![]() |
|
|
![]() |
|
||
| |
||||||
|
Artigos
e Publicações
|
O passado, Mundo do Outro e Outro Mundo: tradição oral e memória coletiva por Maria Luísa S. Schmidt(*) |
|
Resumo:
Este artigo visa apresentar e analisar os depoimentos de uma moradora
da comunidade de Cachoeira do Guilherme, situada no interior da Estação
Ecológica Juréia-Itatins, no litoral sul de São
Paulo. Parte-se da explicitação da rede de concepções
da narradora sobre a tradição oral das narrativas e busca-se
analisá-las sob a luz das idéias de Maurice Halbacks a
respeito de memória coletiva. Palavras-chave:
tradição das narrativas - memória coletiva
- experiência comunidade tradicional - história oral Abstract:
This article presents and analyses the testimony of a dweller
of Cachoeira do Guilherme community, placed at Juréia
Itatins Ecological Station, in São Paulo State south coast.
The starting point is the explicitation of the testifier's conceptions
web on oral tradition of narratives, and these are scrutinized
under the light of Maurice Halbacks ideas on collective memory. Key-words:
narrative tradition - collective memory-experience-traditional
community - oral history. No
decorrer do trabalho de campo da pesquisa Experiência, tradição
oral e religiosidade em comunidades da Estação
Ecológica Juréia-Itatins, (1)
colhemos depoimentos de Paula, moradora da comunidade tradicional
de Cachoeira do Guilherme. O
primeiro depoimento foi feito em 15 de julho de 1992 e teve início
numa "conversa de cozinha", na qual Paula abordou diversos temas atuais
e passados de sua vida e da vida da comunidade e, em resposta ao interesse
dos pesquisadores pelo tema da tradição oral, contou histórias
entremeadas por comentários pessoais. Este depoimento evidenciou
o talento de Paula como narradora e configurou parte de suas concepções
sobre a origem da tradição oral.
Um segundo depoimento foi realizado em 27 de julho de 1993 e, proposto
pelos pesquisadores, focalizou o tema da tradição das
narrativas. Como o primeiro, desdobrou-se no relato de histórias
e "casos". Paula
herdou de seu pai - Seu Sátiro - o gosto pelas narrativas. Ao
ser indagada sobre as histórias que conhece, inicia sua fala
com uma referência à infância. Neste período
aprendeu grande parte de seu repertório e dele retém a
imagem do ouvir histórias como divertimento, como uma espécie
de brinquedo. "Ah!
isso para nós era um divertimento. Esse papai, onde ele estava,
estava a roda da criança, escutando história. Então,
nós aprendemos ... Escutava eles contarem, já outro contava
para outro. Aquilo era tipo de um brinquedo para nós. Já
era ... brincar." Esta
dimensão de divertimento, de brinquedo, tão marcadamente
identificada com o lugar das narrativas no universo infantil, toma-se
incerta no adulto. Paula, ao introduzir o adulto, desliza das palavras
divertimento e brinquedo para a palavra disfarce, que para ela tem um
sentido próximo do estar distraído. A
partir deste deslizamento e da posição de mulher madura,
interroga-se sobre a natureza das histórias. "E sabe que a história é uma coisa bom mesmo. A gente, agora, porque é mais velho... mas a história, para qualquer um, é um tipo de um ... sei lá, um disfarce. Você está assim sentado, escutando uma história, você está disfarçado, você não está pensando nada, está escutando aquela história, vendo aquele... Então, é um tipo de um disfarce. Nem sei até que é a história! Não sei contar o que é. Não sei se foi coisa que passou-se mesmo. Acho que foi, né? Coisa que passou-se de dantes..." No
transcorrer de seus pensamentos, a história vai se afirmando
como relato do que se passou, como testemunho do passado, do "tempo
de dantes". (2) "Se
nós contarmos um caso, fica uma história. É o mesmo
da vida da gente. Qualquer coisa é uma história. Então,
é por isso que ficou, as histórias. Mas só podia
ser por isso, porque como que ficou a história? A história
é a vida mesmo, acho que é. Foi a real que passou-se de
dantes. A real. Porque todas as coisas têm uma história.
A história foi isso: coisa que passou-se. Então, ficou
por história. Você sabe, tudo que é de passado,
fica por história." As
histórias são a "vida mesmo, a real que passou-se de dantes".
Ao comentar um conto que havia acabado de narrar, Paula admira o modo
como os acontecimentos da vida das personagens desenvolvem-se e arranjam-se
como num romance. E, a seguir, conclui: "Toda a vida da gente é
um romance". Assim, também, a vida de qualquer pessoa pode se
preservar como romance. A
concepção de Paula sobre a origem das narrativas e a sua
permanência e transmissão ao longo do tempo sustenta-se,
em grande parte, nesta relação que une a vida às
histórias, ligando, no mesmo movimento, a vida presente ao passado
e ao futuro. Próxima Página • Última Página (*)
Professora do Departamento de Psicologia Social da USP. (1) Projeto desenvolvido junto ao Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, com a colaboração de Miguel Mahfoud e o apoio financeiro da Fapesp. (2) O tempo de dantes, expressão usual dos habitantes de Cachoeira do Guilherme, designa um amálgama de épocas e acontecimentos. Nele cabem diversos tempos, tais como: o tempo em que Jesus andou pela Terra; o tempo em que os bichos falavam; o tempo em que os homens eram animais; o tempo dos bugres, entre outros. |
| |
||