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O Fazer Poético e a Memória para um Grupo de Velhos Imigrantes japoneses

por Mário Yasuo Kikuchi



Abstract - Bibliografia

Antes de apresentar em maiores detalhes a respeito dessas afirmações, que ficarão mais claras ao longo do texto, seria importante discorrer brevemente acerca do significado do tanka e de sua importância para a cultura e para a consolidação da língua japonesa. Esta manifestação poética é definida por dois ideogramas, a saber, tan (curto, breve) e ka (poesia, música). Literalmente, poderia ser traduzido como "poema breve", mas não se refere a toda e qualquer forma literária pouco extensa, uma vez que a maioria dos poemas japoneses é bastante sintética. O tanka possui estrutura, forma e extensão peculiares, sendo composto por trinta e uma sílabas que, mesmo sendo escritas de maneira contínua, são divididas em cinco versos com respectivamente 5,7,5,7 e 7 sílabas. A estrutura do poema deve ser idealmente perceptível quando lido ou ouvido e, embora no japonês não se recorra à rima, deve ter uma "musicalidade" que harmonize os versos.

O tanka, além disso, teve papel fundamental para a história da cultura japonesa, pois surgiu e desenvolveu-se por volta do séculos VI a VIII da era Cristã. Na época, era denominado de waka, termo composto pelos ideogramas wa (aquilo que é do Japão) e ka (poesia, música), e contrapunha-se aos kanshi (versos de origem chinesa). Na realidade, o termo waka designava muitas formas literárias desenvolvidas a partir do século VI, mas, a rigor, até a Restauração Meiji, (3) no final do século passado, referia-se ao tanka clássico.

Atualmente o tanka vive uma situação aparentemente paradoxal no Japão. Se, por um lado, popularizou-se no decorrer dos anos, vindo a se transformar na atividade cultural favorita de um grande público de classe média amadora, por outro, passou a ser motivo de desprezo por parte da intelectualidade, que vê nele uma arte de "segunda classe" e, por isso, não merecedora de maior consideração.

Tal fato, todavia, não desmerece em absoluto esta forma de manifestação literária, pois, apesar de ter "perdido" em qualidade estética, ganhou, e muito, em importância antropológica e sociológica, já que é um tipo de poesia que somente pode existir na língua japonesa. Além disso, não representa apenas uma forma literária a mais, tem também um sentido (social e cultural) para seus produtores, o qual implica, como será mostrado ao longo do texto, um processo não somente de identidade com a cultura japonesa, mas igualmente de registro da memória de um momento e da experiência de vida de seus autores. A poesia constitui-se numa resposta lírica a um evento, a uma cena, a uma lembrança, ou a um aspecto observado da "natureza" humana. Daí sua grande importância tanto para o registro da experiência de vida de seus autores, de sua memória individual ou cultural, quanto para o próprio processo de auto-conhecimento visando o auto-aperfeiçoamento do indivíduo - fato este que, por sua vez, relaciona-se à concepção japonesa de mundo, mesmo para aqueles que há décadas vivem longe da terra natal.

Este sentido do fazer poético para seus produtores relaciona-se, igualmente, ao cotidiano de seus autores, o que pode ser percebido pelo próprio temário tratado nas composições. Se, no caso, estes últimos são pessoas "comuns", como afirmado anteriormente, evidentemente o universo tratado serão "mais comum possível". Isto não quer dizer que se trata apenas de temas banais ou de somenos importância, mas ao contrário, referem-se a fatos significativos que ocorreram e que continuam a acontecer a todos. Neste sentido, constituem-se no registro de um momento significativo não somente para seus autores, mas também para todo um segmento de sociedade, ou seja, para a memória destes indivíduos (aqueles que vivenciam ou vivenciaram situações similares ou semelhantes), constituindo-se, por isso, igualmente numa afirmação de uma identidade social.

Os poetas, através de suas composições, podem não somente rememorar, mas também tornar presente tanto a situação que os levou a compor tais poesias, como os seus sentimentos na ocasião. Os poemas, para estes velhos imigrantes, não se resumem apenas a um registro de fatos passados ou ao resgate da memória. Ao relê-los, atualizam constantemente o mesmo fato, bem como o seu pensamento e seus sentimentos em relação a ele, mas agora podem ser vistos sob uma outra ótica, uma vez que, neste ínterim, inúmeras outras experiências concretas foram vividas por ele no seu cotidiano. É neste sentido que afirmamos: no fazer poético destes velhos imigrantes, a memória possui papel fundamental não só para o registro de experiências de vida ou de reminiscências, mas principalmente para o processo de auto conhecimento visando o auto-aperfeiçoamento do ser humano.

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(3) A assim chamada Restauração Meiji consistiu na ascensão ao poder do referido Imperador na segunda metade do século XIX. Significou a queda do regime de Shogunato, que já durava muitos séculos, em que o imperador não exercia o poder de fato. Implicou ainda um processo de modernização do país, em todos os setores, não somente na estrutura de poder e economia, mas igualmente no âmbito cultural, quando então o Tanka e o Haiku (ou Haikai), outra forma poética japonesa bastante popular, foram repensados e novos estilos e pontos de vista puderam ser discutidos.

 
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