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Objeto, o Colecionador e o Museu

por Maria Cristina Castilho Costa


Os guardiões, os responsáveis, os documentalistas e os conservadores desses acervos são os próprios membros da família, ou alguém em especial que se incumbe dessa função.

Essa coleção doméstica passa de tempos em tempos por uma seleção, na qual novos objetos são incorporados e outros retirados. Alguns vão perdendo seu valor ao longo dos anos, em decorrência da dinâmica da própria vida que altera os significados e as interpretações dos fatos e das relações. Outros, todavia, vão ganhando cada vez mais importância e adquirindo um caráter único, podendo tornar-se insubstituíveis, um bem escasso que se procura preservar: as lembranças de uma viagem que se pensava repetir em breve e que nunca mais foi realizada, a foto de um parente que morreu; a correspondência de um amigo que se mudou.

Assim, os acervos domésticos vão sendo permanentemente atualizados. De quando em quando, são promovidas "exposições temporárias" - algumas fotos ganham molduras, imagens antigas vão adornar os móveis da sala, a caneta do avô é colocada em cima da escrivaninha da entrada. As correspondências e as fotos são exibidas de forma particular e excepcional.

O caráter de tratamento de acervo, de embrião de uma atividade museológica está presente até mesmo nas "fichas técnicas" que as pessoas criam nas fotos e documentos. Qual álbum de família não tem indicações do tipo "Fulana de Tal, aos tantos anos, nas férias de tal ano, na Praia Grande", ou, "Fulano de Tal, no Natal de tanto, quando ganhou a bicicleta nova"? Embora os dados dessas fichas técnicas não sejam científicos, são muitos importantes para o historiador e para o cientista social na reconstituição de fatos e de aspectos da vida cotidiana.

Assim, cada casa tem seus tesouros acondicionados em "reservas técnicas" que podem ser gavetas, baús ou uma caixa antiga de sabonetes, onde são guardados esses objetos de valor predominantemente pessoal e simbólico e que têm o dom de testemunhar a história individual e familiar de seus portadores e usuários.

A respeito disso, fala Jean Boudrillard (1973:94):

"... todo o objeto tem desta forma duas funções: uma que é a de ser utilizado, a outra a de ser possuído. A primeira depende do campo da totalização prática do mundo pelo indivíduo, a outra um empreendimento de totalização abstrata realizado pelo indivíduo sem a participação do mundo... Em última instância, o objeto estritamente prático toma um estatuto social: a máquina.

Ao contrário, o objeto puro, privado de sua função ou abstraído de seu uso toma um estatuto estritamente subjetivo: toma-se objeto de coleção".

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