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Memória da Faculdade de Filosofia (1934-1994)
por Miriam Lifchitz Moreira Leite
(*)

Resumo: A partir de depoimentos e documentação escrita de alunos e funcionários de diferentes gerações, esboçou-se um esquema da Memória da Faculdade de Filosofia, de seus diversos endereços, de suas relações variáveis com o conhecimento e o ensino, com a imprensa e com a cidade de São Paulo.

Palavras-Chave: memória - Faculdade de Filosofia - pesquisa - ensino - documentação.

Abstract: We have heard students and administrative technicians of various ages and generations and assembled written documents and books. Oral and written relatories together gave us memory lines of Faculdade de Filosofia in different addresses, its relations with knowledge and learning, with the Press and with São Paulo city.

Key-words: memory - Faculdade de Filosofia - research - teaching - documentation.

No dia 25 de janeiro de 1994, a Faculdade de Filosofia completou 60 anos. A menção abreviada e corriqueira da Faculdade de Filosofia pretende aglutinar suas denominações - a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, resultante da Reforma de 1969.

Essa memória tem de ser desembaraçada dos diferentes fios que a compõem as três populações flutuantes que, em diferentes momentos, reuniram-se em meadas, novelos e carretéis ou desfizeram-se em franjas. A diversidade vivida na Faculdade de Filosofia compõe a memória da instituição, através da consciência de seus membros ativos e "inativos", em que causas e fins tomam a se embaraçar, sendo que o tempo, pelo esquecimento, desfaz arestas e idiossincrasias, ao intensificar lembranças da juventude e da maturidade.

Uma tentativa de periodizar a Memória esbarra nessa multiplicidade de aspectos, entre os quais os diferentes espaços ocupados, a densidade desses espaços, o relacionamento com a cidade de São Paulo e os marcos da História oficial não podem ser esquecidos.

Apesar da aguda consciência com que alguns de seus alunos e professores manifestaram-se a respeito de seus espaços e tempos vividos, este trabalho considera apenas uma combinação de lembranças, que se apoiam umas nas outras, embora não sejam as mesmas que as de cada uma delas. Na colocação de Maurice Halbwachs (1990:53), "a memória coletiva envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas".

À lembrança dos espaços ocupados e dos anos vividos, o trabalho da Memória tem de acrescentar as linhas de pesquisa e suas dimensões educacionais, como a alma revelada às condições materiais da instituição.

Como Marc Bloch respondeu ao filho: "Somos os vencidos provisórios de um destino injusto" e Cecília Meirelles acrescentou: "Que faremos, errantes, entre as invenções dos deuses?"

O trabalho da Memória vai acrescentando e desfazendo imagens gravadas de pessoas, livros, laboratórios, corredores e salas, onde o convívio durante um número variável de anos seguidos ou alternados inscreveu-se, na documentação escrita e em entrevistas e depoimentos reunidos, com totalidade e intensidades diversas. Aos documentos específicos, tais como regimentos, regulamentos e estatutos, acrescentaram-se anuários, guias, relatórios de atividades, balanços parciais e projetos, revistas e artigos, que, comprimidos com livros de escrituração e fichários dos arquivos mortos, fotografias, recortes de jornal e programas de ensino, produzem um documentário do qual os problemas atuais da Faculdade de Filosofia podem extrair momentos e fases decisivas.

O artesanato arquivístico não dá conta de formas e da fluidez de comportamentos e pensamentos, nem da dinâmica social das instituições resultantes do convívio e dos conflitos de uma população flutuante heterogênea, com diferentes padrões culturais e alterações variáveis.

A Memória dá mais importância à relexão sobre os fatos do que à descrição. Insere o indivíduo na memória coletiva, fornecendo uma mistura variável de dados concretos, num labirinto de imaginário coletivo, composto por quadros do passado e reflexões atuais.

Nas primeiras décadas, a Faculdade de Filosofia foi dominada pela ciência positiva a serviço do Estado. Mais tarde, a profissionalização e o ensino secundário dominaram as aspirações de alunos e professores. Durante décadas, pairou sobre a instituição a necessidade da conjugação entre ensino e pesquisa. A importância dada ao objeto e ao método de cada ciência era estabelecido pelos seus limites. Agora, começa a confluir para a necessidade e para os problemas da interdisciplinaridade, tanto nas ciências humanas quanto nas exatas e biológicas.

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(*) Professora pesquisadora do Departamento de História da FFLCH-USP.

 
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