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Artigos
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Pacoval Memórias de um Mocambo na Amazônia. História Vivida e História Contada por Eurípedes Antônio Funes |
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Se
sobre a escravidão/abolição há uma produção
historiográfica significativa tanto do ponto de vista quantitativo
como qualitativo, percebe-se uma retração quando se trata
de temas relacionados a quilombos e uma lacuna no que se refere ao negro
emancipado, enquanto ator do processo histórico pós-abolição. Ao
tratar do ex-escravo, a historiografia ou resgata a sua condição
marginal, ou o contrapõe ao papel reservado aos imigrantes no
contexto pós-abolição, reforçando a idéia
de que "aos escravos emancipados não têm nada porque nada
além da liberdade foi dado a eles" (Foner, 1988). Se
por um lado, o ex-escravo é relegado a um segundo plano, ou lembrado
de forma tangencial pelos historiadores, por outro, os ex-quilombolas
desapareceram da história. Essas duas categorias sociais têm
se tomado objeto de estudos mais sociológicos a respeito de sua
inserção no mercado de trabalho e de questões étnicas,
ou, enquanto componentes de comunidades negras rurais e urbanas, têm
se constituído em campo de estudos etnográficos e culturais
feitos pelos antropólogos. Sem
dúvida, esses estudos colocam novas discussões e contribuem
de forma significativa para o conhecimento dessa nova realidade vivenciada
pelo negro liberto. Todavia, isso não impede que se coloquem
algumas perguntas nem sempre respondidas por sociólogos ou antropólogos:
historicamente, onde estavam esses agentes que foram tão bem
analisados enquanto escravos e rebeldes? Na História, qual é
o papel dos ex-escravos e, em especial, dos ex-quilombolas, ou seja,
qual é o processo histórico construído por esses
atores que estão escondidos no cenário historiográfico? No
momento em que se depara com comunidades remanescentes de quilombos,
uma série de perguntas pode ser colocada. Por que e como conseguiram
resistir a uma natureza sempre considerada como inóspita e às
expedições destruidoras enviadas pelo governo? Quais os
mecanismos de resistência desenvolvidos por essas sociedades?
Como se constituiu uma identidade étnica e cultural e se definiu
uma territorialidade (terra de negros) em um espaço indígena?
Teriam os mocambeiros o controle do processo de inserção
na sociedade escravista? Haveria uma interação entre os
quilombos da região? Essas questões, e outras que poderiam
ser colocadas, não chegam a compor um enigma do tipo "decifra-me
ou te devoro", mas, sem dúvida, é um instigante quebra
cabeça a ser montado que, uma vez concluído, pode revelar
uma interessante imagem. Trata-se, a partir dessas sociedades quilombolas, de entender os mecanismos de resistência e reprodução dessas sociedades e a sua organização e interação com o indígena e dos quilombos entre si. É necessário perceber a rede de ligações e relações criadas pelos quilombolas e a continuidade dessas relações com o contexto após a constituição das comunidades negras, que hoje preservam uma identidade étnica e cultural e a memória desse mundo criado pelos mocambeiros ao se libertarem da ordem escravista. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página |
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