria de Lourdes Beldi de Alcântara



Na visão de Pio XI, o cinema representava a destruição e a ruína dos valores humanos e conseqüentemente católico, ele dirige-se principalmente ao sentimento do espectador por mediação de seus elementos emotivos, pois o poder do filme representa a transubstanciação, ele nos permite tocar a beleza e a magia. Ele é o mestre absoluto do tempo e do espaço ele chega facilmente a criar o milagre diante dos olhos arregalados.

Já que o cinema representa a transubstanciação profana onde o milagre pode ser realizado através do ritual da enunciação cinematográfica, Pio XI exige a criação, de um filme ideal,que é como a criação de uma catedral, exige a cooperação qualificada de inúmeros artesãos, cada um com sua qualidade, todos devem ser artistas; mas deve ter um só diretor de arte, o espírito que concebeu a obra de arte em todo o seu esplendor, em toda sua integridade e harmonia deve examinar a criação total em todos os aspectos multiformes . A arte como a vida humana são expressões da alma humana que reconhece a relação entre as coisas criadas e seu Criador. A arte consiste em captar o reflexo da beleza de Deus nas obras criadas pelas suas mãos; a faculdade que permite fazê-la, é a mesma , um dom de Deus .

É total a dissociação do pensamento católico com a produção cinematográfica, pois ambos competem no mesmo plano do universo mítico, a venda de bens simbólicos. Segundo Jacques Aumont , o cinema é concebido como o veículo das representações que uma sociedade dá a si mesma. De fato, é na medida em que o cinema tem a capacidade para reproduzir sistemas de representação ou articulação sociais que foi possível dizer que substituía as grandes narrativas míticas. Diante dessa grande ameaça, a atuação da Igreja Católica se resume por um lado, na busca de mobilizar o público via atuação de intelectuais leigos católicos, na procura da formação de opinião pública contra esse veículo de comunicação, e por outro, cria o Office Catholique du Cinema (1928) com a intenção de poder controlar, via censura, a avalanche de filmes que pregavam a total laicização da sociedade. A imagem cinematográfica só era reconhecida e divulgada pela Igreja quando tratava-se de filmes didáticos e documentários- a obra cinematográfica é um real veículo de cultura, não a arte pela arte ou a técnica pela técnica, mas um fenômeno social perfeitamente entendido pelo homem de hoje e um momento através do qual a obra continua a criação de Deus.

Os críticos cinematográficos leigos não vão levar em conta a opinião da Igreja sobre as realizações cinematográficas, somente nos Estados Unidos da América, a Legião da Decência no começo de sua atuação teve voz ativa na censura cinematográfica realizada por ela . Na França, Inglaterra e Itália a atuação da Igreja se restringe aos seus quadros e tem muito pouca influência na sociedade civil. Muito embora, a Igreja fizesse parte dos Festivais de Cinema europeus, os filmes aos quais ela concedia o seu prêmio, não tinham grandes repercussões no contexto cinematográfico, pois, a premiação e a exaltação eram destinados aos filmes que representavam os valores católicos através de uma visão otimista da vida, a exaltação do núcleo familiar e o amor desvinculado ao desejo da carne.

A intenção da Office Catholique du Cinema em embrenhar-se nos Festivais foi a de poder ser reconhecido no circuito cinematográfico, no entanto, a sua atuação não significou a sua aceitação, pelo contrário, ficou restrita ao seu público. A sua opinião era vista de uma maneira irônica e sem legitimidade. Os diretores, críticos e atores cinematográficos viam a censura católica como sendo retrógrada e cada vez mais distante da realidade social e assim é vista até nossos dias. Pois a Igreja permanece fechada no claustro de sua concepção de imagem onde ela tem o poder de julgar o certo do errado e belo do feio e não desvincula a estética da relação divina pelo contrário, ela representa a expressão do divino.

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