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Artigos
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Memória da Faculdade de Filosofia (1934-1994) por Miriam Lifchitz Moreira Leite |
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A
Faculdade iniciou as suas atividades em diferentes cenários:
Matemática começou na Escola Politécnica, em seu
prédio da Rua 3 Rios; a Casa de Arnaldo forneceu salas de aula
e laboratórios para a iniciação dos cursos de Ciências
Sociais, Zoologia e Filosofia; a Física ficou na Brigadeiro Luiz
Antônio. A compra do palacete Jorge Street, na Alameda Glete,
permitiu a instalação da História Natural. Atrás
dele construiu-se um prédio para a Química. O pensamento
e as práticas da nova escola entraram em conflito com as práticas
dominantes nas escolas tradicionais-Medicina, Politécnica e Direito.
Ao dogmatismo, opunham-se a liberdade de criação, o julgamento
e a crítica, estimulando o conhecimento baseado em critérios
científicos e no aprofundamento das especializações. Como
todas as escolas dependiam de verbas do Estado, a Faculdade de Filosofia
teve sua criação e um começo promissor enquanto
o diretor do jornal O Estado de São Paulo, planejador
da Escola e "pioneiro de uma política de cultura" (Azevedo, 1973:100-101),
esteve do lado da situação. Assim que foi colocado na
oposição, as verbas começaram a escassear, como
medida para extinguir aquela fonte de despesas que conservadores e remanescentes
do Partido Republicano Paulista queriam remangar. Depoimentos
e entrevistas comprovam imagens e lembranças desses esforços
contraditórios dos primeiros tempos: de um lado, estavam os professores
estrangeiros que se desdobravam através de conferências
livres, programas de cursos e de pesquisa para aperfeiçoamento
do nível educacional, profissional e intelectual dos alunos efetivos
e ouvintes das primeiras turmas; de outro, encontrava-se o coro dos
professores nacionais preteridos, os conservadores das escolas profissionais
e o governo estadual ameaçando continuamente a vida da jovem
escola, pelo corte de verbas. É possível que esse antagonismo,
em que se envolviam o grêmio estudantil, os diretores, os políticos
e os jornalistas, tenha produzido a aura desse primeiro período
da Faculdade de Filosofia. Apesar da dispersão espacial, com
a distribuição por diversos prédios, a cidade de
São Paulo de 1940 era ainda atravessada de ponta a ponta por
bondes abertos e fechados e ainda não tinha ruas intransitáveis.
O centro era chamado de Cidade, onde habitantes de todos os bairros
vinham fazer compras, Ainda não se tomara a Paulicéia
Desvairada, nem se imaginava uma Grande São Paulo, o que facilitava
a comunicação e a circulação de idéias. A
Faculdade de Filosofia mantinha um contato com diferentes setores sociais
da cidade e tinha acesso direto a seu principal jornal, cujo diretor
foi paraninfo da primeira turma e freqüentava aulas e corredores
da Faculdade que conseguira criar. Por sua vez, os professores da Filosofia
divulgavam pelas páginas de O Estado de São Paulo
seus trabalhos de pesquisa e os eventos extracurriculares da Faculdade. Uma
segunda fase inicia-se com a oportunidade oferecida a professores primários
de serem comissionados para fazer os cursos da Faculdade e com a ocupação
do terceiro andar da Escola Normal Caetano de Campos, na Praça
da República, pela diretoria, administração, salão
nobre, grêmio estudantil, salas de aula e de professores. A
dispersão ainda continuava pela Rua São Luiz e pela Brigadeiro
Luiz Antônio. Contudo, o grêmio, extremamente ativo, que
publicava uma revista com trabalhos de professores e alunos e organizava
cursos preparatórios para o vestibular, grupo teatral e clube
de cinema, funcionava como centro de atração e promovia
a convergência dos alunos de Ciências Exatas e Biológicas
para aquela Praça, cenário de tantas fotografias de casais
e grupos de alunos pelos fotógrafos "lambe-lambe" que a povoavam. Os
alunos desse terceiro andar ficavam próximos à Biblioteca
Municipal antes na rua 7 de Abril e depois na Consolação
- e ao Teatro Municipal e a uma pequena distância do Largo de
São Francisco, com a Faculdade de Direito, sua preciosa biblioteca
e os sebos das ruas transversais. A Praça Ramos de Azevedo e
a Praça do Patriarca, nas duas extremidades do Viaduto do Chá,
eram localidades para onde confluíam ônibus e bondes de
todos os bairros paulistanos. É
inevitável que esses quadros sociais do passado apareçam
sempre nas comparações com a Faculdade de Filosofia de
hoje. A tendência de cada depoimento é recuperar fatos,
crenças e necessidades antigas em sua relação com
as atuais. Essa recuperação, em alguns casos, reveste-se
de grande saudosismo, quando se esquecem as rupturas, as dificuldades
e as decepções. Em outros, a recuperação
não é tão seletiva, permitindo restabelecer um
quadro menos deformado, em que entram circunstâncias e relações
felizes e infelizes com a população, com o governo, com
as escolas tradicionais, no desenvolvimento da Faculdade e na formação
cultural e cientifica oferecida. Foram poucos os que se recusaram a
fazer esse trabalho de rememoração por um ressentimento
acumulado ou por uma necessidade de esquecer passagens difíceis
de sua biografia. As memórias e os memoriais transcritos, ou
copiados, tecem uma trama contínua com o trabalho de recuperação
e redefinição de uma experiência individual, que
se apoia na reconstrução de outros, de percurso pelos
mesmos lugares num mesmo momento, ao perceber as diferenças do
cotidiano e de suas rupturas. A
oportunidade de transmitir e refletir sobre a experiência pessoal
tem proporcionado satisfação renovada à entrevistadora
e aos entrevistados, uma vez que representa alteração
e aperfeiçoamento de conhecimento, através da renovação
de encontros e desencontros, numa etapa da vida na Faculdade de Filosofia.
A ação destruidora do tempo pode ter um efeito paradoxal
de destacar e articular novas condições sociais, econômicas
e científicas dos espaços e das condições
de vida pessoal e profissional de seus contemporâneos. O agrado
com o re-visto, com o reconhecimento e com a re-assegurança tira
do trabalho de recuperação o desinteresse da imagem sem
dimensão temporal, permitindo associações e evocações
de circunstâncias conjunturais que são trazidas para o
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