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Viajando pelo mundo dos museus: diferentes olhares no processo de institucionalização das Ciências Naturais nos museus brasileiros
por Maria Margaret Lopes
(*)


Abstract - Bibliografia

Resumo: Ao longo do século XIX, primeiro o Museu Nacional do Rio de Janeiro e, depois, o conjunto dos museus brasileiros estabeleceram sua contribuição ao processo de institucionalização das Ciências Naturais no país. Esses loci institucionais, constituídos especificamente com o fim de armazenar coleções e permitir o desenvolvimento dos estudos taxonômicos e sistemáticos, testemunharam que não só existiu atividade científica no Brasil no século XIX, no âmbito das Ciências Naturais, como também a quantidade, a qualidade e a continuidade de suas manifestações, superaram muitas expectativas (Lopes, 1993). Este artigo comenta brevemente alguns aspectos das diferentes visões, concepções e dos modelos institucionais que conviveram nos museus brasileiros, a partir da ótica dos naturalistas estrangeiros que os visitaram ou neles trabalharam.

Palavras-chave: ciências naturais - museus - taxonomia - modelos institucionais

"As visões sobre o avanço da ciência construídas pelos sábios norte-atlânticos os tornaram incapazes de perceber e muito menos valorizar as produções de seus colegas latino-americanos. Essas visões foram ainda reforçadas pelos viajantes, cientistas do mundo norte-atlântico, que, desde Humboldt até Einstein, chegaram, sorriram com perplexidade e retornaram às suas casas, freqüentemente assombrados com o fato de que aqui pudessem existir instituições científicas e particularmente que estas tenham podido levar a cabo programas de investigação" (Pyenson, 1988: 229-49).

O que os naturalistas estrangeiros viram no Museu Nacional do Rio de Janeiro

A origem do atual Museu Nacional do Rio de Janeiro, criado em 1818, remonta à Casa de História Natural - a Casa dos Pássaros, criada em 1784. Embora herdasse suas coleções, o museu brasileiro foi criado em uma concepção oposta à da Casa dos Pássaros, que se tratava de um entreposto colonial, para remeter produtos naturais de todo o ultramar para os museus portugueses de Ajuda e Coimbra.

O que se criou no Rio de Janeiro, já então sede do Império português, foi um Museu Metropolitano de caráter enciclopédico e universal. Criado como um símbolo do urbano, da civilização e do progresso, seguiu o modelo dos grandes museus europeus, particularmente do Museu de História Natural de Paris, onde estudariam muitos de seus diretores. Essa concepção globalizadora, com as devidas alterações conjunturais, decorrentes do desenvolvimento das Ciências Naturais, se manteria até hoje. Assim, dado seu caráter metropolitano, o Museu Real, Imperial e posteriormente Nacional, reuniu em seu acervo não só coleções nacionais, como também européias, egípcias, greco-romanas e das antigas possessões portuguesas na África e Ásia.

Esta concepção é explicitada claramente nas "Instruções para os viajantes e empregados nas colônias sobre a maneira de colher, conservar e remeter os objetos de História Natural..." traduzidas da publicação do Museu de História Natural de Paris pela Academia de Ciências de Lisboa e acrescidas de "reflexões sobre a História Natural do Brasil e o estabelecimento do Museu e Jardim Botânico na Corte do Rio de Janeiro em 1819" (1), que serviram de base para a organização do Museu em suas primeiras décadas de funcionamento.

Repetidas vezes lembradas pelos primeiros diretores do Museu do Rio de Janeiro, as "Instruções" divulgaram as concepções de História Natural de Vandelli, Buffon, Saint-Hilaire, para propor a organização ideal do "Museu Geral Brasílico". Este deveria ser baseado em uma rede de Gabinetes de História Natural locais, em cada província do Brasil, bem como em cada uma das Ilhas e Possesões portuguesas na África e Ásia. E, dada a inversão total da situação geopolítica, que trouxe a Corte portuguesa para o Rio, para Lisboa e Coimbra deveriam ser mandadas as duplicatas de que se pudesse dispor no Museu brasileiro.

Durante todo o século, viajantes, residentes, funcionários, seekers, amadores, naturalistas de todo o mundo visitaram o Museu Nacional do Rio de Janeiro a serviço dos museus de História Natural de seus países de origem, para os quais investigaram, coletaram e enviaram coleções de produtos naturais.

Acompanhemos então, a princípio em suas visitas ao Museu, a Johann Emanuel Pohl, um dos integrantes da expedição austríaca, entre 1818 e 1821; Maria Graham, viajante inglesa, em 14 de agosto de 1823; o Barão de Bougainville, por diversas vezes entre 1824 e 1826; Thévenot, membro da Real Academia de Paris e cirurgião da Marinha francesa, em 1833; George Gardner, botânico inglês, em fins de 1836 e o pastor americano Kidder, no segundo semestre de 1838 (ver respectivamente: Pohl, 1976; Graham, 1990; Gardner, 1975; Kidder, 1980).

Segundo seus relatos, no salão principal do primeiro andar estavam as coleções mineralógicas. A coleção de minerais da Saxônia - Pabst von Ohain - era a parte mais rica e bem organizada de todo o Museu, estando durante estes anos classificada segundo sua composição química e os princípios cristalográficos de Haüy (2). Entre os minerais nacionais, os diamantes se destacavam em meio às não muito numerosas amostras de ferro, cobre e carvão das minas de São Paulo; e ametistas, quartzos, ouro e topázios de Minas Gerais.

Quanto às coleções zoológicas, desde seu início o Museu jáera rico em crustáceos e zoófitos, especialmente das possessões portuguesas nas índias Orientais; entre os pássaros, embora houvesse poucos notáveis e em geral mal preparados e mal classificados, destacava-se a princípio a considerada esplêndida coleção de tucanos, que José Bonifácio de Andrada e Silva, então Ministro dos Negócios do Império, requisitou para o ornamento do manto da coroação de D. Pedro I (3).

Entre as coleções botânicas merecia destaque apenas a coleção de madeiras do Brasil, com grande variedade de espécies. As coleções africanas, embora não muito numerosas, eram bem conservadas. As salas das moedas eram pouco amplas e os quadros expostos, em geral, desgostavam os visitantes, embora Maria Graham tivesse lá depositado algumas de suas pinturas.

Para o final da década de 1830, o Museu já apresentava suas coleções consideravelmente ampliadas, distribuindo-se por sete ou oito salas. Era opinião corrente entre os estrangeiros que, mesmo apesar de muito melhorado, o Museu ainda dava uma idéia muito acanhada da grande quantidade de produtos naturais do país, se comparássemos suas coleções àquelas dos museus de Munique, Viena, Paris, São Petersburgo, Londres e Edinburgo, que ostentavam magníficas coleções de material brasileiro.

Custódio Alves Serrão, professor de Mineralogia da Academia Militar, diretor do Museu desde o início da década de 30 e idealizador da reforma de 1842 do Museu em suas quatro seções - Anatomia Comparada e Zoologia; Botânica, Agricultura e Artes Mecânicas: Mineralogia, Geologia e Ciências Físicas; Numismática, Artes Liberais, Arqueologia e Usos e Costumes da Nações Antigas e Modernas -, também se ressentia da ausência de produtos do país no museu. Preocupado com as classificações, iniciou a organização de uma biblioteca no Museu, comissionou o italiano Ricardo Zani para formar coleções na Amazônia e incentivou os presidentes das províncias a enviarem doações ao Museu (4).

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(*) Instituto de Geociências-UNICAMP.

(1) Instrucção para os viajantes e empregados nas colônias sobre a maneira de colher, conservar e remetter os objectos de História Natural. (Arranjada pela administração do Real Museu de História Natural de Paris. Traduzida por ordem de Sua Majestade Fidelissima, expedida pelo excellentissimo ministro e Secretario d'Estado dos Negócios do Reino do original Francez impresso em 1818. Augmentada, em notas, de multas das instrucções aos correspondentes da Academia Real das Sciencias de Lisboa, impressas em 1781; e precedidas de algumas reflexões sôbre a História Natural do Brazil, e estabelecimento do Museu e Jardim Botânico em a Côrte do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, na Impressão Régia, 1819. lvi + 77p.

(2) Livro dos Ofícios do Museu Nacional e Imperial do Rio de Janeiro, desde o ano de 1819 até 4 de fevereiro de 1842. L. O. Mus. Nac. 1/05/1825: 12.

(3) Documentos Museu Nacional 17, de 25/11/1822, Pasta 1.

(4) Relatórios do Museu Nacional dos anos de 1830 e 1831.

 
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