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Natureza e Naturalistas
Miriam Lifchitz Moreira Leite
(*)


Abstract - Bibliografia

Resumo: Através de documentação primária, secundária, ensaios biográficos e obras de referência, procura-se traçar o percurso da profissionalização do cientista, começando pelo naturalista-peregrino, no século XVIII, passando pelo naturalista-viajante no século XIX, até chegar ao naturalista-ajudante, na última década desse século.

Palavras-chave: natureza - naturalistas - viajantes - ciências naturais

Para Selden Rodman, antologista

Há um contar de si no escolher no buscar-se como o que dos outros, entre o que outros disseram mas que o diz mais que todos (como, em loja de luvas, catar no estoque todo a luva sósia, essa luva única que a calça só, melhor que as outras)

João Cabral de Melo Neto


Em 26 de março de 1774, João Francisco Xavier prescreve de Lisboa a Conduta e a utilid e. de um Naturalista peregrino no Brazil.

Desanimados com os habitadores do Brasil que ignorão as ventages que o Commercio pode tirar das preciozas e raras producções dos seus terrenos, o funcionário da Coroa Portuguesa sugere que de tempos em tempos se mandasse nesta parte d'América pessoa instruída nas couzas naturaes que das conversações familiares que tivesse com estes povos, tirase hum conhecimento do uzo que a necessde os obriga afazer das producções que achão próximas as suas habitações, seria, me paresse, hum meio bem abbreviado de chegar ao fim que se propõem hum naturalista, quando se dispoem a viajar.

O que se propõe é que hum naturalista (...) uniria a detecção das couzas naturaes, que por oficio haveria de buscar, o conhecimento das propriedades de muitas outras couzas, que a cada passo se lhe ha de communicar. (...) E um Naturalista peregrino no Brazil, sera tom utile a este Reino, pela defecção da propriedd - das couzas que virã a noticiar, como pelo progresso da historia natural a sendo o objeto da sua missão será no seu regreso reputado como o menor fruto de suas viages.

E mais adiante prescreve que À virtude he recommendavel, não sera bom ~ que hum naturalista probo e desinteressado, que observa tudo com os olhos da verde ~; refere no seu diário hum facto, huma acção digna de louvores ~ e pela razão inversa participe a quem compete, o abuzo, o vicio, a exacção e a perverside quando conhecer nelles consequencias contrarias ao sussego e bem da republica ~.

Este minucioso manuscrito(1) surpreende pela extensão das preocupações da Coroa Portuguesa de bem instruir o seu naturalista peregrino a respeito de suas funções primeiras e segundas, embora deixe bem patente que o naturalista deveria acumular as funções de fiscal ou mesmo de espião d'El Rei.

A proibição de entrada de Humboldt pela região amazônica, encontrada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, define ainda melhor a política científica da Coroa: Havendo noticias que um tal Barão de Humboldt tenta seguir as suas excursões pelos sertões d'este Estado, se faz preciso que V. M. fique prevenido para no caso de verificarem-se as referidas noticias, ou succedendo apparecer outro algum estrangeiro viajando por esse districto o faça conduzir a esta capital com toda a sua comitiva, sem com tudo se lhe faltar à decência, nem ao bom tratamento, e commodidades, mas só acompanhando-o e interceptando-lhe os meios de transporte fazer indagações políticas e philosophicas. Deus Guarde a Vm. Palacio de S. Luiz do Maranhão, 12 de outubro de 1800. - D. Diogo de Souza - Sr. Capitão Domingos Lopes Ferreira.(Foi outro igual para José de Moraes Rego -Commandante das Aldeas Altas.)

O mercantilismo português confere às instruções um sentido pragmático. Procurar-se-á sempre o que parece útil ao Reino e os conhecimentos de mtas. couzas athé agora dispresadas deveriam ser aplicados ao comércio e a medicina. Se for agudo e siente, terá bellas occasiões de admirar a natureza nos combates que livremente e sem estimulo appresenta à cauza das infermides - seja a ter hum certisimo conhecimento destas, pelas suas livres graduações progressivas.

Aparece ainda uma diferenciação de tarefas e interesses do naturalista peregrino - caso seja médico, químico ou geógrafo - e a sugestão de uma bibliografia de apoio constante das obras de Linné, de Furnefort, de Bomar, de Valerius, de Brisson, de Reaumir, de Margrave, de Pinzon, de Feuillé, de Jaquin, de Sloanes, de Plumier de Rajo, de Dilenio e Gesnero e outros autores que tratão das Sciencias respectivas a esta ocupação, instrumentos, escravos de diferentes ofícios, barracas e toda uma equipagem e pessoal orçados em mil reis, para uma viagem de seis anos, por exemplo, do Rio de Janeiro ao Mato Grosso.

Outro documento sem data, dirigido provavelmente a Alexandre Rodrigues Ferreira (2) (médico baiano formado em Coimbra e indicado por Domingos Vandelli para essa missão), determina o modo como deve executar a viagem - as horas, os caminhos e as pousadas, deixando ao seu cuidado pôr em ordem os Diários formando de dois em dois Mezes as relaçoens e tãobem sim ordenar ao Donati 'q fàça todos os riscos necesarios, examinando se são exactos. ~

Todas as Semanas examinarão os Diarios pa. aperfeiçoallos, farão Revista dos Instrumentos, do que recolherão, da equipagem, e dos mantimos, pa concertar e proverem-se. (...) Todas as noites deverão aperfeiçoar os Diários, e examinar o q se recolheu e o q hé de facil reducção, e principalmete as frutificaçoens das quais as desconhecidas, ou duvidozas, se farão riscar, e a Anatomia dellas se conservará no Herbario, o qual se fará todas as noites das plantas recolhidas naquelle dia, pondo-lhe no correspondente do Diário, esse mudará as plantas do Herbário, athé estarem bem secos...

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(*) Coordenadora científica do Núcleo interdisciplinar do Imaginário e Memória da Universidade de São Paulo. Autora de Retratos de família: leitura da fotografia e Outra face do feminismo, entre outros.

(1) Instituto de Estudos Brasileiros (USP). Coleção Lamego Códice 86.4. A 8.

(2) Instituto de Estudos Brasileiros (USP). Coleção Lamego Códice 101 - A 8.

 
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