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Ecologia Polissêmica
Marilia Coutinho



Abstract - Bibliografia

2. A diversidade no tempo

Até agora fizemos explodir a unidade ecologia mediante um corte sincrônico nos discursos científicos produzidos. Vejamos o que nos aguarda um corte diacrônico:

1. By ecology we mean the body of knowledge concerning the economy of nature - the investigation of the total relations of the animal both to its inorganic and to its organic environment; including, above all, its friendly and inimical relations with those animals and plants with which it comes directly or indirectly into contact - in a word, ecology is the study of all those complex interrelations referred to by Darwin as the conditions of the struggle for existence (Haeckel, 1870, in McIntosh, 1985: 7).

2. The increasing sanity of physiological problems is due in large measure to the wholesome influence of ecology. In the old days when physiology was a mere laboratory science, and therefore artificial, no experimental test could be too bizarre to be applied to plants (Cowles, 1909, in McIntosh, 1985: 40).

3. Usually ecology is defined as the study of the relation of organisms or groups of organisms to their environment, or the science of the interrelations between living organisms and their environment. Because ecology is concerned especially with the biology of groups of organisms and with functional processes on the lands, in the oceans, and in fresh waters, it is more in keeping with the modern emphasis to define ecology as the study of the structure and function of nature, it being understood that mankind is a part of nature (Odum, 1971: 3).

E. Haeckel merece uma menção especial nesta perseguição às significações de ecologia, pois foi o responsável pela cunhagem do termo em 1866 e, portanto, pela atribuição de seu primeiro significado. No segmento 1, Haeckel propõe em 1870 que o objeto de estudo da ecologia - um "corpo de conhecimento", uma disciplina científica - possa ser descrito pela expressão "economia da natureza"(5), que seria o conjunto de relações do organismo com seu ambiente. No entanto, Haeckel especifica que este seria um estudo das "condições da luta pela existência". Esta luta pela vida, centrada nas relações competitivas, é o núcleo da explicação sobre a especiação na teoria evolutiva de Darwin. Assim, ecologia é o estudo das condições do processo evolutivo e, portanto, subordina-se conceitualmente a este outro estudo. Como veremos em outro capítulo, alguns autores identificam justamente nesta subordinação o motivo pelo qual a cunhagem do termo ecologia neste momento está dissociada de sua constituição como disciplina científica, aproximadamente 30 anos depois. A ecologia é definida em função da Evolução - um discurso baseado em explicações de natureza histórica -, é centrada no animal (plantas não mencionadas) e diz respeito à sua expressão na espécie e na população.

Trinta e nove anos mais tarde, em 1909, encontramos Cowles, no segmento 50, empregando o mesmo termo ao referir-se a uma disciplina científica. No entanto, aqui vemos uma ecologia centrada na planta e tendo como problemática as questões fisiológicas. Poderíamos até mesmo assumir que o enunciado de Cowles nos autoriza a considerar a ecologia uma espécie de "superfisiologia", já que a antiga fisiologia era uma "mera ciência de laboratório"; agora, na condição de ecologia, seria também de campo. Se suas feições são fisiológicas, então constitui um discurso caracterizado por explicações funcionais, favorecendo-as sobre as de natureza histórica.

Dando mais um salto de 62 anos, podemos observar Odum definindo a ecologia como o estudo da estrutura e função da natureza, não enfatizando especialmente nem animais, nem plantas; nem o ambiente, nem o organismo. Esta natureza, da qual se deseja compreender a estrutura e função, é um todo inseparável. Um todo cujas características são possuir estrutura e função - um sistema estruturado.

Se fossem introduzidos mais segmentos no conjunto, preencheríamos os saltos cronológicos com mais diversidade: teríamos V. E. Shelford definindo ecologia como a ciência das comunidades em 1913 (McIntosh, 1985: 263), C. Elton definindo-a como uma história natural científica em 1927 (Elton, 1927) e muito mais.

A ecologia não apenas não é o mesmo objeto para os diferentes grupos de agentes que a definem hoje, como não foi o mesmo objeto ao longo dos últimos 127 anos, mesmo considerando apenas os cientistas.

3. Muito além da ciência

Mas ciência é apenas uma pequena parte do conjunto das significações disponíveis para ecologia. Considerando uma parcela mais ampla de consumidores de discursos institucionais, talvez nem mesmo a mais comum. As mais comuns parecem ser aquelas que associam a ecologia a programas, movimentos ou discursos políticos em geral ou, alternativamente, aquelas que associam ecologia a preservação ou a meio ambiente. Pode-se afirmar isto porque são os conteúdos mais comumente atribuídos a ela pela mídia (Coutinho, 1994). Há uma causa ecológica e uma consciência ecológica. Ecologia aqui é um conjunto de representações sobre a sociedade, um discurso prescritivo de como administrar as relações sociais, uma plataforma de transformação política (segmentos 18 a 29). Esse parece ser o sentido de ecologia implícito no seu emprego neste segmento:

"Tudo isso implica que devemos aprofundar a reflexão a respeito da idéia de sociedade natural, tão comum entre aqueles que se envolvem com a ecologia" (Gonçalves, 1989: 95).

Tratando-se de discursos políticos e, portanto, prescritivos, sobre o quê e em que sentido eles normatizam? Num texto de J. A. Pádua (1987: 13), vemos a ecologia qualificada como "política" identificada à reflexão política sobre as relações entre natureza e sociedade. É exatamente aqui que se imbricam todas as modalidades de discurso que mobilizam a palavra ecologia. Há um grande projeto (Leis, 1991: 11) ou causa ecológica(6), cumprível por agentes do campo político (ambientalistas), em que a natureza parece promovida à qualidade de ator social, capaz de ecologizar a sociedade (Lago, 1991: 217) ou de engendrar uma consciência ecológica. Mas consciência do quê é esta consciência ecológica? Esta ecologia capaz de qualificar consciência é um produto cultural, ou é a própria natureza?

"A 'consciência ecológica' seria, pois, o resultado de esforços combinados, desde os efetuados por lideranças científicas nos diversos campos de investigação aos setores técnicos de aplicação de conhecimentos, aos quadros de decisão política e ao contexto social, indiscriminadamente" (Lago, 1991: 25-6).

Vemos aqui que esta consciência é resultado dos esforços de políticos, técnicos e cientistas e presume-se que tais esforços se referem à divulgação de seus discursos específicos. Desta forma, os conteúdos desta ecologia que se faz consciência estão configurados por estes discursos. Assim, a consciência ecológica ou da ecologia é a consciência dos conteúdos do discurso da ecologia. Mas podemos também admitir que os esforços persuasivos dos setores indicados objetivam promover a consciência de uma condição, analogamente à consciência de classe ou consciência política em geral - respectivamente, consciência da condição de classe e da condição política, ou de pertencer a uma classe e a uma categoria política. Qual seria a condição de pertencimento correspondente a ecologia? Certamente, a própria natureza. Ao contrário de outras formas de "consciência" buscadas por segmentos variados do campo político em que se objetiva proporcionar à pessoa a interiorização de uma representação de si mesma como ser da sociedade, esta busca inculcar uma representação dos homens como seres da natureza. Volto a indagar: ecologia, aqui, é produto cultural ou objeto da natureza? Ambigüidades do mesmo gênero estão presentes em expressões como ecologização da sociedade (Lago, 1991: 217) ou desafio ecológico (Leis, 1991: 8).

Por um lado pela importância social dos significados políticos associados a ecologia e por outro pela busca de distinção entre os conteúdos político e científico, e, portanto, dos domínios de competência correspondentes(7), foi engendrado o popular neologismo ecologismo. Uma definição representativa é aquela oferecida por E. J. Viola e H. R. Leis (1991: 24). Nesse segmento, o autor se esforça por caracterizar um imenso coletivo, cujas regras de coesão permanecem obscuras, que se identifica por ser de uma forma ou de outra recoberto pela temática ambiental.

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(5) O uso da expressão "economia da natureza" remonta a C. Linnacus, no século XVIII.

(6) "Uma 'viagem' pela causa ecológica" (manchete do JB, Ecologia & Cidade, 5/6/92, p. 4).

(7) Sobre a busca de distinção, ver Bourdieu, 1981.

 
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