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Artigos
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Natureza e Naturalistas Miriam Lifchitz Moreira Leite(*) |
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Resumo:
Através
de documentação primária, secundária, ensaios
biográficos e obras de referência, procura-se traçar
o percurso da profissionalização do cientista, começando
pelo naturalista-peregrino, no século XVIII, passando pelo naturalista-viajante
no século XIX, até chegar ao naturalista-ajudante,
na última década desse século. Palavras-chave:
natureza - naturalistas - viajantes - ciências naturais Para
Selden Rodman, antologista Há
um contar de si no escolher no buscar-se como o que dos outros,
entre o que outros disseram mas que o diz mais que todos
(como, em loja de luvas, catar no estoque todo a luva
sósia, essa luva única que a calça só,
melhor que as outras)
Desanimados
com os habitadores do Brasil que ignorão as ventages que o
Commercio pode tirar das preciozas e raras producções
dos seus terrenos, o funcionário da Coroa Portuguesa sugere
que de tempos em tempos se mandasse nesta parte d'América
pessoa instruída nas couzas naturaes que das conversações
familiares que tivesse com estes povos, tirase hum conhecimento do
uzo que a necessde os obriga afazer das producções
que achão próximas as suas habitações, seria,
me paresse, hum meio bem abbreviado de chegar ao fim que se propõem
hum naturalista, quando se dispoem a viajar. O
que se propõe é que hum naturalista (...) uniria
a detecção das couzas naturaes, que por oficio haveria
de buscar, o conhecimento das propriedades de muitas outras couzas,
que a cada passo se lhe ha de communicar. (...) E um Naturalista
peregrino no Brazil, sera tom utile a este Reino, pela defecção
da propriedd - das couzas que virã a noticiar, como pelo
progresso da historia natural a sendo o objeto da sua missão
será no seu regreso reputado como o menor fruto de suas
viages. E
mais adiante prescreve que À virtude he recommendavel, não
sera bom ~ que hum naturalista probo e desinteressado, que
observa tudo com os olhos da verde ~; refere no seu diário
hum facto, huma acção digna de louvores ~ e pela razão
inversa participe a quem compete, o abuzo, o vicio, a exacção
e a perverside quando conhecer nelles consequencias contrarias
ao sussego e bem da republica ~. Este
minucioso manuscrito(1) surpreende
pela extensão das preocupações da Coroa Portuguesa
de bem instruir o seu naturalista peregrino a respeito de suas funções
primeiras e segundas, embora deixe bem patente que o naturalista deveria
acumular as funções de fiscal ou mesmo de espião
d'El Rei. A
proibição de entrada de Humboldt pela região amazônica,
encontrada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, define ainda melhor
a política científica da Coroa: Havendo noticias que
um tal Barão de Humboldt tenta seguir as suas excursões
pelos sertões d'este Estado, se faz preciso que V. M. fique prevenido
para no caso de verificarem-se as referidas noticias, ou succedendo
apparecer outro algum estrangeiro viajando por esse districto o
faça conduzir a esta capital com toda a sua comitiva, sem com tudo
se lhe faltar à decência, nem ao bom tratamento, e
commodidades, mas só acompanhando-o e interceptando-lhe os meios
de transporte fazer indagações políticas e philosophicas.
Deus Guarde a Vm. Palacio de S. Luiz do Maranhão, 12 de
outubro de 1800. - D. Diogo de Souza - Sr. Capitão Domingos
Lopes Ferreira.(Foi outro igual para José de Moraes Rego -Commandante
das Aldeas Altas.) O
mercantilismo português confere às instruções
um sentido pragmático. Procurar-se-á sempre o que parece
útil ao Reino e os conhecimentos de mtas. couzas athé
agora dispresadas deveriam ser aplicados ao comércio e a medicina.
Se for agudo e siente, terá bellas occasiões de admirar
a natureza nos combates que livremente e sem estimulo appresenta
à cauza das infermides - seja a ter hum certisimo conhecimento
destas, pelas suas livres graduações progressivas. Aparece
ainda uma diferenciação de tarefas e interesses do naturalista
peregrino - caso seja médico, químico ou geógrafo
- e a sugestão de uma bibliografia de apoio constante das obras
de Linné, de Furnefort, de Bomar, de Valerius, de Brisson, de Reaumir,
de Margrave, de Pinzon, de Feuillé, de Jaquin, de Sloanes, de Plumier
de Rajo, de Dilenio e Gesnero e outros autores que tratão das
Sciencias respectivas a esta ocupação, instrumentos,
escravos de diferentes ofícios, barracas e toda uma equipagem
e pessoal orçados em mil reis, para uma viagem de seis anos, por
exemplo, do Rio de Janeiro ao Mato Grosso. Outro
documento sem data, dirigido provavelmente a Alexandre Rodrigues Ferreira
(2) (médico baiano
formado em Coimbra e indicado por Domingos Vandelli para essa missão),
determina o modo como deve executar a viagem - as horas, os caminhos e
as pousadas, deixando ao seu cuidado pôr em ordem os Diários
formando de dois em dois Mezes as relaçoens e tãobem
sim ordenar ao Donati 'q fàça todos os riscos necesarios,
examinando se são exactos. ~ Todas as Semanas examinarão os Diarios pa. aperfeiçoallos, farão Revista dos Instrumentos, do que recolherão, da equipagem, e dos mantimos, pa concertar e proverem-se. (...) Todas as noites deverão aperfeiçoar os Diários, e examinar o q se recolheu e o q hé de facil reducção, e principalmete as frutificaçoens das quais as desconhecidas, ou duvidozas, se farão riscar, e a Anatomia dellas se conservará no Herbario, o qual se fará todas as noites das plantas recolhidas naquelle dia, pondo-lhe no correspondente do Diário, esse mudará as plantas do Herbário, athé estarem bem secos... Próxima Página • Última Página (*)
Coordenadora científica do Núcleo interdisciplinar do Imaginário
e Memória da Universidade de São Paulo. Autora de Retratos
de família: leitura da fotografia e Outra face do feminismo, entre
outros. |
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