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Convergência e Conflitos de Interpretação do Real: A Festa de Corpos Christi Como Representação Paradigmática da Diversidade Cultural
por Liana Salvia Trindade*



Abstract - Extrait

* Professora Livre-Docente do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo.


RESUMO

Este artigo analisa as representações simbólicas das relações raciais e sociais que se defrontam tendo como paradigma a festa de "Corpus-Christi" em São Paulo de 1733.

A festa de Corpus Christi, realizada a 24 de maio de 1733 em São Paulo, transcrita por Taunay dos dados encontrados no documento eclesiástico Triunfo Eucarístico e do Áureo Trono Episcopal, é o paradigma da representação simbólica das relações étnicas existentes no período colonial.

Primeiro surge a figura de Tirésias profetizando o futuro de São Paulo. A seguir, abriam o préstito com danças de turcos e cristãos: a serpente do Éden, os quatro pontos cardeais e as figuras dos sete planetas: a Lua rodeada de ninfas, Marte e Mercúrio (o Sol Vênus), Cupido, Júpiter e Saturno. No final, o enorme cortejo dos deuses da "cega gentílica", rodeado de uma turba de alemães, castelhanos, caiapós e negros congos.

Os deuses da "cegas gentílica":

"... a mourisca da cidade com seu rei mouro e Alfaqui, rodeados de folias e danças sátiras e ninfas; os ofícios com seus reis e imperadores; bailados de espadas; os mercadores de vinho com a figura de Bacco, a nau de São Pedro, Judith e Holoferne, o sacrifício de Abraão, Nossa Senhora fugindo para o Egito, Mercúrio e Apolo, São Cristóvão e São Sebastião, o menino Jesus, os 12 apóstolos, Cristo e os Anjos. Finalmente, São Jorge em tamanho natural montado num cavalo." (1)

As cenas bíblicas, acompanhadas de divindades gregas e romanas, indicam a permanência dos mitos pagãos no cristianismo. As figuras dos sete planetas evocam as representações renascentistas do hermetismo de Ficino e Agrippa, proclamando a legitimidade da magia natural dos astros e arcanos. Este pensamento seiscentista europeu, que conjugara concepções filosóficas do hermetismo com os componentes míticos hebraico-cristãos e grego-romanos, está presente no imaginário barroco brasileiro.

A festa religiosa colonial reproduz o teatro barroco seiscentista. Com elaboração de uma arte cênica, este teatro procura produzir efeitos visuais que permitam envolver emocionalmente os espectadores na proposta da dramaturgia. O universo colonial brasileiro encontra na festa religiosa a sua primeira forma de teatro.

A arte cênica barroca, utilizada nas festas religiosas de origem ibérica, procura refletir não apenas uma ordem cósmico-religiosa, mas também uma ordem filosófica e natural. Nela, a religião ocupa um lugar essencial, mas não único, pois a sua construção contém ainda noções de Geometria, Matemática e Física. Assim, a arte cênica expressa uma forma totalizadora de conhecimento, onde a magia, a arte e a ciência estão mutuamente relacionadas. Os efeitos cênicos produzidos pelos artistas barrocos são os que os próprios homens da época denominavam de "mágicos", referindo-se à magia natural constitutiva do hermetismo renascentista.

Caro Baroja (2) destaca a participação dos padres jesuítas no desenvolvimento da arte cênica barroca. Foram eles quem mais se dedicaram aos estudos dos recursos cênicos com efeitos óticos, com o propósito de utilizá-los nas festas religiosas realizadas entre as populações indígenas colonizadas. Era uma forma de atingir, através de emoções como o medo, o fascínio e a piedade, as mentes dos indígenas, preparando-os para a catequização.

Durante o período seiscentista ocorre o movimento iniciado nas últimas décadas do século anterior. Consolida-se o hermetismo religioso, como proposta filosófica de conciliação dos conflitos existentes entre catolicismo e protestantismo.(3) Um dos principais representantes do hermetismo religioso italiano, Francesco Patrizi, recupera as concepções de Ficino e Pico de la Mirandola sobre magia natural, abolidas pelos filósofos da hermética religiosa francesa. Na dedicatória de sua obra Nova de Universis Philosophia a Gregório XIV, Patrizi recomenda o ensino da Hermética nas escolas dos jesuítas.(4)


(1) TAUNAY, Affonso de E.. História da Cidade de São Paulo no Século XVIII. Vol. II Parte, (ed.) de 1951:223. São Paulo Coleção Departamento de Cultura.
(2) BAROJA, Julio Caro. Teatro Popular y Magia. Biblioteca de Ciências Históricas Madrid, Revista do Ocidente 1974:278.)
(3) YATES, Frances A.. Giordano Bruno e a Tradição Hermética. São Paulo, (Ed.) Cultrix, 1964:209
(4) Idem, P. 208.

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