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A Caminho de Bakoro: alguns aspectos das Representações da vida pós-mortem dos índios Bororo do Brasil Central
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por Renate Brigitte Virtle



Abstract - Bibliografia

Este desespero irremediável é o sentimento daquele que, pouco antes de morrer, ou envolvido pela morte de pessoas próximas, se esqueceu daquilo que, nestes últimos lampejos de consciência, se lhe afiguram como representando o aspecto básico de toda a sua existência: a imagem que dele restará após a morte junto aos sobreviventes, e o quanto ele chegou a se comunicar, compreender e prover os que o circundaram durante a vida, o quanto ele se descuidou, em vida, entregando-se à "cegueira", à ignorância, à insensibilidade diante dos outros, agredindo, ferindo e envenenando aqueles que estavam à sua volta, sem ter tentado imitar, um pouco só, a glória de um BAKORORO: um guerreiro-caçador incansável, que provê a sua comunidade de súditos e a defende dos inimigos incontroláveis com todo o vigor.

É no momento da passagem para a Morte, para BAKORORO, que o homem vislumbra o sentido mais profundo da sua existência, sentido este adormecido dentro dele durante toda a sua vida anterior. Conhecer de antemão estas realidades profundas só é dado a alguém que, incansavelmente, eternamente está em alerta, não apenas por si mesmo, também pelos outros, todos sujeitos a falhas e tendências destrutivas. É na eminência da morte que se ouve a voz dos grandes chefes Bororo que, calmos e tranqüilos, rodeados pelos abanos dos parentes e súditos, planejam a sua bela Morte, profundamente envolvidos em proteger a coesão de sua aldeia, religando-a por intermédio de belas e longas danças e cantos. Este ato de "religar" se faz em nome de uma consciência mais profunda, em que, movido pela sensibilidade e comoção, o chefe pede que se combinem penas, pinturas e movimentos formando belos enfeites e danças para todos; que não se esqueçam também de fazer, em sua homenagem, pequenos lembretes sob a forma de labretes, colares e brincos para os rostos delicados dos pequenos, para que cresçam conhecendo, desde pequenos, o sofrimento físico associado ao crescimento interno, ao estar "acordado", "de vigília" contra a sedução de inimigos externos e internos. Crescer significa usar ornamentos clânicos cada vez mais duros e maiores na cabeça por ocasião de danças, realizadas em maior número para finados cuja morte tenha causado maior impacto sobre a vida da aldeia. Grandes chefes são sempre celebrados por grandes funerais, o que não impede que qualquer finado Bororo seja homenageado por meio da cerimônia dos monstros aquáticos AIJE-DOGE, o grande impacto final sofrido pelo Bororo, quando ele é carregado para BAKORORO, o lugar onde perderá as suas carnes apodrecidas. E, nesta trajetória é acompanhado pelo "substituto", o encarregado da lavagem dos seus ossos logo após o encontro com os representantes dos AIJE-DOGE transforma-se num deles, mensageiros entre o mundo dos vivos e o dos mortos, carregando os finados, limpando-lhe os ossos. E, ao perder o seu corpo, o Bororo entra em um mundo desconhecido, a inconsciência, o sono profundo, acordado apenas de tempos em tempos pela comida ingerida pelo seu substituto, e pelos cantos e tabacos oferecidos em sua homenagem.

Em suma, o fim lamentável de um Bororo representado pela decomposição do seu corpo é regenerado apenas pela compaixão do seu "substituto" encarregado de "lavá-lo" e "caçá-lo" sob a forma de uma onça. Portanto, é o encarregado que, compadecido pelo seu estado, regenera-lhe as sobras materiais e embeleza-lhe a memória: primeiro, um belo vulto, já sem rosto, que leve como uma pluma, encanta a todos com a graça de uma dança em homenagem ao finado, vulto este que, subitamente, desaparece, voando para oeste; - depois, um vistoso cesto-ossuário contendo enfeites, plumas e ossos limpos, decorados e perfumados, envoltos por lágrimas e sangue secos, que, após a sua preparação na choupana central e o seu "repouso" na casa dos enlutados, esvanece silenciosamente para fora da aldeia.

E, tudo isto, porque, apesar de tudo, a comunidade dos vivos achou que o morto valia todos estes esforços, dignificando-o como um herói, um BAKORORO que, incansável, sai e entra nas aldeias, tocando o seu instrumento com um companheiro, pois ele nunca estará só. É no momento da passagem para BAKORORO que o Homem "acorda" e capta o verdadeiro sentido de sua existência, um relampejo de consciência profunda religando tudo, exacerbada pela emoção e pela dor da separação, a percepção de que há uma ordem moral básica a seres propriamente humanos que, quando se provêem e alimentam de verdade, constroem-se também uns aos outros, uns nos outros, dialética e regeneração interminável que

transcende o mundo tangível da corporalidade e da própria teia de sociabilidade, desvendando um novo caminho, aquele que leva à morada de BAKORORO, o caminho para o transcendental.

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