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Memória da Faculdade de Filosofia (1934-1994)
por Miriam Lifchitz Moreira Leite


Se a diversidade de suportes, por um lado, apresenta problemas para o armazenamento, para a recuperação das informações e para a sua análise, por outro, dá conta da complexidade das atividades administrativas, educacionais, intelectuais e políticas da Faculdade de Filosofia, retrata comemorações, acidentes e crises, permitindo, em alguns casos, o afloramento de novos perfis e vocações inesperadas da escola.

Ao registro da vida cotidiana e de suas transformações, acrescentam-se os rituais de iniciação e de passagem. A análise temporal e espacial das aparências e dos participantes recuperam lembranças ou despertam comparações entre diferentes episódios.

Alguns dos planejadores, diretores e professores nos legaram livros de memórias. Nestes, como nos memoriais hoje exigidos nos concursos de professor adjunto, descortinam-se os móveis de atração da Faculdade de Filosofia, engrenados às aspirações individuais e coletivas de aperfeiçoamento ou de afastamento. Os limites irregulares e incertos da memória coletiva encontram, na individualizaçâo, traços mais nítidos de um passado desaparecido no presente ou diluído na consciência de identidade e participação em outros grupos sociais, como a camada social e econômica, a comunidade científica ou literária, ou ainda a pirâmide burocrática do Estado.

A hierarquia atual de poderes e as condições econômicas da instituição e de seus servidores alteram a impressão causada por questões passadas, sendo que os depoimentos podem corrigir e reorientar as lembranças, pois o grupo social não estabelece relações e sentimentos simétricos entre os vários setores.

Algumas das diferenças internas devem-se ao objetivo múltiplo de seus planejadores. A Faculdade de Filosofia constituir-se-ia numa unidade em que seria institucionalizada, a ciência básica, os estudos lingüísticas aprofundados e onde se desdobraria e se adequaria uma pedagogia que formasse professores do ensino médio.

A confusão freqüente entre a criação da Universidade e a da Faculdade de Filosofia provém do fato de as duas terem sido criadas juntas, bem como da vocação da primitiva Faculdade de proporcionar a seus freqüentadores uma formação nos diferentes campos da Universidade. A interdisciplinaridade, que hoje se propõe como aspiração teórico-metodológica de formação cultural, teve, nos primeiros tempos da Faculdade de Filosofia, condições ideais de se desenvolver num encontro de jovens europeus promissores e de professores, advogados e engenheiros brasileiros ávidos de uma profissionalização consagrada por uma cultura humanística.

Essa diversidade de objetivos determinou as diferentes freqüências e resultou na avaliação da Faculdade, como um todo, pelas escolas tradicionais de:

Famigerada Faculdade Internacional Feminina de Filosofia

Havia também uma avaliação interna de umas seções com relação a outras:

. estudiosos e burros vão para Geografia e História
. vagabundos e inteligentes vão para Filosofia e Ciências Sociais
. estudiosos e inteligentes vão para Ciências Exatas e Biológicas
. vagabundos e burros vão para Letras

A partir de 1970, após a dispersão pela Cidade Universitária, seus alunos foram classificados em quatro grupos, que tanto caracterizam os avaliados quanto os avaliadores:

. tipo militante, sabe tudo e classifica tudo
. tipo interessado curioso, vocação para a pesquisa
. tipo indiferente, no limite não devia ter entrado
. tipo amorfo, está ali por não ter outra escolha

Embora essas avaliações impressionistas façam parte do folclore da Faculdade, tiveram o seu peso nas escolhas das seções ou, pelo menos, no aconselhamento de jovens por parentes ou amigos da família.

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