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O Conceito de Cultura Popular na visão da Teologia da Libertação

por Maria de Lourdes Beldi de Alcântara


 

Introdução

Este trabalho tem a intenção de fazer um estudo teórico sobre a questão do uso da "imagem" amazônica na Teologia da Libertação. Ou seja, a apropriação simbólica da floresta e população amazônica no texto da liturgia, principalmente no filme Ameríndia.

Para fazer um traçado desta construção simbólica faremos um breve histórico da atuação da Igreja católica na Amazônia e ressaltaremos os personagens e a paisagem que foram construídos e ressemantizados pela Igreja Católica durante estes quase quinhentos anos de colonização.

Uma pequena história

A história da Igreja na Amazônia, durante quase todo o período colonial, girou em torno de dois grandes pólos: a política de ocupação, da corte portuguesa, e a ação cristianizadora dos missionários religiosos.

Todo o projeto português do Além-mar foi bem sintetizado no seguinte lema: Dilatar a fé e o império, a Provisão Régia, em forma de lei, de 1 de abril de 1680, afirma: o rei sustenta que o principal intento na região amazônica é dilatar a pregação do Santo Evangelho e procurar trazer ao grêmio da Igreja aquela dilatada gentilidade cuja conversão Deus nosso Senhor encarregou aos senhores reis destes reinos.(1)

O projeto português era de levar até as cordilheiras o império, através das missões, assim, em 1542, Frei Gaspar de Carvagal deixou as primeiras inscrições do grande rio e das tribos que viviam às suas margens, seus principais afluentes que só iriam ser inteiramente explorados no século XVIII e alguns deles, como Juruá e Purus, na segunda metade do século XIX.

Por volta de 1540 a Amazônia começou a ser conhecida na Europa. A viagem de Orellana se situa entre 1540 e 42, a de Pedro de Ursúa entre 1560-61 e a de Lopes de Aguirre na mesma época. Esta notícia apareceu envolta numa linguagem fantástica, superlativa e maravilhosa.. O cronista de Orellana, o Frei Gaspar de Carnajal, deu à sua narrativa o título de "relacíon del Nuevo Descubrimiento del Famosos Rio Grande de las Amazonas", relatando o seu testemunho sobre a presença de mulheres amazonas na beira deste rio. O cronista de Pedro Teixeira na sua viagem de volta de Quito a Belém, o Padre Cristobál de Acuña, volta a intitular seu relato: "Nuevo Descubrimiento del gran rio de las Amazonas" (1939), e um século depois o Padre João Daniel escreve o mesmo rio sob o título: "Tesouro descoberto do Máximo rio Amazonas". Todos usavam adjetivos ao falar do rio: grande, máximo, fantástico. Este estado de maravilhamento, pode ser definido por Greenblatt, é um reconhecimento instintivo da diferença, o indício de uma atenção altamente concentrada. Representa tudo o que não pode ser reconhecido, em que mal se pode acreditar (2) (1996:48).

A narrativa sobre a diversidade cultural através do olhar de quem está narrando é construída ou como um desvio das próprias crenças cristãs ou como uma radicalidade completamente diferente delas, ou seja, o uso do processo da inversão que aumenta a descrição dos símbolos que a representam. A circulação mimética que representa o outro é construída através das representações européia cristã, ou seja, a projeção européia de si mesmo, como bem coloca Edward Said.(3). Sabe-se que a alteridade relatada é resultado da construção do imaginário europeu sobre a diferença.

Dentro deste raciocínio, podemos afirmar como bem coloca Greenblatt (4), que os cronistas, geralmente missionários, narraram o maravilhoso natural, descrevendo um lugar tão exuberante com paisagens e clima tão diferentes de qualquer descrição até então realizada. Por isto, a narrativa não precisava se utilizar tanto de metáforas ou ironias, como em outras.

Na Amazônia encontram-se os três grandes mitos americanos: Príncipe Dourado (El Dorado), a Lagoa que é o berço de todo o sistema fluvial atlântico, e as mulheres Amazonas.

O misto de devoção e ambição, de culto a Cristo e culto ao bezerro de ouro está na origem da empresa colonial, da América, e particularmente da Amazônia, nas palavras de Greenblatt, em face ao desconhecido os europeus usavam estruturas intelectuais e organizacionais convencionais, moldadas durante séculos de contatos indiretos com outras culturas, essas estruturas impediam em grande parte uma percepção clara da radical alteridade das terras e dos povos americanos (Greenblatt,1996:61).

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(1) CEHILA. História da Igreja na Amazônia. Vozes, 1992:145, São Paulo

(2) GREENBLATT, Stephen. Possessões Maravilhosas. 1996,São Paulo, EDUSP

(3) Said, Edward W. O Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente.1990. Companhia das Letras, São Paulo.

(4) GREENBLAT, Stephen. Possessões Maravilhosas. EDUSP, São Paulo, 1996.

 
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