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Artigos
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O passado, Mundo do Outro e Outro Mundo: tradição oral e memória coletiva por Maria Luísa S. Schmidt |
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"Que
nem nós aqui, moramos toda família aqui: papai, mamãe,
moram aí, tudo nós, graças a Deus, estamos morando.
Mas um dia acontece qualquer coisa que a gente sai daqui. Já
fica uma história: ói, nós morávamos em
tal lugar - morava meu pai, morava minha mãe, depois saímos,
mudamos. Então fica uma história para trás, né?
Aí, nossos filhos, para eles já é uma história.
É o mesmo que passou-se nesse tempo (de dantes). É
história." A
história, dessa maneira, permanece no mundo pela tradição
oral e é, originalmente, o testemunho de alguém que presenciou
um evento ou um modo de ser do mundo que já não existe,
mas que existiu outrora: tudo que existe como história, existiu,
um dia, como fato. E tudo que existe no presente como evento para a
experiência direta poderá, no futuro, sobreviver como relato. O
acervo da tradição oral, que Paula conhece e transmite,
descortina o mundo de dantes", o passado como de fato ele foi. O
contar e o ouvir histórias adquirem, no interior desta concepção,
uma dimensão muito mais ampla e complexa do que a de mero divertimento.
Significativamente, o estado de espírito que Paula nomeia como
disfarçado parece próximo àquele em que se tecem
as reminiscências. As
narrativas de Paula são acompanhadas de reflexões e comentários
que fazem conhecer cosmologias, opiniões e valores. Na
construção das teorias que amalgamam sua experiência,
a observação de fenômenos naturais e humanos presentes
no cotidiano e a interpretação de dados diversos advindos
da tradição oral estabelecem uma dinâmica que vale
ser examinada à luz das idéias de Maurice Halbwachs sobre
memória coletiva. Halbwachs
(1990) aponta que o trabalho da memória apoia-se, sobremaneira,
no testemunho da experiência passada do indivíduo e no
de outros indivíduos internalizados ou presentes fisicamente.
O sujeito da memória é coabitado por diferentes pontos
de vista, sendo que o confronto entre eles constitui a própria
matéria da memória. Estes pontos de vista ajudam o indivíduo
não só a lembrar e a localizar suas lembranças,
mas, também, a ver e a observar a realidade presente. A
concepção da memória como confronto de testemunhos
e sua implicação na apreensão e na elaboração
da realidade abrem o caminho para uma leitura possível sobre
o lugar da tradição oral na construção das
cosmologias de Paula. À
medida que as histórias e "casos" transmitidos oralmente são
tomados como testemunhos verídicos do tempo passado, ingressam
no universo reflexivo de Paula quase que como lembranças de antepassados,
como lembranças de um passado longínquo e distante. Esta
idéia das narrativas como lembranças será retomada
mais adiante. Retém-se, por enquanto, a presença das histórias
como interlocutoras no trabalho de compreensão da realidade,
como pontos de vista dos "antigos" com os quais a observação
dos fenômenos naturais e das ocorrências atuais - a experiência
direta - dialoga. Após
contar um pequeno episódio sobre um casal de monos (3)
que espanta um caçador, mantendo entre si uma conversa em linguagem
humana, Paula faz o seguinte comentário: "Não
é uma coisa que podia se dar mesmo? Nos tempos de dantes, diz
que as caças tudo falavam. Nós que não entendemos.
Mas a caça fala: o passarinho fala, a galinha fala. Se você
prestar atenção - porque nós aqui não prestamos
atenção - mas se você vive a sua vida só
para prestar atenção nos animais, você vai indo
de um jeito que você é capaz de entender uma fala de uma
galinha, de um galo. Você pode ver: vai um galo, uma galinha,
dois, três galos; estão lá a galinha, aí
eles falam entre si - ou então com a galinha - a galinha sai
(...) Às vezes, você pode ver, no terreiro, encontram três,
quatro galinhas: elas ficam ó... cabecinha junto, quietinhas,
ali. Tão cochichando! A
formiga, você pode ver. Você vai no carreiro da formiga,
elas vão indo, tudo com a carguinha nas costas. Quando encontram
com a outra, elas param, para dar obediência: aquilo é
bom-dia ou boa-tarde, ou "você não está muito carregado?". Nas
trocas estabelecidas entre os testemunhos dos "antigos" e a experiência
direta, vê-se que as histórias chamam a atenção
para certos fenômenos e a observação destes tende
a confirmá-las, ampliá-las ou relativizá-las. A
credibilidade das histórias é, igualmente, reforçada
pela observação da natureza. Paula
relata uma historieta de uma raposa (4)
que atravessa um rio com Jesus Cristo nas costas, fazendo, desta maneira,
um favor a nossa Senhora. Em agrade-cimento, Nossa Senhora promete que
a raposa criará seus filhos sem dor, por fora. Terminando
o relato, diz: "A
raposa, você pode ver, você vê que ela está
cheia de filhos. Ela enche-se de filhos. Cria os filhos todos nas costas." Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (3)
Mono-carvociro, tipo de macaco comum na região da Juréia. (4) Raposa é o nome que usa para designar o gambá. |
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