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O Fazer Poético e a Memória para um Grupo de Velhos Imigrantes japoneses

por Mário Yasuo Kikuchi (*)



Resumo: Este artigo tem por objetivo mostrar o sentido do fazer poético para um grupo de velhos imigrantes japoneses no Brasil, enquanto um exercício de conhecimento, tanto da realidade vivenciada quanto de si mesmos. Neste tipo de manifestação poética, existe uma necessidade de identidade social com a cultura natal, mesmo que se apresente de forma idealizada, assim como consiste no registro da memória deste grupamento social.

Palavras-chave: poesia japonesa - grupamento social - fazer poético - imigrante japonês - memória - identidade social

Abstract This article shows the meaning, for a group of old Japanese immigrants of brazil, of poetry making as an exercise in knowledge of the living reality as well as of themselves. that kind of poetic manifestation is a must in social identification with fatherland culture - even when this culture appears in an idealistic form - and is a record of this social group memory.

Key-words: migrants - knowledge - memory poetry - Japan.

Muitos compõem poesias pelos mais diversos motivos. Porém, quando se pensa em poemas, normalmente imagina-se que eles estejam relacionados a uma atividade lúdica realizada não somente por indivíduos cultos, mas igualmente habilitados no manejo das palavras. Mesmo quando se pensa nos poetas populares (como os que se dedicam aos versos de cordel), comumente nos vem à mente o talento ou a "grande arte". Da mesma forma, qualquer que seja a idéia a respeito de tal manifestação literária, esta é considerada uma forma de arte e, assim, a tendência é valorizar, principalmente, suas qualidades estéticas.

No caso deste texto, ao contrário do que foi apontado anteriormente, procurar-se-á refletir um pouco mais detidamente acerca de um grupo de velhos imigrantes japoneses, (1) que se dedicam no Brasil, de forma amadora, a um tipo de poesia típica do país natal, denominado tanka.

Estes "Poetas" não correspondem, necessariamente, à imagem que se faz de indivíduos dedicados a tais atividades. Pelo contrário, o grupo de poesia ao qual nos referimos, apesar de existir há mais de cinco décadas e contar com cerca de duas centenas de sócios, é composto por pessoas comuns, atreladas aos mais variados setores de atividade, como o pequeno comércio, a agricultura, serviços, donas de casa, etc. A maioria já se encontra aposentada, devido à média de idade relativamente avançada de seus membros (cerca de setenta anos). Além disso, mesmo tendo baixo grau de instrução (quase a metade com curso básico incompleto), dedicam-se a um tipo de poesia que requer um nível de conhecimento da língua e da escrita japonesas relativamente elevado - daí serem freqüentes, em seus poemas, as incorreções gramaticais ou mesmo de construção.

Teoricamente, tais indivíduos jamais enquadrar-se-iam num perfil "ideal" de um "verdadeiro" poeta japonês e, desta forma, sua produção literária, aparentemente, não se mostra merecedora de maior atenção pelos estudiosos do gênero. Mais ainda, eles nada recebem para se dedicarem à poesia, arcando com as despesas, seja para locomoção até o local de reunião mensal do grupo, seja para a manutenção do mesmo. (2)

De tudo isto surge então a questão: por que, afinal, eles se dedicam ao fazer poético?

Na realidade, tais motivações não se resumem a apenas uma ou outra característica, nem tem-se, aqui, a pretensão de esgotar a análise a seu respeito. Entretanto, parece plausível a existência de algumas motivações, além daquelas atinentes às implicações do próprio ato de se reunirem num grupamento social composto por seus semelhantes. Tais motivações, no nosso ponto de vista, mostram-se bastante interessantes, a ponto de merecerem reflexões num breve texto como este, mesmo que seja feita de forma sucinta e sem maior detalhamento analítico. Apesar das limitações, procurou-se, bem ou mal, fazer tal detalhamento, nesta dissertação. De qualquer maneira, parece inegável a importância de algumas variáveis que interagem no ato de compor destes velhos imigrantes e que merecem alguma reflexão.

O fazer poético tem, a nosso ver, um sentido enquanto exercício de conhecimento tanto da realidade vivenciada quanto de si mesmos. No tanka pode-se perceber o imaginário deste grupamento social em particular, tanto no que se refere à sua concepção de mundo - herdada em grande medida de sua formação cultural oriental, mas reelaborada por sua vivência na sociedade brasileira - quanto de sua necessidade de se identificar com a cultura natal, mesmo que esta apresente-se de forma idealizada, uma vez que não corresponde, necessariamente, ao "verdadeiro" Japão. Embora continuem identificando-se enquanto japoneses, sua experiência de vida no Brasil os tornaram japoneses do Brasil e não do Japão.

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(*) Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da FFLCH-USP.

(1) Os dados a respeito deste grupo têm como referência o período compreendido entre 1986 e 1990, quando terminamos a coleta de dados e entrevistas que estávamos procedendo para a nossa pesquisa. Muitos destes "poetas", infelizmente, já faleceram ao longo destes anos, e a eles dedicamos este trabalho.

(2) Este grupo se reúne mensalmente para a discussão de cerca de cinqüenta poemas, que são enviados entre uma reunião e outra para um coordenador. Nestes encontros, são discutidos e escolhidos os dez melhores segundo a avaliação dos participantes, mas sem nenhuma premiação para os vencedores. O número de participantes varia conforme o dia, mas normalmente é de vinte a trinta membros, sendo que nem todos comparecem regularmente.

 
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