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Objeto, o Colecionador e o Museu

por Maria Cristina Castilho Costa


Praticamente todas as peças dos acervos dos museus do interior do Estado de São Paulo integram-se em um desses três tipos de coleções, que representam, também, diferentes anseios dos colecionadores e doadores. Com relação ao primeiro tipo, pode-se identificar a vontade de dar aos objetos pessoais um caráter mais abrangente, integrando-os à história da cidade e do Estado. No segundo, por sua vez, há também a curiosidade romântica pelo exótico e pela posse de diferentes exemplares raros, sejam borboletas ou conchas. Finalmente, em relação aos objetos referentes à Revolução de 32, percebe-se a integração dos cidadãos em uma epopéia coletiva, de natureza guerreira, mesmo que esta tenha terminado em insucesso.

Entramos, entretanto, agora, no campo do imaginário, isto é, no campo que busca o sentido das coisas, ou seja, as "conotações especiais para além de seu significado evidente e convencional", como define Jung (1964:20).

Claro está que o que possibilita um objeto deixar sua função utilitária, ser resguardado do perecimento e da deterioração, passar a constituir parte de uma coleção particular e, finalmente, se transformar em patrimônio público e memória coletiva é sua função simbólica, sua capacidade de portar significados e constituir identidade. É sua natureza simbólica que o torna perene às transformações históricas.

Essas coleções representam, em sua natureza comum e em sua semelhança, o imaginário paulista da primeira metade do século XX, aquilo a que o cidadão dava importância por significar sua história, seus mitos, sua identidade. Dava importância, a ponto de conservá-lo entre seus tesouros e de passá-los à guarda do poder público na esperança de vê-lo conservado.

Os museus são instituições históricas, apesar de sua vocação conservadora. Os acervos dos museus, à maneira das coleções particulares, são repensados constantemente. Novas seleções destinam peças ao perecimento e outras à conservação. Hoje, a museologia estuda seus acervos e suas exposições de maneira a torná-los mais condizentes com a realidade histórica e com os atuais princípios de interpretação.

Certamente, esses acervos aqui descritos logo mais se mostrarão anacrônicos para representar a História do Estado de São Paulo. Documentar e interpretar essas coleções é fundamental para entender a mentalidade dos paulistas em certa fase de sua história, naquela em que as famílias deixaram sua autonomia de pequenos "feudos para constituírem uma comunidade, uma coletividade. De alguma maneira, essas doações aos museus, que formaram esses acervos, tiveram um papel importante na constituição desse imaginário coletivo, dessa identidade estadual.

O estudo desse acervo mergulha no imaginário familiar, no papel deste na formação da história estadual, adentrando também na análise da função social dos museus, que passaram a ser os depositários e guardiões das coleções privadas familiares e herdeiros de seu imaginário.

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