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Artigos
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Viajando pelo mundo dos museus: diferentes olhares no processo de institucionalização das Ciências Naturais nos museus brasileiros por Maria Margaret Lopes |
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Considerações
finais O
traço marcante, presente em todos os depoimentos dos estrangeiros
que estiveram no país no século passado sobre o Museu Nacional,
pareceu apontar no sentido de uma decepção. O
Museu Nacional definitivamente nunca foi o que esperavam dele. O
que sintetiza muito bem essa posição dos naturalistas estrangeiros
em relação ao Museu, também muitas vezes presente
na historiografia brasileira, é, em nossa opinião, um dos
sentidos que Flora Süssekind atribui à frase "O Brasil não
é longe daqui", retirada de uma canção alemã
sobre a imigração, que serve de título para sua obra.
Para Flora Süssekind, essa frase pode ser entendida como "uma observação
feita por alguém já no país em questão e que
não reconhece nele a paisagem anunciada" (Süssekind, 1990:
21). Os
naturalistas estrangeiros conviviam nos museus europeus e tinham suas
concepções acerca das funções que cabiam aos
museus dos novos mundos. Os naturalistas tinham "modos de ver, sabidos
de cor", diz Flora Süssekind. Esperavam encontrar aqui um museu completo,
que reunisse fundamentalmente os produtos locais e que em certa
medida lhes facilitasse o trabalho, como, por exemplo, pôde fazer
o pintor Debret ou fora um motivo de alegria para os naturalistas britânicos,
quando souberam da criação de um Museu na porta da Floresta
Amazônica. Debret,
que esteve no Brasil entre 1816 e 1831, nem sempre precisou enfrentar
as agruras das selvas brasileiras para fazer seu trabalho, pois pôde
desenhar a partir das peças depositadas no Museu Nacional, máscaras,
vestimentas, instrumentos, armas e mesmo cenas de combates entre indígenas,
que ele nunca pôde ver. Este procedimento, regular à época,
não só é mencionado pelo próprio Debret, como
também Gonçalves de Magalhães, em uma notícia
sobre o livro de Debret, que estava sendo publicado em 1836, diz na revista
Nitheroy que "todas as armas de guerra e instrumentos bélicos
foram fielmente copiados dos naturais, que se acham no Museu do Rio de
Janeiro, assim como mantos de penas, cocares, capacetes e mais adornos
selvagens... E a vista destas litografias pode o Zoologista fazer uma
perfeita idéia do que é um selvagem dos bosques do Brasil".
"Para nossa sorte" assim pudemos ter uma idéia de algumas peças
do acervo inicial do museu, tais como Debret as viu à época
(Magalhães, 1836: 187). Quando
da criação do Museu Paraense, o Diário do Gram-Pará,
de 12/7/1872, publicou a seguinte notícia: "A Província
do Para é o paraíso dos zoólogos e principalmente
dos ornitólogos; e isto basta para se compreender a satisfação
que tiveram os sábios do Museu Britânico e o sr. Layard (Cônsul
Britânico no Pará) ao saberem que aqui se inaugurava um Museu
onde dentro de poucos anos se poderão encontrar reunidos os mais
completos e variados espécimes do reino animal, poupando assim
aos naturalistas as fadigas, os perigos e grandes dispêndios nas
diligências de irem procurá-los nas florestas e desertos
do interior". Diferentemente
do que esperavam os estrangeiros, o que se intencionou criar na capital
do Império foi sempre um Museu nos moldes europeus, completo sim,
mas de amostras que representassem o mundo todo, um símbolo do
urbano, da civilização. Mesmo nossa historiografia nunca
entendeu o que fazem até hoje múmias egípcias no
Museu Nacional. Agassiz
afirma que o Rio de Janeiro foi durante todo o século XIX o alvo
principal das expedições científicas de franceses,
ingleses, alemães, russos, americanos, o que poderia ter causado
uma diminuição no interesse científico sobre esta
província, mas dava-se justamente o contrário na sua opinião.
"Precisamente porque os espécimes descritos ou figurados na maioria
dos relatos de viagens provinham do Rio de janeiro e de suas cercanias,
tornava-se indispensável que todo museu desejoso de ser completo
e exato possuísse exemplares originais dessas localidades e pudesse
verificar as descrições das espécies indicadas" (Agassiz
& Agassiz, 1975: 33). Os
naturalistas brasileiros conheciam as espécies do Rio de Janeiro,
viajavam em seus arredores e mesmo Ladislau Netto passou a buscar espécies
novas no mercado, depois dos conselhos de Agassiz. Mas seus interesses
científicos, tanto quanto os dos estrangeiros, estavam voltados
para a busca de exemplares originais, para a descoberta de novas espécies,
de novos lugares. Ferdinand
Denis, que esteve no Brasil nas primeiras décadas do século
passado, no que nos parece uma exceção, colocou em termos
bastante "simples" a questão de como diferentes olhares enxergavam
diferentes "invisíveis". Disse Denis: "Certo viajante observou
que entre as curiosidades do Museu Nacional do Rio de Janeiro foi colocado
um cisne e um pintarroxo. A coisa é muito simples e os brasileiros
teriam muito o que falar se notassem os pássaros vulgares de suas
campinas que conservamos em nossos museus" (Denis, 1980: 409). Se retomamos
o sentido que Pomian (1984: 51-86) atribuiu às coleções
de qualquer tipo de museu, de unir "o mundo visível e o invisível",
é possível entender que o invisível não poderia
estar no mercado de peixes, como queria Agassiz. Não era a todo
lugar que se podia chamar de Brasil, de país de natureza exuberante
e de civilizações indígenas de costumes peculiares.
Para os moradores da Corte, da sede do Império, este Brasil não
era longe dali, mas seguramente não era ali... Nesse
estudo sobre a institucionalização das Ciências Naturais
no Brasil no século XIX, nesses espaços institucionais que
especialmente abrigaram esse processo - os Museus de História Natural
-, deparamos constantemente com esse olhar dos naturalistas estrangeiros,
que, de passagem pelo Brasil, nos legaram uma visão de nós
mesmos, nem sempre coincidente com aquela que cada vez mais vimos recuperando
nos densos volumes de metros cúbicos das estantes esquecidas de
nossas bibliotecas, museus e arquivos. Praticamente
por todo o século XIX, fomos obrigadas pelo rigor histórico
a nos deter sobre tais visões, contestando-as, corroborando-as
ou, na maioria dos casos, contextualizando-as, como o recomendam as tendências
historiográficas atuais. Para o final do século passado,
o mesmo rigor nos levou a procurar identificar quais foram os ideais de
museus que alguns desses naturalistas, que desenvolveram suas carreiras
científicas no país, imaginaram criar. Buscando
sua inserção no mundo civilizado, no movimento internacional
dos museus, na comunidade científica européia e americana,
os diretores dos Museus brasileiros buscaram seus referenciais, quer para
seus trabalhos em seus campos específicos de conhecimentos científicos,
quer para suas idéias museológicas, nos seus países
de origem, onde estudaram ou naqueles que se constituíram nos Museus
e centros de investigações mais afamados do século
passado. Aos
Museus de Ihering, Netto e mesmo de Goeldi não se ajustava a categoria
de "coloniais", com que Bather caracterizou os museus do Império
Britânico e que Sheets-Pyenson tomou de empréstimo em sua
análise dos museus canadenses, argentinos e australianos. Nem,
tampouco, às sugestões usuais à época, de
que museus menores se concentrassem na exposição de materiais
locais, fazendo com que os habitantes conhecessem seu próprio país
e permitindo aos especialistas estrangeiros estudar com facilidade o país
em questão. Buscando
a especialização científica na Amazônia e em
São Paulo e a globalização das ciências no
Rio de Janeiro, nossos diretores de museus, que concebiam a ciência
como universal e analisavam as diferenças entre os países
como uma mera questão de fases, estágios a serem ultrapassados,
normatizavam suas práticas para mais rápido superar esses
processos. E se, para tanto, tiveram referências, quer no Muséum
de Paris, no British Museum ou no Smithsonian, no anseio de exatamente
buscarem acompanhar o desenvolvimento das suas ciências, mesmo em
nível dos espaços institucionais, para onde as mudanças
das idéias e dos momentos sociais transferiram o prestígio
internacional, também se firmaram cada vez mais no próprio
país, construindo seu próprios projetos de dimensões
regionais, continentais e mundiais. Da
análise do que foram os ideais expressos pelos diferentes diretores
dos museus brasileiros em suas mediações práticas,
é possível perceber que esses se materializavam em um incansável
reunir e classificar coleções, realizar excursões,
atender solicitações dos órgãos públicos,
solicitar verbas, ampliar edifícios inadequados, ministrar cursos
e palestras, estabelecer intercâmbios em nível nacional e
internacional, publicar periódicos, estabelecer prioridades de
investigação, disputar espaços de profissionalização,
travar embates políticos no bojo do processo de consolidação
da comunidade científica no país. Assim,
do ponto de vista dos papéis desempenhados pelas instituições
museológicas em nível internacional, como outros museus
que se disseminaram por todos os continentes, esses museus brasileiros,
a despeito de suas dificuldades, desempenharam especificamente suas funções
de centros de pesquisa, não se restringindo apenas a atuar como
repositários de objetos, mas buscando firmar-se pela relevância
de sua produção científica e de sua pesquisa experimental,
ao lado das funções de catalogação e classificação
das coleções. Especializaram-se na tentativa de não
ser superados e exerceram um papel pioneiro na institucionalização
de áreas de conhecimento no país, como a Paleontologia,
Antropologia e mesmo Fisiologia Experimental, rompendo a mesma tradição
naturalista que inauguraram enquanto instituições no país. Abstract:
During the 19th century the National Museum of Rio de Janeiro and
other Brazilian museums established their contribution to the process
of institucionalization of Natural Sciences in the country. These
institutional loci, constituted especifically to gather
collections and to allow the advancement of taxonomic and systematic studies,
have witnessed not only the existence of scientific activities in Natural
History in the last century in Brazil, but also demonstrated that
the quantity, the quality and the continuity of their scientific
manifestations have surpassed many expectations. This paper comments
upon some aspects of the different world vision, conceptions and institutional
models that coexisted in Brazilian museums, from the point of view
of foreign naturalists who have visited them or have worked there. Key-words:
natural sciences - museum - taxonomy - institutional models Página
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