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Artigos
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Natureza e Naturalistas Miriam Lifchitz Moreira Leite |
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Abstract
- Bibliografia
Nessa
Memória sobre a Viagem do Pará pa o Rio das Amazonas,
da Madra - athé Matto Grosso, voltando pelo Rio
dos Tocantins pa - o Pará, já aparece uma preocupação
que havia de continuar pelo Século XIX a dentro: nestes
Paizes quentes, e de agoas enxarcadas, há que temer
são as Sezoens, Obstruçoens, e Febres podres, além
do veneno das cobras a que os Naturalistas mais estão sujeitos. Para
precaver-se ou curar-se das - Infermidades devem escolher para bebidas
as agoas mais puras, e no cazo de não achallas, as corrigirão
com Summo de Limão, ou com algumas pingas de Espirito de
Vitriolo dulsificado. A recomendação da Quina para as
Sezoes declaradas, alterna com vomitórios e purgantes, sem
deixar de recomendar os remédios que os Indios usam. Apesar
de a Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira e
de todo o seu material de Botânica, Zoologia e Antropologia ter
chegado a ser objeto de litígio entre Portugal e França,
saqueado por Geoffrey Saint-Hilaire por ocasião da invasão
de Lisboa, ela esperou longamente por uma publicação adequada. O
naturalista peregrino era um alto funcionário da Coroa Portuguesa,
recebendo instruções precisas para as suas explorações
político-científicas. Já o naturalista viajante (estrangeiro
ou brasileiro) do século XIX, dependente dos financiadores de suas
explorações, goza de uma relativa autonomia e, no Brasil,
será prestigiado pelas autoridades. A
mudança da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e a abertura
dos portos brasileiros alteraram sensivelmente a receptividade oficial
a naturalistas estrangeiros, mesmo quando representavam ostensivamente
o pólo científico dos tentáculos imperialistas das
nações européias. Com as exceções de
praxe, foram facilitados os meios para que se movimentassem pelos sertões,
sem o risco de emboscadas e sem ser perseguidos pelos desconfiados habitantes
daquelas plagas. Cartas de apresentação para os governadores
das províncias facilitaram as relações indispensáveis
para a realização dos trabalhos. Mas, agora, pedia-se em
retribuição que deixassem, de cada espécie colhida,
uma duplicata de exemplar para o Museu Nacional ou o Jardim Botânico,
nascendo assim a base para o conhecimento da flora e da fauna brasileiras,
até o fim do século XIX. A
partir da segunda metade do século XVIII, a História Natural
fora incluída nos programas de viagens, científicas ou não,
e uma epidemia de colecionismo alastrou-se pelas populações
européias e americanas. A observação e a catalogação,
reduzindo a distância entre as coisas e a linguagem, "aproximou
a linguagem do olhar observador e as coisas observadas das palavras" (Foucault,
1966: 144) e se constituíram em tarefas incorporadas antes pela
nobreza, mas aos poucos pelas demais camadas sociais. Foram
numerosos os naturalistas amadores, que não usavam o latim das
obras científicas, e, em diversos casos, contribuíram para
os acervos dos Museus e das Sociedades Científicas. Os colecionadores
de pedras, insetos, flores e pássaros acabaram dando origem a diversos
tipos de artesanatos, como o do desenhista de plantas e animais, do jardineiro,
do taxidermista, e de classificadores dos diferentes produtos naturais.
Braverman (Braverman, 1974: 120-1) menciona tecelões como quase
os únicos botânicos ingleses que cultivavam pequenos jardins
nas proximidades de Londres. E cita E. P. Thompson, que se referiu a poetas,
biólogos, matemáticos, músicos, geólogos e
botânicos entre os tecelões, sendo que os museus e as sociedades
de História Natural do Norte da Inglaterra ainda possuem seis de
seus arquivos ou coleções de lepidópteros. No
Brasil, os naturalistas contaram não só com a colaboração
de colecionadores, como com escravos dedicados às artes de empalhar
animais e reunir e secar plantas. Um
livro de divulgação, de 1961, sobre naturalistas famosos
(Ingleses e norte-americanos) de Lorus e Margery (Lorus e Margery, 1964),
ao descrever as atividades habituais desses naturalistas, chama-os de
microscopista amador, escritor de cartas, artista, sonhador, observador,
escritor, defensor das riquezas naturais, estuodioso de pássaros,
entusiasta. A palavra profissão ainda não assumira o seu
papel atual. Quando
o Prof. Dr. Ignatius Urban conseguiu finalizar a publicação
da Florae Brasiliensis, muito depois da morte de Martius, fez uma
apresentação dos colaboradores, entre os quais se encontram
naturalistas e colecionadores brasileiros. Do
século XVIII, constam os conhecidos naturalistas frei José
Mariano da Conceição Velloso (1742-1811), frei Leandro do
Sacramento (1779-1829) e o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815).
Do século XIX, Francisco Freire Allemão (1797-1874), Ladislau
de Souza Mello Netto (1837- ?), José de Saldanha da Gama (1859-1905),
que trabalharam no Jardim Botânico e no Museu Nacional da Quinta
da Boa Vista, do Rio de Janeiro, e foram associados do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro. Mas,
afora esses colaboradores da Florae Brasiliensis, constam das notas
biográficas do Dr. Urban os colecionadores Manuel Damazio, Antonio
e Ildefonso Gomes, Francisco de Paula, Carlos Thomas e Alberto de Magalhães
Gomes, Francisco Ribeiro de Mendonça, Júlio de Moura, Amaro
Ferreira das Neves Armond, Joaquim Candido da Costa Sena, Antonio Luiz
da Silva Manso e Alvaro Astolpho de Miranda. Essa
relação comprova a atuação paralela de naturalistas
brasileiros e estrangeiros no século XIX, bem como a atuação
de naturalistas amadores no Brasil. Se esses dados não bastassem,
foram encontrados ainda ofícios de Roque Schüch (3),
Bibliotecário e Diretor do Gabinete de História Natural
de Sua Alteza, a Sereníssima Sra. Princeza Real, dirigidos a diversas
autoridades, sobre riquezas minerais do Brasil e meios para explorá-las,
sendo o último de 1841. Alguns
aspectos do trabalho dos naturalistas viajantes no Brasil podem ser inferidos
de uma série de Instruções encontradas na Seção
de Obras Raras da Biblioteca Nacional. Instrucções
para o transporte por mar. VELOSO,
José Mariano da Conceição, sac., 1742-811 Instrucções
para o transporte por mar de árvores, plantas vivas, sementes e
de outras diversas curiosidades naturaes, dadas à luz por ... Lisboa,
na Impressão Regia, 1805 102 p. SACRAMENTO,
frei Leandro Instrucções
/ para os viajantes e empregados nas colônias sobre/ a maneira de
colher, conservar e remetter os objectos de Historia Natural / arranjada
/ pela administração do R. Museu de / Historia Natural de
Paris / Traduzido por ordem de / Sua Magestade Fideli ff ima /
expedida pelo excellentissimo / Ministro e Secretario de Estado / dos
Negócios do Reino / do original francez impresso em 1818. Augmentada,
em notas, de muitas das instrucções / aos correspondentes
da Academia R. das Scien / cias de Lisboa, impressas em 1781; e precedida
de algumas reflexões sobre a Historia Natural / do Brazil, e estabelecimento
do Museu e Jardim / Botânico em a Côrte do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, na Impressão Regia, 1819 por ordem de sua Magestade. As
reflexões sobre a Historia Natural Brasileira são igualmente
significativa do pragmatismo que continuava a imperar nesse estágio
da ciência. Escriptos Portuguezes sobre Historia Natural XIX,
XXVI Historia
Natural. fó os naturalistas que viveram toda vida no Brazil d'ella
poderão dar boa ideia XXV Quina. Noticia de Providencias
sobre as Regras sobre a do Brazi XXXVI Noticia
de diferentes cascas amargosas que do Brazil se tem remettido para
Portugal História
da Quina do Brazil já começada a ensaiar em Portugal chimica
e clinicamente XXXI Instrucções
para a Commissão Scientífica. FERRAZ,
Luis Pedreira do Couto, visconde de Bom Retiro (1818-1886). Instrucçõe
para a Commissão scientifica encarregada de explorar o interior
de algumas províncias do Brasil. Rio de Janeiro, Typ. Universal
de Laemmert, 1858, 39 p. E
a última, já em novos termos: GOELDI,
E. A. (1859-1917). Instrucções práticas sobre
o modo de colligir producto da natureza para o Museu Paraense de
Historia Natural e Ethnographia. Belém Impresso na Typ. do
Diário Official, 1895, 30 p. No
penetrante trabalho de Mary Louise Pratt (Pratt, 1992: 15 e 85) sobre
os livros de viagem ela menciona o problema sanitário da expansão
européia e a descoberta do quinino no combate às febres
mortais. Não só aponta os choques da medicina ocidental
com as formas locais de cura, como as barreiras à exploração
dos continentes fomentadas pela malária, pela febre amarela e pela
disenteria. A
eficácia do quinino no combate às febres já era conhecida
no século XVIII, quando a Coroa Portuguesa recomendava a Quina
para as Sezões declaradas, alternada com vomitórios e purgantes
(4). Em 1817, o Primeiro Boticário do Hospital Real Militar da Corte realizou um Ensaio Analítico e Comparativo sobre a Quina chamada Rubra Peruviana (5). Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (3)
Arquivo Nacional (RJ). Códice 807, publ. N. 26. |
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