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Viajando pelo mundo dos museus: diferentes olhares no processo de institucionalização das Ciências Naturais nos museus brasileiros
por Maria Margaret Lopes



Abstract - Bibliografia

A divisão do Museu em seções com seus respectivos diretores(5) parece não ter tido conseqüências imediatas, no sentido de alterar a opinião que alguns dos viajantes estrangeiros continuavam fazendo do Museu, salientando unanimemente a falta de coleções nacionais.

O Conde de Castelnau e o botânico inglês Gardner (Castelnau, 1847; Gardner, 1975) visitaram o Museu entre 1844 e 1846. Ambos sentiram a falta de maior quantidade de produtos naturais do país. Os pássaros continuavam mal-empalhados e eles se interessaram pela sala dos ornamentos e armas indígenas, pela coleção de múmias egípcias, destacaram a coleção Pabst von Obain como a parte mais completa do Museu, agora já acrescida de interessantes séries de minerais do Brasil, em que os diamantes continuavam a sobressair.

Thomas Ewbank, que visitou o Museu no dia 27 de fevereiro de 1847 (Ewbank, 1976), considerou que a Zoologia e a Ornitologia constituíam os principais ramos do Museu. Os grupos felinos nativos, desde o jaguar até os menores tigres, estavam amplamente representados, assim como os "quadrúmanos". Uma preguiça de mais de 1 metro de comprimento e a "brilhante reunião de pássaros", que incluía os colibris, também chamaram sua atenção.

Embora as coleções do Museu se ampliassem, entre os anos de 1840 e 1850, quando Hermann Burmeister (Burmeister, 1980) - o naturalista alemão que a partir de 1862 seria o diretor do Museu de História Natural de Buenos Aires - o visitou pela primeira vez em 1850, parece que as exposições não haviam sofrido ainda consideráveis alterações. As salas abertas ao público continuavam sendo em número de oito, e Burmeister, de modo contraditório, vai considerar, por um lado, que o Museu é um "instituto científico de valor" e, por outro, que lá não havia "método científico", nem "coleções completas de obras indígenas ou do país". Os pássaros em sua maioria europeus, continuavam mal preparados, embora alguns fossem de grande valor por sua raridade. A coleção de minerais continuava, sem dúvida, também, na sua opinião, a parte mais importante e preciosa de todas. Burmeister ainda menciona a sala dos sarcófagos das múmias e a sala dos mamíferos, onde os macacos predominavam. Mas seu principal interesse - a Zoologia Comparada dos grandes mamíferos quaternários, que ele encontraria na Argentina e que, no Brasil, apenas Lund pesquisava em Lagoa Santa - apenas começava a se instituir, não existindo ainda, de fato, exemplares montados no Museu.

Mas, a partir da década de 1850, serão na sua maioria exatamente os naturalistas estrangeiros que, empregados era comissões pelo museu, se encarregarão de fornecer grande parte das coleções que se formavam (6).

Foram os seguintes os naturalistas, em sua maioria franceses, vinculados ao Museu: João Theodoro Descourtilz, naturalista viajante da seção de Zoologia, especialista em ornitologia, que trabalhou principalmente no Espírito Santo, estando a serviço do Museu de julho de 1854 a fevereiro de 1855; Alfredo Sohier de Gand, naturalista e comerciante de produtos de História Natural (7), que foi encarregado de coletar produtos de História Natural no Pará e Amazonas, em 1855; Louis Jacques Brunet, professor do Ginásio de Pernambuco, coletou para o Museu em uma viagem que fez à Amazônia, entre junho de 1860 e final de 1861, tendo remetido inúmeras vezes produtos naturais do Pará (8). Arsène Onessim Baraquin, embora não tenha sido contratado por falta de verbas, se propôs a coletar produtos de Geologia, Zoologia e Botânica, na Província do Pará e Amazonas, desde que lhe fosse concedido o título honorário de Adjunto Naturalista Viajante do Museu, o que de fato ocorreu (9). Julião Audemars de Brassus foi nomeado naturalista viajante em 1863; Carlos Schreiner, contratado como naturalista ajudante em 1872, tornou-se em 1893 vice-diretor da seção de Zoologia; Domingos Soares Ferreira Penna, brasileiro e primeiro- diretor do atual Museu Paraense Emílio Goeldi, que foi admitido como naturalista viajante em 1872 e esteve entre aqueles que mais mandariam produtos da Amazônia para o Museu, tendo sido exonerado a seu pedido em 1884; Guilherme Schwacke foi contratado como naturalista viajante em 1874 e também exonerado a seu pedido em 1891.

Mesmo o auxílio desses naturalistas, em sua maioria estrangeiros, parece não ter contribuído muito para uma unanimidade de visões de parte de outros estrangeiros. O jornalista francês não especializado em Ciências Naturais, Charles Ribeyrolles (Ribeyrolles, 1980), que chegou ao Rio de Janeiro de 1858 e lá morreu em 1860, afirmava que, embora em suas visitas ao "Gabinete de História Natural" só encontrasse estrangeiros, havia no Museu "assunto para variados e numerosos estudos, uma opulenta coleção de minerais, arquivos etnográficos, armas, utensílios, vestimentas, múmias".

Já para Agassiz, suíço radicado nos Estados Unidos e diretor do Museu de Zoologia Comparada de Cambridge, especialista em ictiologia, que esteve no Brasil chefiando a "Thayer Expedition" (1865-1866), o Museu era antiquado. O naturalista afirmava que as suas coleções se destinavam a "permanecer por longos anos em seu atual estado, sem aumento nem melhoria. Os animais empalhados, mamíferos e pássaros estavam mal conservados e os peixes, excetuando-se algumas belas amostras de espécies do Amazonas, não davam idéia da variedade existente nas águas do Brasil. Coleção melhor se conseguiria em poucas horas no mercado do peixe (fish-market) ". Havia no Museu excelentes fósseis extraídos do Vale do S. Francisco e do Ceará, mas, segundo ele, nem se havia tentado coordená-los (10).

Se os peixes eram tão ruins, parece que os pássaros, particularmente devido à contribuição de Descourtilz, de fato haviam melhorado. Quem o confirma é outro naturalista norte-americano, tão conceituado quanto Agassiz. Joseph Henry, Secretário Geral da Smithsonian Institution, em carta ao diretor do Museu Nacional, no mesmo ano de 1865 em que Agassiz esteve no Museu, agradece o último envio da obra de Descourtilz, Ornithologie Brésilienne, e de uma coleção de pássaros, "em sua maioria novos" para o principal museu norte-americano, ressaltando precisamente "seu excelente estado de preservação e identificação" (11).

Mais interessante é o parecer de Ladislau Netto, então já diretor interino do Museu Nacional, ao Governo Imperial, quando a obra de Agassiz foi divulgada em 1868. Em sua linguagem de naturalista, Netto reconhece que o Museu não podia competir com as coleções de História Natural que mais se distinguiam no Velho Mundo, com os estabelecimentos "tipo" do mundo - ou seja, os principais e em número limitadíssimo museus da Europa -, nos quais, "mesmo nos mais perfeitos, sempre existem lacunas tão sensíveis quanto inevitáveis". E ainda afirma que "o nosso museu é imperfeito e incompleto, confesso. Mas se, quando o ilustre professor o visitou, lhe tivéssemos indiscretamente declinado o algarismo de nossa verba, estou certo de que tais asserções nunca lhe teriam vindo aos lábios e ainda menos à pena" (12).

Ladislau Netto vai ser sem dúvida o grande organizador do Museu Nacional segundo os padrões científicos vigentes nas décadas de 60 e 70 do século passado, e se utilizou da crítica de Agassiz para devolver ao governo sua responsabilidade na falta de verbas para o Museu. Crítico em relação a Agassiz, mas considerando a utilidade de seu conselho, Ladislau Netto passou a "mandar comprar diariamente no mercado desta capital quantos animais raros ou menos conhecidos ali se encontrarem à venda; deste modo alcançarão as nossas coleções ictiológicas e em geral as dos animais inferiores um valor que até hoje lhes faltava" (13).

O Museu reformado em 1876, sob orientação de Ladislau Netto, vai passar a contar com sua publicação científica, Os Arquivos do Museu Nacional, com cursos e conferências públicas e com o trabalho de vários naturalistas europeus, além dos nacionais. Entre outros estrangeiros, Theodoro Peckolt era o encarregado pelo Laboratório Químico, Charles Federic Hartt (discípulo de Agassiz) dirigirá a seção de Geologia do Museu, seguido por Orville Derby; Frederic Müller e Herman von Ihering serão naturalistas viajantes do Museu e Emílio Goeldi dirigirá a Seção de Zoologia.

Mas estes últimos naturalistas, diferentemente da maioria dos anteriores, não são mais viajantes. Profissionalizaram-se no museu. Em geral vieram para cá para construir suas carreiras, continuaram a enviar coleções e publicações para o exterior, mas, uma vez fixados no país, chegaram inclusive a criar suas próprias instituições e mesmo museus.

E, uma vez em suas instituições, buscaram implantar suas próprias concepções científicas, as quais mais do que priviligiarem uma continuidade da tradição naturalista do Museu Nacional, foram fortemente marcadas pela ruptura entre o modelo de Museu Geral, Metropolitano, enciclopédico, que encarnava o Museu Nacional do Rio de Janeiro e o modelo dos museus cada vez mais especializados das províncias, que se afirmaram nas últimas décadas do século, justamente em contra-posição ao antigo museu do Império.

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(5) Foram os primeiros diretores dessas seções, respectivamente: Dr. Emilio Joaquim da Silva Maia; Luis Riedel, naturalista alemão que havia participado da Expedição Langsdorff, o próprio Custódio Alves Serrão e Antonio Araújo Porto Alegre.

(6) Documentos Museu Nacional, 17/1/1851, Pasta 4.

(7) O Almanaque Laemmert para o ano de 1855 o menciona como estabelecido na rua Fresca, 13, 1º andar com o negócio de História Natural. Descourtllz, antes de ser contratado pelo Museu, era seu fornecedor dos produtos de História Natural que também comerciava. Os dealers do mercado de produtos de História Natural tiveram uma grande contribuição na constituição das coleções dos museus de todo o mundo. No caso do Brasil, os negócios de exportação de História Natural parecem inclusive ter tido uma importância econômica relevante em meados do século, a julgarmos pelas informações de Kidder (op. cit.), que assinala em um quadro sobre os artigos exportados do Rio de Janeiro em 1841/42 os valores da exportação de espécimes de História Natural à frente de outros produtos como feijão, algodão e cacau.

(8) Documentos Museu Nacional, 102, 111, 128, 138, 146, 148, Pastas 6 e 8; e 55, Pasta 7.

(9) Documentos Museu Nacional, 19, 54, 56, Pasta 7.

(10) Documentos Museu Nacional, 134, Pasta 8. Baseamo-nos aqui na cópia da página 501 do livro de Agassiz, A Journey in Brazil, traduzida no Aviso de 18 de junho de 1868, que o Ministro da Agricultura encaminhou a Ladislau Netto pedindo seu parecer.

(11) Documentos Museu Nacional, carta de 27/5/1865, Pasta 7. Ver também: carta de Burlamaque, 4/01/1865. Annual Report of the Board of Regents of the Smithsonian Institution, 1865.

(12) Documentos Museu Nacional, 138, Pasta 8.

(13) Arquivo Nacional. Documentação do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Museu Nacional. Pacotes: IE7-64 a IE7-77 (1871 a 1889). IE7-64, 30/11/1872.

 
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