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Resenha: O Sorriso e seus Significados
por Renato da Silva Queiroz
(*)


Título: O Sorriso e seus Significados
Autor: Emma Otta
Edição: Petrópolis, Editora Vozes, 1994 - 124 páginas.

Resenhado por: Renato da Silva Queiroz


O universo da comunicação humana não-verbal constitui um rico e apaixonante campo de investigação. Gestos, expressões faciais, movimentos e posturas corporais, tons de voz, espaço inter-pessoal e outros aspectos não-verbais da fala comportam mensagens sobre estados emocionais, atitudes e dimensões da personalidade.

O estudo deste vastíssimo repertório de códigos e sinais não é recente. O livro clássico de Charles Darwin, "A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais", editado originalmente em 1872, já examinava a evolução das expressões faciais humanas a partir dos nossos ancestrais animais, a natureza inata ou aprendida destas manifestações e diversos outros temas derivados do princípio segundo o qual o processo evolucionário abrange tanto as estruturas orgânicas dos indivíduos quanto a expressão de suas emoções. Todavia, foi preciso esperar as décadas de 60 e 70, do presente século, e o desenvolvimento da Etologia para que fossem alcançados progressos significativos nesta área do saber.

Com O Sorriso e seus Significados a professora Emma Otta, do Departamento de Psicologia Experimental da USP, oferece ao leitor uma síntese atualizada dos trabalhos mais relevantes produzidos por etólogos e psicólogos sobre o sorriso, este fascinante traço da comunicação humana não-verbal. Em linguagem clara e objetiva, ilustrada com o auxílio de numerosos gráficos e reproduções fotográficas pertinentes aos temas abordados, a autora preparou um texto rigoroso, mas que se oferece, generosamente, ao público externo à academia. Além disso, Emma Otta partilha com o leitor o desenrolar de suas próprias pesquisas e os resultados de investigações conduzidas por renomados especialistas.

É sabido que os chimpanzés, situados bem próximos ao homem na escala evolutiva, costumam exibir expressões semelhantes ao sorriso e ao riso. Ademais, a presença do sorriso é universal entre os humanos, aparecendo no recém-nascido como um padrão já completo, prontamente reconhecido, não obstante a diversidade das culturas. Essas evidências sugerem que estamos diante de um comportamento inato, objeto de "burilamento" posterior exercido pelos padrões culturais e pela experiência social.

Sendo assim, o sorriso não parece ser biologicamente supérfluo. Ao contrário, contém inegável valor de sobrevivência, sobretudo nos primeiros meses de vida (quando o bebê é ainda bastante dependente e indefeso), contribuindo para despertar e manter o afeto, a proximidade e os cuidados da mãe. Afinal, observa a autora, "se o bebê só chorasse, tivesse cólicas e sujasse as fraldas o dia inteiro, suas chances de vir a sofrer negligência ou abuso por parte dos adultos poderiam ser maiores".

O aparecimento do riso é mais tardio, registrando-se as suas primeiras ocorrências por volta do quarto mês de vida. Estímulos físicos (cócegas, principalmente) e depois incongruências cognitivas (a mãe fazendo de conta que toma mamadeira, por exemplo) desencadeiam as manifestações do riso em bebês. Nesta medida, o riso constitui um mecanismo para lidar com aspectos novos e provocativos do ambiente, além de promover e refletir o desenvolvimento cognitivo.

Contextualizando as manifestações do sorriso e acompanhando as suas ocorrências na trajetória de desenvolvimento do indivíduo, Emma Otta consegue apreender aspectos muito significativos desta modalidade de expressão facial. Assim, por exemplo, são diversas as situações em que as mulheres sorriem mais do que os homens, o que pode ser interpretado como um gesto de apaziguamento, pois os homens tendem a exibir, com maior freqüência, indicadores de dominância. Por outro lado, o sorriso não aparece necessariamente como expressão autêntica de prazer ou alegria, pois manifesta-se também em situações de tensão ou desconforto. Além disso, levando em conta que os eventos específicos que desencadeiam as emoções são aprendidos e, culturalmente variáveis, assim como as regras que controlam a exibição do sorriso, a autora considera neste seu estudo tanto as características dos ambientes particulares de criação (notadamente a família) quanto a cultura mais ampla a que pertence o indivíduo. No tocante às exibições emocionais, certas culturas são "reservadas", em flagrante contraste com aquelas consideradas "demonstrativas".

As exibições de sorriso, assinala Otta, aparecem com maior freqüência no período de vida reprodutiva, decaindo sensivelmente na velhice. Grosso modo, pessoas sorridentes merecem avaliações mais favoráveis do que as carrancudas, sendo que algumas vantagens práticas poderiam ser aqui apontadas: numa lanchonete, registra a autora, recebem melhores gorjetas as garçonetes que mais sorriem. Não obstante o caráter em geral inconsciente dos comportamentos não-verbais, diferenças sutis nos permitem distinguir os sorrisos falsos (ou de "mascaramento") dos autênticos. Da mesma forma, o estudo do sorriso e de outras manifestações corporais "silenciosas" pode ser de grande valia para a compreensão das relações de gênero, "micropolíticas" e inter-étnicas, uma vez que mulheres, numa sociedade de dominação masculina, e negros, em sociedades dominadas pelos brancos, por exemplo, captam com maior sensibilidade as mensagens da comunicação não-verbal.

Decifrar a "linguagem silenciosa" das expressões corporais a qual pertence o sorriso é, por assim dizer, como "ouvir estrelas", tal a sutileza das falas aí contidas. É o que se aprende no livro de Emma Otta.

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(*) Renato da Silva Queiroz. Professor-associado do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo/ pesquisador-bolsista do CNPq.

 
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