Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações

Pacoval Memórias de um Mocambo na Amazônia. História Vivida e História Contada
por Eurípedes Antônio Funes



Um dos estudos mais recentes sobre essa temática é o de Flávio dos Santos Gomes (1992). A respeito dos quilombos da baixada fluminense. Este estudo representa um avanço pela tipologia de fontes utilizadas e o tratamento dado a elas, bem como pela ênfase nas questões referentes à resistência, à interação com os centros urbanos, à reprodução e, em especial, à capacidade de sobrevivência dessas sociedades quilombolas, enquanto contraponto à ordem escravista.

Se sobre a escravidão/abolição há uma produção historiográfica significativa tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo, percebe-se uma retração quando se trata de temas relacionados a quilombos e uma lacuna no que se refere ao negro emancipado, enquanto ator do processo histórico pós-abolição.

Ao tratar do ex-escravo, a historiografia ou resgata a sua condição marginal, ou o contrapõe ao papel reservado aos imigrantes no contexto pós-abolição, reforçando a idéia de que "aos escravos emancipados não têm nada porque nada além da liberdade foi dado a eles" (Foner, 1988).

Se por um lado, o ex-escravo é relegado a um segundo plano, ou lembrado de forma tangencial pelos historiadores, por outro, os ex-quilombolas desapareceram da história. Essas duas categorias sociais têm se tomado objeto de estudos mais sociológicos a respeito de sua inserção no mercado de trabalho e de questões étnicas, ou, enquanto componentes de comunidades negras rurais e urbanas, têm se constituído em campo de estudos etnográficos e culturais feitos pelos antropólogos.

Sem dúvida, esses estudos colocam novas discussões e contribuem de forma significativa para o conhecimento dessa nova realidade vivenciada pelo negro liberto. Todavia, isso não impede que se coloquem algumas perguntas nem sempre respondidas por sociólogos ou antropólogos: historicamente, onde estavam esses agentes que foram tão bem analisados enquanto escravos e rebeldes? Na História, qual é o papel dos ex-escravos e, em especial, dos ex-quilombolas, ou seja, qual é o processo histórico construído por esses atores que estão escondidos no cenário historiográfico?

No momento em que se depara com comunidades remanescentes de quilombos, uma série de perguntas pode ser colocada. Por que e como conseguiram resistir a uma natureza sempre considerada como inóspita e às expedições destruidoras enviadas pelo governo? Quais os mecanismos de resistência desenvolvidos por essas sociedades? Como se constituiu uma identidade étnica e cultural e se definiu uma territorialidade (terra de negros) em um espaço indígena? Teriam os mocambeiros o controle do processo de inserção na sociedade escravista? Haveria uma interação entre os quilombos da região? Essas questões, e outras que poderiam ser colocadas, não chegam a compor um enigma do tipo "decifra-me ou te devoro", mas, sem dúvida, é um instigante quebra cabeça a ser montado que, uma vez concluído, pode revelar uma interessante imagem.

Trata-se, a partir dessas sociedades quilombolas, de entender os mecanismos de resistência e reprodução dessas sociedades e a sua organização e interação com o indígena e dos quilombos entre si. É necessário perceber a rede de ligações e relações criadas pelos quilombolas e a continuidade dessas relações com o contexto após a constituição das comunidades negras, que hoje preservam uma identidade étnica e cultural e a memória desse mundo criado pelos mocambeiros ao se libertarem da ordem escravista.

Página AnteriorPróxima PáginaPrimeira PáginaÚltima Página

 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI