![]() |
|
|
![]() |
|
||
| |
||||||
|
Artigos
e Publicações
|
A Caminho de Bakoro: alguns aspectos das Representações da vida pós-mortem dos índios Bororo do Brasil Central** por Renate Brigitte Virtle |
|
Abstract
- Bibliografia
Em
homenagem ao Professor Egon Achaden* **
Comunicação sob a forma de ensaio apresentada para
o curso de Difusão Cultural "Noções de ultra-vida
e visões de inferno, promovido, em 5 de outubro de 1991,
pelo Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas
da Universidade de São Paulo. RESUMO
O ensaio apresenta alguns aspectos fundamentais das crenças
e práticas funerárias entre os índios Bororo
do Mato Grosso. Ressalta a instituição da "substituição
dos finados" Bororo, que nos remete à instituição
da chefia cerimonial simbolicamente associada aos espíritos
BAKORORO-DOGE e ao sentido mais profundo da existência humana. A
organização social dos índios Bororo tem sido
esquematizada por intermédio de um "modelo" de aldeia ideal,
dividindo as comunidades locais em dois semicírculos, um
ao norte, outro ao sul, delineados por um eixo no sentido oeste-leste.
Cada semicírculo é subdividido em quatro segmentos
ou espaços clânicos, perfazendo assim uma seqüência
ordenada de oito clãs configurando um círculo. Arquitetonicamente,
esta configuração se expressa por um anel de
choupanas de palha, construídas sobre segmentos territoriais
dos oito clãs, dispostas em volta de uma grande choupana
central, o centro ritual e político das comunidades. Cada
clã constitui uma unidade ritual e cerimonial, segmentado
por vezes em sub-clãs matrilineares, cuja propriedade e parafernália
cerimonial é guardada pelos moradores das choupanas possuídas
pelos diversos clãs. A residência pós-matrimonial
é preferencialmente matrilocal para a mulher e uxorilocal
para o marido que, entre outras obrigações, deve cuidar
e guardar os ornamentos plumários mais valiosos do clã
de sua esposa. A
propriedade cerimonial dos clãs é mobilizada por ocasião
de ritos denominação dos seus membros, ritos de iniciação
dos jovens de sexo masculino e, principalmente, por ocasião
da morte de um parente. Ser parente significa pertencer à
metade e ao mesmo clã, de modo que, dá a preferência
por casamentos exogâmicos de metade ou casamentos entre pessoas
de metades diversas, o pai de uma criança não é
parente desta, apenas a mãe. A categoria "pai" ou "filho",
quando usada entre homens, constitui expressão de aliança
e amizade, não de parentesco. As
relações de "aliança" entre homens "pais" e
"filhos" entre si manifestam-se conspicuamente por ocasião
dos funerais. O
finado, de morto é transformado em ancestral clânico.
O estágio final de ancestral significa que no final recebeu
tudo a que tinha direito, podendo ser considerado como definitivamente
integrado na aldeia dos mortos, sem o perigo de retornar à
aldeia dos vivos para reclamar por alguma coisa. As homenagens -
cantos, danças, refeições comunitárias,
caçadas e pescarias - são prestadas por homens e mulheres
da outra metade à metade do finado. Portanto, os "pais" prestam
homenagem aos "filhos" e, estes prestam homenagem aos primeiros.
Dentre as inúmeras homenagens, ressalta aquela designada
como "representação" ou "substituição"
de um finado, quando alguém, sempre de outra metade, dança,
manipula o corpo e caça em homenagem a um morto. O homem
eleito como "representante" de um finado é designado como
um "outro", na medida em que é pensado como carregando dentro
de si a alma do finado, um "outro" ou companheiro já falecido. Simbolicamente,
a dupla "substituto-alma" é associada a parelhas de dançarinos,
ou então, a bailarinos, "representantes de finados" segurando
pertences do morto, ostentando os seus enfeites plumários
ou carregando, às costas, uma cabacinha funerária
por ocasião de caçadas ou pescarias coletivas. Ao
desvencilhar-se de tantas tarefas penosas, o "substituto" tem como
objetivo receber, ao final, um nome e enfeites plumários
do clã do seu morto. Esta oferta visa compensá-lo
pelos sofrimentos passados durante o ciclo funerário, representando
também a sua adoção como "filho" pelos membros
do clã enlutado. O efeito da instituição da
"representação dos finados" é prover eventuais
necessidades de mão-de-obra masculina de unidades domésticas
desorganizadas pelo luto, regenerando-se assim a economia doméstica
destruída pelo bloqueio das atividades produtivas dos parentes
próximos obrigados a incinerar a sua casa e a destruir os
bens possuídos e mesmo tocados pelo finado. Assim, para cada
morto, a organização cerimonial Bororo fornece homens,
plenos de saúde e de vigor, geralmente mais jovens, excelentes
provedores, como "filhos" rituais aos clãs enlutados, "filhos"
estes que exercem as mesmas funções cerimoniais dos
finados que "representam", regenerando-se assim a teia de relações
sociais e a integridade moral da comunidade. |
| |
||