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Artigos
e Publicações
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Resenha: O Sorriso e seus Significados por Renato da Silva Queiroz (*) |
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Título:
O Sorriso e seus Significados Resenhado
por: Renato da Silva Queiroz
O
estudo deste vastíssimo repertório de códigos e
sinais não é recente. O livro clássico de Charles
Darwin, "A Expressão das Emoções no Homem e
nos Animais", editado originalmente em 1872, já examinava
a evolução das expressões faciais humanas a partir
dos nossos ancestrais animais, a natureza inata ou aprendida destas
manifestações e diversos outros temas derivados do princípio
segundo o qual o processo evolucionário abrange tanto as estruturas
orgânicas dos indivíduos quanto a expressão de suas
emoções. Todavia, foi preciso esperar as décadas
de 60 e 70, do presente século, e o desenvolvimento da Etologia
para que fossem alcançados progressos significativos nesta área
do saber. Com
O Sorriso e seus Significados a professora Emma Otta, do Departamento
de Psicologia Experimental da USP, oferece ao leitor uma síntese
atualizada dos trabalhos mais relevantes produzidos por etólogos
e psicólogos sobre o sorriso, este fascinante traço da
comunicação humana não-verbal. Em linguagem clara
e objetiva, ilustrada com o auxílio de numerosos gráficos
e reproduções fotográficas pertinentes aos temas
abordados, a autora preparou um texto rigoroso, mas que se oferece,
generosamente, ao público externo à academia. Além
disso, Emma Otta partilha com o leitor o desenrolar de suas próprias
pesquisas e os resultados de investigações conduzidas
por renomados especialistas. É
sabido que os chimpanzés, situados bem próximos ao homem
na escala evolutiva, costumam exibir expressões semelhantes ao
sorriso e ao riso. Ademais, a presença do sorriso é universal
entre os humanos, aparecendo no recém-nascido como um padrão
já completo, prontamente reconhecido, não obstante a diversidade
das culturas. Essas evidências sugerem que estamos diante de um
comportamento inato, objeto de "burilamento" posterior exercido pelos
padrões culturais e pela experiência social. Sendo
assim, o sorriso não parece ser biologicamente supérfluo.
Ao contrário, contém inegável valor de sobrevivência,
sobretudo nos primeiros meses de vida (quando o bebê é
ainda bastante dependente e indefeso), contribuindo para despertar e
manter o afeto, a proximidade e os cuidados da mãe. Afinal, observa
a autora, "se o bebê só chorasse, tivesse cólicas
e sujasse as fraldas o dia inteiro, suas chances de vir a sofrer negligência
ou abuso por parte dos adultos poderiam ser maiores". O
aparecimento do riso é mais tardio, registrando-se as suas primeiras
ocorrências por volta do quarto mês de vida. Estímulos
físicos (cócegas, principalmente) e depois incongruências
cognitivas (a mãe fazendo de conta que toma mamadeira, por exemplo)
desencadeiam as manifestações do riso em bebês.
Nesta medida, o riso constitui um mecanismo para lidar com aspectos
novos e provocativos do ambiente, além de promover e refletir
o desenvolvimento cognitivo. Contextualizando
as manifestações do sorriso e acompanhando as suas ocorrências
na trajetória de desenvolvimento do indivíduo, Emma Otta
consegue apreender aspectos muito significativos desta modalidade de
expressão facial. Assim, por exemplo, são diversas as
situações em que as mulheres sorriem mais do que os homens,
o que pode ser interpretado como um gesto de apaziguamento, pois os
homens tendem a exibir, com maior freqüência, indicadores
de dominância. Por outro lado, o sorriso não aparece necessariamente
como expressão autêntica de prazer ou alegria, pois manifesta-se
também em situações de tensão ou desconforto.
Além disso, levando em conta que os eventos específicos
que desencadeiam as emoções são aprendidos e, culturalmente
variáveis, assim como as regras que controlam a exibição
do sorriso, a autora considera neste seu estudo tanto as características
dos ambientes particulares de criação (notadamente a família)
quanto a cultura mais ampla a que pertence o indivíduo. No tocante
às exibições emocionais, certas culturas são
"reservadas", em flagrante contraste com aquelas consideradas "demonstrativas".
As
exibições de sorriso, assinala Otta, aparecem com maior
freqüência no período de vida reprodutiva, decaindo
sensivelmente na velhice. Grosso modo, pessoas sorridentes merecem avaliações
mais favoráveis do que as carrancudas, sendo que algumas vantagens
práticas poderiam ser aqui apontadas: numa lanchonete, registra
a autora, recebem melhores gorjetas as garçonetes que mais sorriem.
Não obstante o caráter em geral inconsciente dos comportamentos
não-verbais, diferenças sutis nos permitem distinguir
os sorrisos falsos (ou de "mascaramento") dos autênticos. Da mesma
forma, o estudo do sorriso e de outras manifestações corporais
"silenciosas" pode ser de grande valia para a compreensão das
relações de gênero, "micropolíticas" e inter-étnicas,
uma vez que mulheres, numa sociedade de dominação masculina,
e negros, em sociedades dominadas pelos brancos, por exemplo, captam
com maior sensibilidade as mensagens da comunicação não-verbal. Decifrar
a "linguagem silenciosa" das expressões corporais a qual pertence
o sorriso é, por assim dizer, como "ouvir estrelas", tal a sutileza
das falas aí contidas. É o que se aprende no livro de
Emma Otta. Resenha Anterior • Próxima Resenha • Primeira Resenha • Última Resenha (*) Renato da Silva Queiroz. Professor-associado do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo/ pesquisador-bolsista do CNPq. |
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