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De magia, tempo e memória

por Jerusa Pires Ferreira



No dia em que eu escrever as coisas que estou dizendo, o que pode nunca ocorrer, um bom título seria: "As águas de Eunoe", ... Proust. O tempo perdido ... As águas do rio têm por virtude reavivar a memória de todos os prazeres, de tudo aquilo que exaltou a alma. É desta forma que o indivíduo penetra no Paraíso, uma prodigiosa criação inteiramente de Dante, inclusive o teimo, pois não existe em nenhuma fonte. Digo isto porque falei com críticos de Dante e, consultei grandes textos que me asseguraram de fato, a não ser que alguém tenha descoberto (essas coisas sempre se descobrem, daqui a pouco podem descobrir um poeta persa, do século XII, que tenha falado isto), mas, até segunda ordem, é uma criação de Dante, esta revivificação da memória, a apropriação de tudo que constitui o mais exaltante, o mais virtuoso da idéia do bem, da virtude. Tudo o que produz alegrias está intimamente associado, portanto é uma recriação. Mas vejam, estamos falando em Dante, o gênio poético e o filósofo não sempre tomista. Dante tinha toques de averroísmo. Este é um problema extremamente interessante. Há uma prática poética de Dante que se aproxima da verdade psicológica como entendemos hoje. Existe uma certa idéia de fixidez, mas o gênio poético jamais pode se conformar com a visão estática das coisas. Agora chegamos a um ponto essencial, não estou passando para vocês uma história da filosofia ocidental, no mínimo sem razão. Primeiro porque não conheço filosofia em si mesma. Para dar curso, temos procurado fixar diferentes aspectos desse ideário comum, que vão desde a representação tosca de um santo feito por santeiro do lugar, em que aparece uma certa crença na idéia de virtude e o poema espontâneo cantado pelo jogral de feira até a Divina Comédia. Desde as sensações e impressões até a Suma Teológica. Esta é uma ambição minha desmedida, mas, enfim, é uma tentativa de fixar esquemas que prescindem de concepções feitas, um interesse diferente, uma maneira de se concatenar idéias conforme os diferentes atos de ciência de que estamos falando. Este ponto importante que quero fixar é o seguinte: se passarmos ao Renascimento, e aos teóricos do Renascimento que escreveram sobre a memória, temos uma mudança importante que, para mim, concentra-se em Giordano Bruno (exclusivamente porque eu o conheço melhor que os outros). A filosofia da Renascença não me é muito atraente, a não ser Giordano Bruno. Leonardo escreveu uma boa parte de sua obra em italiano. Leio latim com a tradução ao lado, estudei sete anos de latim e, até hoje, não me libertei muito do horror que é a gente ter que ter latim sem dicionário para fazer exame. É como os Lusíadas: agente nunca pôde apreciar esta obra, mesmo tendo analisado longos de seus períodos para as aulas de gramática e de português. Mas é isso, temos aí uma transformação muito importante; deixa de haver categorias de anjos, categorias de seres bem-aventurados, cada qual com a sua posiçãozinha bem definida, bem nítida e um perfeito contentamento em estar naquela posição. Vejam, eu não estou me referindo à idéia de que, na Idade Média, todo mundo conhecia seu lugar e, por isso, todos estavam contentes. Isso de cada um conhecer o seu lugar sabemos muito bem o que significa! Mas havia revoltas na Idade Média e aqui estamos tratando exclusivamente dos conjuntos simbólicos. Em Giordario Bruno, em primeiro lugar, as imagens que ele mostra da sua maneira de constituir as normas são, a princípio, uma espécie de teatro que ascende, mas que mais tarde torna-se o mundo dos astros, do qual o sol é o centro. Sabem disso: Galileu não descobriu nada, aliás, Giordano Bruno encontrou essa idéia na Grécia. Galileu não foi o primeiro a afirmar que o sol é o centro da terra e que aterra se move em torno do sol, inclusive certas provas clássicas da redondeza da terra, como a sombra projetada na terra e os eclipses, já estavam na Grécia. Porém, Giordano Bruno imagina a memória, a fixação de impressões da memória como a concatenação dessas diferentes imagens e símbolos, dessas diferentes efígies que, segundo ele, são reproduções do real fixadas pelo indivíduo com o olhar. Esse processo de memória tem, em Giordano Bruno, um valor mágico. Pensa-se que a magia era muito importante na Idade Média, mas não era tanto. Havia uma magia popular, mas existia também o perigo de o indivíduo que a praticava acabar virando torresmo. Na Renascença não há autor que não trate da magia. Neste caso não se trata de superstição grosseira, como se diz. São sistemas mágicos que, ao contrário do que se imaginava durante largos anos, tiveram um papel muito importante no desenvolvimento da ciência. Em Giordano Bruno está presente a idéia da progressão do indivíduo de esfera para esfera, que sai da Terra em direção a Marte, como no caso da alma bem-aventurada na Divina Comédia, só que ela se alça aos céus num esforço do seu próprio gênio, por um transcender de imagens dadas. Um fenômeno de criação torna-se central, denominado por ele, de maneira poética e curiosa, de furor heróico, é a ruptura com um dado, e a transformação do dado que o indivíduo cria. O indivíduo é criador e, à medida que se alça das esferas numa operação mágica (pois intuir qualquer coisa é apropriar-se de sua essência, subir, transcender, tornar-se maior), torna-se igual a Deus e os inquisidores lhe perguntaram sobre isto. Ele abordou uma série de teorias e, de repente, resolveu dizer que sim e, então, foi para a fogueira. Estamos diante de uma das concepções fundamentais do Renascimento, e são as diferentes formas que trouxeram até nós um dos alimentos de nosso século. Ainda temos algumas esperanças, a idéia de um progresso, de um aperfeiçoamento, de uma ascensão que, no caso, é material e simbólica, que, concretamente, representava formas alegóricas, sendo, então, uma idéia do universo. Nesse caso, a sistematização das imagens que formam a base de uma memória não é um conjunto de cenas, símbolos e pequeninos dramas cristalizados e fixados de uma vez por todas. Um indivíduo adquire, assim, uma força prodigiosa, porque também é a figuração de um Universo onde o Homem está em contínua expansão. Neste ponto, permito-me introduzir uma nota de discordância com Pirandello. Há um momento em que a personagem principal de uma de suas peças tem uma discussão com um velho bibliotecário e chega-se à conclusão de que é muito difícil saber a verdade. Isto é o tema básico de Pirandello, cosi é si vi pare. Se nós não temos uma certeza, vivemos na angústia. Maldito Copérnico, porque antes dele a gente tinha certeza e as coisas estavam bem acomodadinhas. No meio era o ponto fixo sobre o qual girava tudo. O mundo arrumado nem sempre é aquele em que a gente gosta de habitar. Eu, por exemplo, não gosto das coisas muito arrumadas, vocês devem ter percebido pelo estilo das aulas! Há aí uma idéia de que um sistema corresponde a um ideário, um sistema de lugares, em que se guardaram lembranças vivamente coloridas e fortes. Tudo isto é um sistema das forças e não de ícones. Não se trata de uma série de mosaicos bizantinos estáticos, mas existe a idéia de um universo hierarquizado e absolutamente controlado, com todo mundo chegando à sua posição final depois da morte e acomodando-se. Por isto, está muito distante da filosofia do Renascimento, sobretudo da de Giordano Bruno, em que temos a idéia de criação, que já existia como prática mas que se assume como idéia abstrata. A idéia de que o mundo não está completo e de que o homem coopera com o Deus da criação é contínua. Vocês compreendem como isto é inovador e diferente? Como isto funda certas concepções fundamentais em toda a filosofia ocidental, da forma como nós a conhecemos? Quero dizer que, pouco a pouco, a imagem que vai se firmando é aquilo que se lê nos diferentes folhetos que começam a circular, porque estes filósofos escreveram, primeiramente, em uma língua vulgar, o que já era terrivelmente revolucionário. Tinham vontade de dirigir-se não só àqueles espíritos requintados, com finíssimo gosto de uma grande ambição que viviam em Florença em torno de Lourenço, o Magnífico, mas também àquela camada inquieta em Florença, em Pisa, em Luca (Veneza em geral era outro caso, pois estava dominada pelo Conselho), àquelas que não sabiam ler latim, que não eram clérigos, o burguês, para que conhecessem e sentissem o efeito desta concepção dinâmica do Universo. Não sei se vocês sabem, mas uma coisa que se discute muito é o processo de Galileu. A acusação de heresia não tomou como base a Cosmologia de Galileu, porque o fato de o sol ser ou não o centro da terra, não tinha grande importância e não contradizia os evangelhos. Os evangelhos não eram interpretados como em algumas seitas protestantes atuais? Até conservam a interpretação literal da bíblia, não sei se sabiam que existia na Inglaterra uma sociedade da Terra Chata, que não acreditava que a terra era redonda hoje isso não tem expressão legal, mas grande número das pessoas que viram, pela televisão, o homem pousar na lua aceitou que aquilo lá era mistificação. Alguns acreditam que é mistificação dos americanos, mas então não se tratava de aceitar a bíblia literalmente como verdade total. Havia uma perícia muito grande quanto à interpretação simbólica, sendo que a condenação de Galileu deveu-se ao fato de que se suspeitava, em certas entrelinhas, de que realmente Galileu fosse adepto de certas idéias ou, como aparece em Campanella, da idéia de um progresso em que o homem atingisse elevados planos do conhecimento e que se impusesse no mesmo mundo dos anjos, na base elevada da categoria (se não me engano era dos Serafins). Igualar-se a Deus era blasfêmia profunda, contrato com Satanás. Era isto que se procurava averiguar no processo contra galileu, mas aí há uma idéia de que o indivíduo não se apropriou de uma essência existente no mundo estático, que tem a sua essência permanentemente estabilizada num único Universo atemporal, acrônico e não-histórico, que está além do Universo sensível. O Universo sensível é uma simples cópia degradada, em cujo infinito e infinitude do desconhecido, o espírito se lança para conquistar este Universo, apoiando-se em tudo que ele tem como instrumento capaz de servir a uma imagem. Uma imagem que está se identificando a si própria, eu disse, não funda uma idéia de ciência, como em Giordano Bruno, a idéia de ciência fixada em Galileu e em vários outros. Mas há um limite imperceptível entre magia e ciência, quer dizer, o que se chama magia é inseparável de uma idéia eficiente sobre a matéria, manipulação que se faz com a ajuda de elementos espirituais, que efetivamente transformam a matéria. Estou usando certas expressões para não utilizar coisas mais complicadas como elementos espirituais, mas enfim me faço entender. Há então, no século XVII, o desvencilhar-se da ciência dos ligamentos, dos entrecruzamentos com a magia e, pouco a pouco, a desaparição, o menosprezo, a pouca serventia que vai ter a arte da memória. E porque ocorreu isto? Vejamos, estou falando de coisas que se movem lentamente, que se vão precisando, não através de um indivíduo, mas de uma série deles. Eu penso em Marcel Proust...

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