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A Caminho de Bakoro: alguns aspectos das Representações da vida pós-mortem dos índios Bororo do Brasil Central
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por Renate Brigitte Virtle



Abstract - Bibliografia

BAITAGOGO abandona a aldeia dos seus súditos, depois de ter assassinado uma de suas esposas e o seu amante, em decorrência de um grande sofrimento causado por seu "filho", um pássaro, que, defecando no seu ombro, lhe criara uma enorme árvore sobre o corpo vingando a morte da mãe, a esposa assassinada por BAITAGOGO. Este recolhe-se em uma morada distante e "feia", após deixar claras as incumbências delegadas aos seus substitutos e súditos. E, a distância, transformado em " Morcego", castiga os infratores que desrespeitam as suas determinações, cegando-os.

Ao nosso ver esta passagem do mito de BAITAGOGO expressa o rigor com que os Bororo se desincumbem dos conselhos e avisos dos chefes moribundos. É necessário satisfazer da melhor maneira possível a vontade de um morto, sem temer as conseqüências incômodas destes desejos. Caso contrário, tal como o mito, a alma do morto desrespeitado se enfurecerá e retaliará com mais sofrimento, com "cegueira", quando os infratores deixam de ver, "compreender" os verdadeiros perigos para a sua vida.

Segundo Schaden, a metamorfose de seres humanos em animais, tal como ocorre com os súditos infratores às regras estabelecidas por BAITAGOGO que acabam se transformando em ariranhas e entrando nas águas, pode ser interpretada como sendo expressão de degradação moral, um castigo explicável por alguma infração de natureza consciente ou inconsciente. Evoque-se o peso dado a sonhos e visões ligados a almas de parentes que, quando de mau agouro e mantidos em sigilo, podem causar malefícios à comunidade. E, segundo o mito de BAITAGOGO, a infração dos súditos é representada pela negligência em oferecer tabaco ao chefe morto, oferta básica indispensável aos ritos de investidura do "substituto" do morto e de benzimento de espécies naturais mortas, destinadas ao alimento dos Bororo.

No plano afetivo, a intensidade e a rapidez das atividades cerimoniais impedem que se cristalizem conflitos durante o desenvolvimento dos longos ciclos funerários, diluídos também pela presença obrigatória de parentes clânicos do morto vindos de outras aldeias e pela idéia de que, em nome dos mortos, não se deve desrespeitar a outrem. Contudo, a gama de sentimentos e emoções fortes não é suprimida - os enlutados têm espaço para manifestar a sua raiva e tristeza; os dançarinos, garbosos, seguem exaustos, o ritmo implacável dos chocalhos dos "puxadores" de canto, realizando belas coreografias aos olhos críticos dos chefes do clã enlutado; membros da comunidade mais distantes do morto têm o espaço para aproximação podendo "chorar" junto com os enlutados, demonstrando um comportamento respeitoso e circunspecto, prestigiando a realização das cerimônias com admiração por tantas belezas. Assim, alegria e sofrimento coexistem durante os funerais assim como coexistem vida e morte que não se opõem mas conversam entre si, tal como o fazem, no mito, BAKORORO e ITUBORE, ou BAITAGOGO e BOROGE, decidindo, juntos, quanto ao que fazer para fomentar a coesão da aldeia, ao como se juntarem e ao como se separarem para voltarem a se encontrar e separar até o fim dos tempos.

Vida e morte não se opõem mas se interpenetram, almas de vivos conversando com as de mortos, resolvendo os problemas da vivência, da convivência e da sobrevivência do homem, sem se saber exatamente a que lado pertencem as vozes, se ao lado da metade dos TUGAREGE ou ao lado da metade dos ECERAE, se ao lado dos vivos ou dos mortos. Os dois lados juntam-se após a separação para planejar mais uma façanha conjunta, integrando-se em um plano comum, tal como o fazem os irmãos BAKORORO-DOGE, "irmãos" pelo fato de partilharem de uma mesma estratégia de luta, de uma mesma metade ou "lado", contra inimigos comuns, entre os quais o próprio medo da morte.

E, no plano psíquico, o Homem teme um inimigo especial, o caos, a desordem, a impossibilidade de se comunicar com o seu semelhante, com outros seres dotados de vida, com um sentido de vida. A comunicação envolve, muitas vezes, desafios profundos que, quando alcançada por meios criativos por alguns poucos indivíduos, dissolvem o pavor de Morte e o apego desmesurado à Vida já que, o que importa para tais Homens especiais é menos aquilo que o torna transitório, mas aquilo que o insere na eternidade de um pantheon de ancestrais. Segundo os Bororo, o que importa a estes Homens não é que ele vá perder o seu corpo um dia, mas que ele seja apagado da memória dos seus se não tiver alguém que cuide de seus ossos da forma pela qual foram cuidados, os ossos de seus ancestrais. Isto porque se ele chegar a brigar com o clã dos seus potenciais "substitutos", inviabilizará a cooperação destes para o seu funeral, esvaziando de sentido a vida pessoal, razão única e suficiente para "beber até morrer".

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