A
tradição oral comporta, neste caso, pelo menos três
aspectos relevantes para a elaboração da experiência
do grupo: a repetição dos relatos tradicionais; o empreendimento
de comentários e reflexões, atualizando valores e cosmologias;
e a acolhida dos "casos" como acréscimos ao acervo tradicional
que vai se sedimentando, ao mesmo tempo em que se expande. Nesse processo,
parece não haver rupturas, mas constante interpretação
e reconstrução das realidades figuradas nas histórias.
Os indícios de uma apropriação do mundo, através
das narrativas que, pelo mesmo movimento, adequam-se à experiência
do grupo, aparecem não só nos comentários e reflexões,
mas também no texto mesmo das histórias.
Uma
sobrinha de Paula conta o episódio de dois compadres que, andando
pelo mato, deparam-se com um homem que, diante de um penhasco, profere
as palavras: "Abre pedra Suzana! ", obtendo, assim, acesso a um tesouro
escondido. A analogia com o Abre-te Sézamo! das Mil
e Uma Noites é clara, porém, o contexto da
história como um todo é próprio do modo como estes
caiçaras concebem o tema do desejo de ascensão social
(a cobiça) e o mistério do ouro.
Outro
exemplo significativo desta dinâmica, na qual as narrativas consolidam-se
como registro singular da relação da comunidade com o
mundo, são as histórias sobre Nossa Senhora. Nelas, Nossa
Senhora anda pela Terra, que é especialmente vizualizada como
as terras da comunidade, com suas paisagens, seus animais e seus habitantes.
Nelas, Nossa Senhora convive com caiçaras e o tempo de sua permanência
na Terra é próximo e familiar aos habitantes de Cachoeira
do Guilherme.
Estas
breves observações colocam a tradição das
narrativas no lugar de uma condição para a elaboração
da experiência coletiva, condição que, no entanto,
é efeito desta mesma elaboração. Como parte da
memória coletiva do grupo, as histórias são, a
um só tempo, resultado do trabalho de recolhimento e de transmissão
da experiência social e oportunidade para retomada dos modos próprios
de ser e de pensar da comunidade diante de um mundo anterior e mais
amplo.
Referências
Bibliográficas
ARRIGUCCI
JR., Davi. Encontro com um narrador: Julio Cortázar (1914-1984).
Enigma e Comentário: ensaios sobre literatura e experiência.
São Paulo, Cia das Letras, 1987.
HALBWACHS,
Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo, Edições
Vértice/Editora Revista dos Tribunais, 1990.
ROJAS,
Dolores Enciso. Perversión de la memória: las mentiras
de los bígamos. Segundo Simpósio de História de
las Mentalidades: La memória y el olvido. Anais... México,
Instituto Nacional de Antropologia e História, 1986.
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