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Artigos
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Convergência e Conflitos de Interpretação do Real: A Festa de Corpos Christi Como Representação Paradigmática da Diversidade Cultural por Liana Salvia Trindade |
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Abstract
- Extrait
O
jesuíta alemão Atanasio Kirchen (1602-1680)
era adepto da magia natural. Em seu tratado sobre ótica
e cenografia, no capítulo intitulado "Magia Lucis et
Umbrae", ele condena a magia diabólica e atribui a
Hermes Trimegisto conceitos sobre a luz, semelhantes aos encontrados
nos escritos de Patrizi. Neste tratado, Kirchen indica as
regras cênicas para o delineamento de pavimentos em
perspectiva, define as mudanças de cenas, mostra como
devem ser a entrada dos personagens e o uso da luz pelos princípios
que permitam produzir efeitos considerados "mágicos".
O autor refere-se em seus trabalhos ao espetáculo conhecido
como "lanterna mágica" e ensina como construir imagens
de dragões voadores, usando a luz da lanterna sobre
as figuras recortadas. Recomenda também a utilização
desse mesmo procedimento para a montagem de anjos voadores
na festa da Ascensão de Cristo.(5) A
"lanterna mágica" indicada nos trabalhos de Kirchen
tornou-se popular no século XVIII. Foi um dos espetáculos
mais apresentados pelos jesuítas para mostrar aos povos
indígenas os horrores do inferno. A festa religiosa
configura a forma teatral de evangelização. O
teatro religioso europeu introduzido nas colônias apresenta
os confrontos entre a fantasia e a realidade, a mitologia
pagã e o cristianismo, os valores civilizatórios
dominantes em oposição aos dos dominados. Escreve
Caro Baroja, "Pensemos
nos efeitos que causavam em um público popular da época,
a contemplação de um teatro barroco, com luzes
douradas, mudanças cênicas, anjos, diabos, figuras
bíblicas e pagãs, dragões, apresentado
como festa religiosa... "(6) Retomando
a festa de Corpus Christi em São Paulo, descrita por
Taunay, encontram-se os componentes estruturais do teatro
barroco. Nesta
festa colonial configura-se, da mesma forma que o teatro ibérico
setecentista, leigo ou religioso, a hierarquia dos personagens
na organização geral das representações
cênicas. De início apresenta-se um mundo
cujas tradições são consideradas de altos
ideais. A alegoria mitológica, a religião e
as crenças astrológicas são manejadas
no âmbito do imaginário, onde o sobrenatural
é majestoso, mesmo se tratando de crenças pagãs.
Em um segundo plano, movem-se os deuses da "cega gentílica",
os rituais dos povos vencidos, mouros, africanos, compondo
a esfera inferior do universo imaginário, considerada
supersticiosa, popular. Em
Teatro Popular y Magia, Caro Baroja descreve as comédias
setecentistas de Madri. em termos comparativos, consideramos
que elas possuem uma forma estrutural análoga àquela
da nossa festa no Brasil colonial. No teatro barroco espanhol,
confrontam-se duas formas de conhecimento apresentadas hierarquicamente.
O autor demonstra, por meio de um esquema do teatro popular
desta época, que, em geral, as cenas dividem-se em
dois tempos, correspondendo a espaços diferentes: em
princípio, apresentam-se os heróis, heroínas,
anciãos venerados e a figura do mágico
sábio que traduz os benefícios da magia natural;
num segundo tempo, surge em oposição à
esfera superior, o mundo social dos criados e das personagens
burlescas, apresentando o seu imaginário de superstições
e feitiçarias. Estas
comédias apresentam, como na festa de Corpus Christi,
as relações sociais de dominação-subordinação
e a supremacia de um universo do imaginário em oposição
a um outro: a polêmica entre magia natural e magia cerimonial. O hermetismo renascentista proclamara a realidade de uma magia natural encontrada nas plantas, nos efeitos dos astros sobre os homens, no universo físico, no significado dos hieroglifos e dos números. Giordano Bruno define a magia natural quando opera em virtude dos principais arquétipos de antipatia e simpatia, que determinam não apenas as qualidade das coisas que se movem, transmutam e atraem, mas também do espírito ou almas existentes nas coisas. A magia atua em três mundos: arquétipo, físico e racional. No arquétipo ou divino, encontram-se os princípios da amizade e da discórdia; no físico, o fogo e a água; no mundo matemático ou racional, ocorre a transmigração ao universo arquétipo através do físico.(7) Giordano
Bruno assinala que os princípios da magia devem ser
usados para a contemplação e engenho das magias
sábias e afastadas do "vulgo", pois a popularização
deste conhecimento pode converter a magia em sacrílega
e peniiciosa.(8) Dom
Ruiz de Alarcón escreve em 1622 a peça teatral
"La Cueva de Salamanca", onde o personagem Enrico, velho mago,
sábio, discute com um frade, doutor e pesquisador,
personagem representativo da figura inquisitorial. O frade
doutor reconhece a magia como coisa natural, invocando a teoria
da simpatia e antipatia dos corpos, dos números e dos
sons: "Es
la natural la que obra, con las naturalezas fuerzas y virtudes
de las plantas e animales y piedras." (9) (5)
BAROJA, Julio Caro, Op. cit., P. 29. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página |
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