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Artigos
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Travessias Ausências e Lembranças: imaginário e memória de navegantes por Sheila Maria Doula |
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Se,
ao partir ou voltar, o navegante provoca diferentes manifestações
emocionais naqueles que estão em terra, o mar, por sua vez, é
para ele um campo privilegiado para a vivência de uma nova e diferente
conjunção de sensações, recordações,
experiências e conhecimentos. Isto porque o mar, na maioria das
vezes, é visto como uma negação e uma grande ausência,
que podem, dependendo da representação que o navegante
faz para si da terra e do mar, adquirir uma valorização
positiva, negativa, ou, ainda, a mescla de ambas. Antes
de mais nada, no mar o navegante se insere num espaço que não
guarda traço da intervenção humana, como afirmou
Corbin (1989:137), "numa paisagem estéril, que o homem seria
incapaz de domesticar ou moralizar." A imensidão líquida
do mar é, a priori, a antítese da terra, da aldeia, da
cidade e, porque não dizer, da materialidade da cultura. É
também a abolição de uma temporalidade cronológica,
que fica quase sempre reduzida apenas à percepção
dos escrivães de bordo. Entretanto,
essa ausência do tempo cronológico - ou o seu não
acompanhamento - propicia ao navegante uma vivência simultânea
e também ao trânsito entre três temporalidades -
futuro, presente e passado. No início da travessia, o entusiasmo
e as expectativas em tomo do desenlace da viagem fomentam a formulação
de imagens sobre o futuro, construindo-se muitas vezes aquilo que Giucci
(1992) chamou de um imaginário "maravilhoso" que, em síntese,
atuaria como forma de cognição antecipada, de um vislumbramento
em relação a uma realidade ainda desconhecida. Esse conjunto
de imagens, voltado para o futuro, é revelado preferencialmente
na primeira parte das narrativas de viagem, sendo que, pela sua leitura,
pode-se perceber como a cultura do navegador elabora simbolicamente
os espaços desconhecidos, a presença de outras culturas
e a questão da alteridade. Historicamente,
o assim chamado "imaginário das descobertas", construído
na passagem da Idade Média para o Renascimento, como forma de
apreender as realidades inéditas das novas terras apropriadas
pelos europeus - incluindo-se aí o continente americano -, é
exemplarmente fértil para demonstrar a efervescência de
imagens projetando um futuro que, neste contexto em particular, adquiriu
uma acentuação nitidamente utópica.(2)
Assim, por exemplo, um navegante da esquadra de Fernão de Magalhães,
baseando-se na memória coletiva e no saber que vinha de uma tradição
oral construída desde a Antigüidade, podia projetar o futuro
de sua travessia oceânica nos seguintes termos: "Fala-se
da zona onde, segundo aquele Aristóteles, que sabia tudo, jamais
chove, e as águas fervem por causa do calor excessivo, cozinhando
os madeiros e descascando as naus. Fala-se de terríveis monstros
marinhos que surgem do vapor das águas ao sul do cabo da Boa
Esperança, e que agarram e trituram os navios como se fosse de
açúcar. Fala-se de criaturas das antípodas, que
vivem de cabeça para baixo. De homens com um só olho na
testa e que vêem apenas o futuro. De outros, com um olho na nuca
para ver o passado, que são seus escravos. De mulheres com cabeça
de porco (...) E se supõe também que há mulheres
com corpo de réptil (...) e crianças que governam impérios
e tratam os velhos como se fossem meninos, e também, por que
não? ardentes amazonas de um peito só que obrigam os homens
a satisfazê-las (...) e depois em Maluco [as ilhas Molucas], para
onde dizem que vamos, o cravo, a pimenta, o açafrão, a
canela, para regressar os mais ricos, e títulos, governos, e
honrarias sem conta." (Ponce
de Léon, 1992:14). Também
no Romantismo, o viés utópico, ainda direcionado particularmente
às ilhas, continuou fazendo do período inicial das viagens
marítimas um deleite para o navegante, ávido por poder,
rapidamente apalpar o futuro. Assim, o marinheiro de um romance de Hermann
Melville, por exemplo, não economiza imagens para nos descrever
aquilo que o espera ao final da travessia, nas ilhas Marquesas: "As
Marquesas! Que estranha visão de exóticas coisas evoca
em meu coração o seu nome! Huris nuas ... banquetes canibalescos
... bosques de nozes de coco... bancos de coral... templos de bambus...
vales repletos de sol, onde cresce a árvore do pão (...)
florestas virgens..." (Melville, 1967:09) Se o imaginário voltado para o futuro domina a primeira parte dos relatos, num segundo momento o presente da travessia, com suas decepções e incertezas, com a preocupação imediata de sobrevivência, com a monotonia minando os ânimos e a experimentação da realidade concreta (que muitas vezes chega a aniquilar todas as projeções futuras), vai forçando gradativamente a evocação de outros tipos de imagens, desta vez voltadas ao passado, também capazes de preencher a vacuidade que o mar instaura. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (2) Vale lembrar que o livro de Thomas More, Utopia, foi publicado em latim no ano de 1516. Verainda Giucci (1992) e Vainfas (1994). |
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