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O passado, Mundo do Outro e Outro Mundo: tradição oral e memória coletiva
por Maria Luísa S. Schmidt


A tradição oral comporta, neste caso, pelo menos três aspectos relevantes para a elaboração da experiência do grupo: a repetição dos relatos tradicionais; o empreendimento de comentários e reflexões, atualizando valores e cosmologias; e a acolhida dos "casos" como acréscimos ao acervo tradicional que vai se sedimentando, ao mesmo tempo em que se expande. Nesse processo, parece não haver rupturas, mas constante interpretação e reconstrução das realidades figuradas nas histórias. Os indícios de uma apropriação do mundo, através das narrativas que, pelo mesmo movimento, adequam-se à experiência do grupo, aparecem não só nos comentários e reflexões, mas também no texto mesmo das histórias.

Uma sobrinha de Paula conta o episódio de dois compadres que, andando pelo mato, deparam-se com um homem que, diante de um penhasco, profere as palavras: "Abre pedra Suzana! ", obtendo, assim, acesso a um tesouro escondido. A analogia com o Abre-te Sézamo! das Mil e Uma Noites é clara, porém, o contexto da história como um todo é próprio do modo como estes caiçaras concebem o tema do desejo de ascensão social (a cobiça) e o mistério do ouro.

Outro exemplo significativo desta dinâmica, na qual as narrativas consolidam-se como registro singular da relação da comunidade com o mundo, são as histórias sobre Nossa Senhora. Nelas, Nossa Senhora anda pela Terra, que é especialmente vizualizada como as terras da comunidade, com suas paisagens, seus animais e seus habitantes. Nelas, Nossa Senhora convive com caiçaras e o tempo de sua permanência na Terra é próximo e familiar aos habitantes de Cachoeira do Guilherme.

Estas breves observações colocam a tradição das narrativas no lugar de uma condição para a elaboração da experiência coletiva, condição que, no entanto, é efeito desta mesma elaboração. Como parte da memória coletiva do grupo, as histórias são, a um só tempo, resultado do trabalho de recolhimento e de transmissão da experiência social e oportunidade para retomada dos modos próprios de ser e de pensar da comunidade diante de um mundo anterior e mais amplo.

Referências Bibliográficas

ARRIGUCCI JR., Davi. Encontro com um narrador: Julio Cortázar (1914-1984). Enigma e Comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo, Cia das Letras, 1987.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo, Edições Vértice/Editora Revista dos Tribunais, 1990.

ROJAS, Dolores Enciso. Perversión de la memória: las mentiras de los bígamos. Segundo Simpósio de História de las Mentalidades: La memória y el olvido. Anais... México, Instituto Nacional de Antropologia e História, 1986.

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