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Artigos
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Natureza e Naturalistas Miriam Lifchitz Moreira Leite |
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O
distanciamento do poder criador (o manuscrito de Deus, no poema de Longfellow)
constituiu uma questão que dividiu os naturalistas do século
XIX. Muitos deles desempenharam suas atividades como uma forma mística
de aproximação do sobrenatural. As hostilidades à
teoria da evolução, para a qual vinham todos colaborando
de uma forma ou de outra, provinham principalmente do distanciamento que
a Ciência provocou diante da Religião. As
narrativas de viagem feitas pelos naturalistas viajantes, ainda que nem
sempre tenham esse tom de deslumbramento diante da Natureza, sob uma grande
heterogeneidade de formas, constituíram um gênero muito apreciado,
publicada como livros, relatórios, artigos de jornal e de revista,
como correspondência, com livro infantil, didático e de aventuras,
ou como Diários de Campo. O jornalismo e a narrativas foram mediadores
essenciais entre a rede científica e um público mais amplo.
A História Natural exigia a intervenção do homem
para ordenar o caos da Natureza (Prancha 3). Ao
examinar mais detidamente os naturalistas viajantes que vieram para o
Brasil durante o século XIX (10),
foi-se verificando que não exerceram as suas funções
individualmente. Apesar de contar com naturalistas da Prússia,
de Hessen, da Bavária, da Áustria, da França, da
Inglaterra, de Lübeck, da Suíça, do Canadá,
da Itália, e dos Estados Unidos, afora aqueles que permanecem
ocultos em Arquivos e Bibliotecas, constituíam uma rede de colaboradores,
ligados mais ou menos estreitamente por correspondência a Sociedades
Científicas. Obedeciam a um planejamento que foi se desdobrando,
através do tempo, em especializações científicas
e em reelaborações teóricas, tendo desenvolvido esforços
paralelos, com resultados coincidentes ou detidos por orientações
ultrapassadas. Dois
textos, um de Humboldt e outro de Darwin, exemplificam o parágrafo
anterior. Humboldt escreve no Cosmos (1847-1858): "(...) Ao examiná-los
pela primeira vez, todos os fenômenos parecem isolados, e apenas
devido à observação múltipla, combinada com
a razão, conseguimos descobrir a relação mútua
que existe entre eles. (...) Requer-se igual consideração
por todos os ramos das Ciências Matemáticas, Físicas
e Naturais, especialmente na época presente, em que as riquezas
materiais e a crescente prosperidade das nações se baseiam
principalmente num emprego mais eficiente dos produtos e forças
da Natureza" (Moulton & Schifferes, 1962: 450). E Darwin (1859): "Agora
a minha obra está quase terminada, mas como levarei muitos anos
a completá-la e a minha saúde não é robusta,
nem nada que se pareça, vi-me obrigado a publicar este sumário.
De maneira especial me levou a fazê-lo assim o facto do Sr. Wallace
que actualmente estuda a história natural do arquipélago
Malaio, ter chegado quase exactamente às mesmas conclusões
gerais do que eu, a respeito da origem das espécies. Em 1858 enviou-me
uma monografia acerca do tema, pedindo-me que imediatamente a entregasse
ao Sr. Charles Lyell e o doutor Hooker, que conheciam a minha obra - o
doutor tinha lido o meu esboço em 1844- deram-me a honra de considerar
oportuna a publicação, junto com a excelente monografia
do Sr. Wallace, de alguns extractos dos meus manuscritos" (id., ibid.:
14). O
estudo intertextual dos viajantes permite revelar um capítulo mal
conhecido da História da Ciência - a colaboração
de cientistas estrangeiros e brasileiros nas primeiras sociedades científicas
e aspectos da profissionalização do cientista. Os
livros de viagem, apesar de observar e classificar sistematicamente as
criaturas em sua variedade, vão descobrindo uma semelhança
profunda que liga todas as espécies, umas às outras. Conjuntos
de semelhanças ligam camada por camada "a partir da primeira aurora
da vida", nas palavras de Darwin. Em
A Lógica da Vida (Uma História da Hereditariedade), François
Jacob (Jacob, 1983: 170 e 8) afirma que contemporaneamente "nenhum sistema
explicará o mundo em todos os seus aspectos e detalhes. Ter ajudado
na destruição da idéia de uma verdade intangível
e eterna talvez seja uma das mais valiosas contribuições
da metodologia científica" ... "a variabilidade é uma qualidade
inerente à própria natureza do ser vivo, à estrutura
do programa, à maneira como é recopiado em cada geração.
As modificações do programa acontecem às cegas". Os
naturalistas viajantes que escreveram Livros de Viagem tornaram-se não
só mais conhecidos do grande público, como deram também
sua contribuição às Ciências Humanas, com as
minuciosas descrições do encontro de populações,
línguas e diferentes culturas, bem como das relações
entre imigrantes europeus e as populações locais (Pranchas
4 e 5). Mas
houve outros viajantes naturalistas, menos conhecidos, que trabalharam
e contribuíram para a Ciência, junto às primeiras
associações científicas e museus, já com maiores
restrições econômicas e margem de manobra mais reduzida
em sua atividade. Não tinham nem a autonomia, nem o prestígio
de que gozaram alguns dos naturalistas consultados. Estavam sujeitos a
restrições e cortes de verbas e à ideologia dos diretores
dos museus, sempre às voltas com a utilidade imediata de seus trabalhos,
que precisava ser demonstrada em atividades didáticas e em sua
participação na resolução dos problemas do
país em que estavam. Começava a se delinear o perfil do
funcionário (Figueirôa, 1987 e 1992; Lopes, 1993) sobre o
do cientista. Alguns deixavam de se enquadrar propriamente como viajantes
estrangeiros, pois inúmeros não voltaram ao país
de origem, constituindo família no Brasil ou morrendo afogados
na travessia de rios ou sob o peso de montanhas de papel. No
Arquivo do Museu Nacional, encontrou-se correspondência relativa
a trabalhos estáveis ou temporários, como os de Frederico
Sellow, Emilio Germon, Frederico Wagner, Luiz Riedel, Eng. Henrique Guilherme
Fernando Halfeld, Arsene Boraguin, Julião Brassus, Conde de la
Hure, Dr. Herman Blumenau, Dr. Couto Magalhães, Carlos Schreiner,
Dr. Wilkelen, Dr. Fritz Muller, Carlos Schwake, Louis Couty, Dr. Orville
Albert Derby, Herbert Huntington Smith, Dr. Hermann von Ihering, Dr. A.
Glaziou, Dr. Emilio Augusto Goeldi, Gustavo Rubels e Ernest Heinrich Georg
Ulle. Observou-se
nesse mesmo Arquivo uma alteração na atitude das normas
estatais diante de seus cientistas. São dois os aspectos revelados:
de um lado mostra-se a conveniência de preencher, por concurso,
os lugares de naturalistas, o que tanto pode significar a busca de melhor
preparo de seus funcionários, como a existência de maior
número de candidatos aos limitados lugares. O outro aspecto é
a alteração do título do cientista. A partir de 1894,
a correspondência está registrada como referente a naturalista
ajudante. É possível pensar num erro do escrivão,
já que erros é que não faltam nesses registros. Mas
a repetição, daí por diante, da designação
de naturalista-ajudante, e da abertura de inscrição para
o concurso para esse cargo, acaba certificando que houve uma desqualificação
da função, em todas as seções do Museu. Essa
desqualificação da função e da posição
do cientista em seu trabalho institucional acaba parecendo real, quando
em ofício do Sr. Dr. Alípio de Miranda Ribeiro ao Diretor
do Museu Nacional aparece o requerimento de dispensa de título
científico para que possa inscrever-se para o concurso à
vaga de Naturalista Viajante da 1ª Seção
do Museu. Esse
problema profissional e classificatório continuou a se desdobrar.
Um Memorial sobre a carreira de Conservador de Museus (11)
discute as diferenças salariais dos serviços técnicos
e científicos entre Naturalistas, que lidam com Geologia, Zoologia,
Botânica etc. e os Conservadores de Museu, que lidam com História,
Iconografia, Etnografia, Paleografia, Numismática, Biblioteconomia,
Arqueologia e Diplomática. As diferenças salariais parecem
prenunciar a hierarquia entre ciências naturais e ciências
humanas de que se continua a sofrer as conseqüências. Abstracts:
We tried by document analysis, biographies, contemporary reference
books to design Scientific professionalization. Beginning by the
pilgrim-naturalist, in XVIII century, we found travel-naturalists
in the nineteenth century, followed by the naturalist clerk, at the
end of that century. Key-words:
nature - naturalists - travellers - natural sciences
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CE Anexo 1 Naturalistas Viajantes Estrangeiros consultados. |
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