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Travessias Ausências e Lembranças: imaginário e memória de navegantes
por Sheila Maria Doula


Considerações finais

Através de três trajetórias individuais, tomadas como exemplo, pode-se perceber que o longo período de distanciamento causado pela viagem possibilita aos navegantes diferentes leituras da cultura, da sociedade e do momento histórico em que eles vivem. A característica mais marcante apresentada, especificamente, por essas leituras é o fato de não terem sido provocadas pelo impacto de um choque cultural ou pelo contato entre civilizações diferentes. Não foi através da comparação que a leitura se processou, mas sim como fruto do próprio isolamento e da experiência de se viver com certas ausências. Mesmo no caso de Ulisses, que trava relações conflitantes com "seres" do mundo desconhecido, percebe-se que a questão da alteridade aí não é colocada em termos de culturas distintas, mas sim como uma oposição entre humanidade e animalidade.

Como foi dito no início deste artigo, o isolamento não significa desligamento e a análise das três travessias parece ter demonstrado isso. O que importa saber agora é como o resgate da cultura de origem de cada navegante age na memória enquanto instrumento de interpretação para novas realidades, como essas realidades alteram ou não a visão de mundo do navegante e, finalmente, quais as diferentes posições desses navegantes em relação à sua cultura e à sua sociedade após o distanciamento.

Ulisses, o primeiro exemplo analisado, afasta-se de Ítaca por um capricho dos deuses. Embora a viagem não tenha sido premeditada e não apresente para ele nenhum objetivo definido, o herói aproveita-se dela para compor um repertório de estórias que serão narradas e gravadas na memória de sua pátria. Ulisses utiliza suas proezas no mundo desconhecido apenas para retirar exemplos e ilustrar uma alteridade que já estava preestabelecida. Essa parece ser a função específica desse navegante, que faz de sua odisséia e de si mesmo uma reificação da cultura helênica, à qual ele se encaixa, no seu retorno, como uma peça que estava faltando.

Em A Odisséia, a cultura serve, essencialmente, para conferir identidade ao indivíduo, mas não individualidade. É por isso que, durante os vinte anos de afastamento, na memória de Ulisses não há espaço para a evocação de imagens pessoais ou íntimas; somente existe lugar para evocar sua posição de herói e guerreiro dentro da engrenagem e dos objetivos de sua cultura.

A memória de Ulisses também não abre espaço ao conhecimento, pois este poderia provocar alterações numa estrutura social e cultural etnocentricamente representada como perfeita. Na travessia desse primeiro navegante, portanto, a memória é um elemento perigoso: deve servir apenas para confirmar e legitimar o que já é conhecido e não para propiciar novas concepções de mundo. Nesse sentido, pode-se dizer que a viagem de Ulisses representa para a sua sociedade um momento de refundação (4) e que a travessia marítima marca simbolicamente essa confirmação. A refundação da sociedade de (e por) Ulisses ocorre eminentemente sob o alicerce da alteridade, nesse caso representada como sinônimo de negação. É, pois, através dessa alteridade-negação, evocada constantemente pela memória, que ele interpreta a realidade de sua travessia.

A odisséia no mundo desconhecido é mostrada como se Ulisses adentrasse um espaço repleto de espelhos: em qualquer ângulo da paisagem, inclusive na água do mar, o reflexo da imagem do herói é sempre central. O mundo desconhecido é um cenário de fundo, que existe apenas para dar validade e realce às concepções prévias desse navegante. Em síntese, a conclusão a que se chega é que o desconhecido é pequeno, dada a grandeza heróica de Ulisses.

Já o segundo navegante, Juanillo, vive em outro momento histórico, no qual, apesar do etnocentrismo europeu, o Renascimento cria condições mais favoráveis ao conhecimento de novos espaços geográficos, ao desenvolvimento das ciências e à valorização da memória dos navegantes enquanto registro empírico de novas realidades.

No entanto, é justamente por não se ocupar da tarefa de descrever "oficialmente" a viagem, que a reconstrução de seu relato adquire maior importância:

como um simples marinheiro, Juanillo nos oferece uma outra versão da história, em que se questiona a ideologia imperial e expansionista dominante da época.

O objetivo central da crítica de Juanillo é mostrar que por detrás dos símbolos culturais está o homem, ou seja, que sob a figura do rei (que representa o poder, a lei, a hierarquia, a soberania da nação, etc.) e também sob a figura do navegante (que põe em prática a expansão, o domínio, os projetos de riqueza), estão indivíduos que, apesar de conviverem numa mesma sociedade, possuem concepções de mundo diversas.

É justamente dentro da nau, durante a viagem, que Juanillo tem a oportunidade de conviver com duas concepções diferentes: a de Dom Hernando (Fernão de Magalhães), o grande comandante que é a extensão do rei no mar, e a dos marinheiros que, como ele, estão ali por falta de opção, em decorrência de uma posição marginal que eles ocupam em sua sociedade. Da tensão que resulta do contato entre essas duas concepções, Juanillo extrai elementos para criticar também a falta de sensibilidade do poder, que não enxerga a distância entre os fins que elabora teoricamente e os meios escassos que efetivamente dispõe. Atirados à própria sorte para descobrir esses meios, os marinheiros concluem que, para a sociedade da qual se afastam, somente o resultado da viagem é importante e não os indivíduos que a tornam realidade.

No distanciamento, através da comparação entre os dois conjuntos de imagens complementares que Juanillo evoca (as imagens da corte e as de sua aldeia), ele pode perceber com mais clareza as engrenagens do funcionamento de sua sociedade. A hierarquia, o poder, a distinção de classe e a riqueza são temas para que o bufão reflita sob a ótica de sua marginalidade. Assim, evocando, de um lado, as imagens do cotidiano da corte, Juanillo interpreta a realidade trágica de sua viagem como mais uma das muitas arbitrariedades do rei. Notadamente na parte final da travessia, quando tenta resumir o resultado de toda aquela experiência desastrosa, Juanillo relembra com amargura várias cenas do rei, divertindo-se ao brincar com o destino de seus súditos. Por outro lado, através da evocação de imagens do cotidiano de sua aldeia, Juanillo interpreta a mesma travessia também como o esforço inútil de um aldeão sonhador, que de Maluco só trouxe estórias para contar.

Para o bufão, como foi visto anteriormente, a travessia marítima representava inicialmente a possibilidade de uma reversão de status e percebe-se que, segundo essa concepção, tal mudança só seria possível se efetuada fora da própria sociedade de origem do navegante. O desconhecido, por sua vez, era então representado como um grande depósito de títulos, de riquezas e honrarias, elementos constitutivos da nova posição que Juanillo, então dono de seu destino, sonhava ocupar quando retomasse à terra.

Embora a travessia não tenha causado as mudanças projetadas pelo bufão, mesmo assim ela ainda leva o símbolo da transformação. Se a cultura do navegante incorpora e acumula o conhecimento de uma nova rota para as Molucas, ampliando o seu poder de penetrar o desconhecido, para o marinheiro Juanillo ela significa mais do que isso. Ela modifica essencialmente a visão de mundo desse navegante em relação tanto ao desconhecido, quanto à própria sociedade. A frustração e a tragédia que marcam a travessia forçam, posteriormente, Juanillo a ressemantizar o desconhecido e a sociedade, que passam a ser representados então como forças superiores ao próprio homem. Após o período de afastamento, a conclusão a que Juanillo parece chegar é que, em ambos os espaços, ele é apenas um figurante e que, seja na terra, seja no mar, a marginalidade é seu destino imutável.

A questão da crítica social, desenvolvida em Maluco como produto do distanciamento de Juanillo, é retomada sob um prisma diferente em Arquipélago. Enquanto no caso do bufão a crítica é gerada a posteriori, como resultado da vivência de uma situação concreta de marginalidade social, para o narrador de Arquipélago, ao contrário, ela faz parte de um conhecimento abstrato prévio, incorporado através da leitura de obras literárias e científicas.

Apesar de ambos partilharem da utopia como representação de uma sociedade idealizada, Juanillo vê nas ilhas Molucas um paraíso já construído - pela tradição oral de sua cultura -, de onde ele almeja retirar apenas aqueles elementos que reverterão seu status na sociedade de origem, à qual ele pretende voltar. Já para o narrador de Arquipélago, a utopia é a projeção e a construção - através de uma tradição bibliográfica - de uma nova sociedade na abóboda da igreja, onde ele tem a intenção de permanecer.

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(4) Agradeço ao Prof. Adone Agnolin esta observação.

 
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