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Artigos
e Publicações
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Travessias Ausências e Lembranças: imaginário e memória de navegantes por Sheila Maria Doula(*) |
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Resumo:
Através da análise de três obras de ficção,
discute-se a memória e o imaginário dos navegantes em
face do seu distanciamento em relação à terra.
O período de afastamento é tomado como paradigma
para se analisar como o resgate da cultura de cada navegante,
através da memória, atua no processo de cognição
de novas realidades, se essas realidades modificam a visão
de mundo do navegante, e quais as posições
que eles assumem diante de suas sociedades após o distanciamento. Palavras-chave:
memória - imaginário cultura - cognição
- mar (navegantes). Abstract:
Through the analysis of three fiction works, we discuss seafarer's
memory and imagery in face of their distancing from land.
Seclusion periods taken as paradigmatic in the analysis of how
each seafarer culture, when rescued by memory, acts in
new realities cognition process; if those realities modify the
seafarer world vision; and how seafarers behave when they
return to their societies. Key-words:
memory - imagenary - culture - cognition - sea (seafarers). Mar e Memória O
mar, muitas vezes inevitável para certas culturas, foi e continua
sendo pelos segredos que ainda contém - um paradigma fértil
para o exercício da reflexão mitológica, religiosa
e científica, instigando continuamente a construção
de imagens e o processo de cognição humana. A
análise do imaginário referente a esse espaço,
ainda tido como desconhecido, evidencie que, historicamente, certas
relações antagônicas, ligadas às práticas,
às formas cognitivas e perceptuais, às emoções
e principalmente ao significado, foram estabelecidas em relação
ao mar por diferentes culturas. Assim, se, por um lado, a imagem do
Dilúvio, por exemplo, presente em várias mitologias, confere
ao mar um angustiante significado de morte, alertando-nos daquela aniquilação
primordial que apagou de forma irreversível outros mundos, outras
civilizações e outros tempos de nossa memória ancestral,
por outro, há mitologias e até mesmo o discurso científico
que concebem o caráter original e matricial da vida, construindo
uma imagem de mar enquanto memória biológica e arqueológica
da terra. À concepção sublime de um mar sereno,
que protege submerso um avesso perfeito e esquecido do mundo, opõe-se
uma visão trágica de caos e fúria, de tempestades
e naufrágios, que os raros sobreviventes relembram através
de imagens de destruição e terror. Ao mesmo tempo em que
se cria uma imagem do mar trazendo no seu fluxo o inimigo invasor e
a doença desconhecida, no seu refluxo ele pode encaminhar o herói
à consagração e à posteridade, purgar a
memória da terra afastando os degredados, ou curar o corpo social
empurrando, para bem longe, a nau dos insensatos abarrotada de loucos. Poderíamos
prosseguir indicando uma série bem maior de oposições,
(1) uma vez
que o mar, enquanto um símbolo polissemântico, se oferece
a uma significação que percorre diferentes direções,
multas vezes até opostas. Entretanto, o objetivo, aqui, não
é este. Interessa, no presente artigo, analisar o navegante e
sua relação não só com o mar, mas também
com a terra - leia-se cultura -, da qual ele se afasta na travessia
marítima. Não
se pretende, com isso, dizer que na travessia o navegante seja passível
de um descolamento cultural, como se a viagem fosse sinônimo de
desligamento. Ao contrário, a travessia e o próprio mar
serão lidos por aquele que navega através do olhar de
sua cultura, sendo este olhar historicamente determinado. Mais ainda,
salienta-se também, que o navegante é objeto deste mesmo
olhar cultural e que, por estar associado a um símbolo de forte
polissemia como o mar, sua imagem suscita significados e reações
emotivas que, novamente, apontam para direções diversas.
Assim, o navegante pode provocar respeito se estiver num contexto em
que a travessia marítima é vista como um ato próprio
dos heróis; curiosidade e maravilhamento se for um descobridor
que inaugura possibilidades inimagináveis a uma sociedade em
expansão; pânico e repúdio se for considerado um
contaminador de doenças desconhecidas e longínquas; medo
e insegurança se for um pirata, bandido ou invasor; fascínio
se for representado como um aventureiro de liberdade desmedida; encantamento
se for um contador de estórias; nojo e repugnância se integrar
a escória da marinhagem corrupta e degenerada. Associados
a esses significados que as representações sobre os navegantes
suscitam, os momentos de partida, bem como os de retorno desses marinheiros,
também podem inspirar um conjunto de emoções ambíguas,
positivas ou negativas, tais como medo, alegria ou alívio para
as sociedades das quais eles irão se isolar ou foram isolados.
O próprio navegante, aliás, pode demonstrar, diante de
seu afastamento, sentimentos contrários àqueles que a
sociedade manifesta, seja no momento da partida, seja no da reintegração. Próxima Página • Última Página (*)
Doutoranda em Antropologia Social da Universidade de São Paulo
e pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar do Imaginário
e Memória - NIME\USP. (1) Ver, a propósito, a água como arquétipo na análise de Bachelard (1989); o mar e a praia como produtos históricos-culturais na análise de Corbin (1989). |
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