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8.
História - a polissemia e sua origem
No
entanto, a apropriação mais significativa é aquela
denunciada pela própria diversificação de significados
da palavra ecologia. Palavras não são formas naturais
exibindo evolução convergente, aparecendo independentemente
em várias circunstâncias. Seu uso polissêmico indica
um percurso de apropriações. Para poder compreender o significado
desta polissemia, que se expressa em tantos níveis, é preciso
seguir a trajetória de apropriações de idéias
associadas à palavra.
A
figura 1 representa uma tentativa de organizar alguns dos segmentos apresentados
aqui seqüencialmente, em termos da sucessão de definições,
suas influências, afinidades e contradições. Alguns
aspectos desta figura são curiosos: o primeiro bloco - Haeckel/1869
- não está ligado a nada. A impossibilidade de liga-lo a
outros só pode ser mais bem compreendida através de um
estudo histórico-sociológico (Coutinho, 1994: ref. 8),
mas já mencionei anteriormente que a cunhagem do termo nessa ocasião
está dissociada do movimento de agentes que de fato formou o campo
científico da ecologia por volta dos anos 90 do século passado
e início deste. É certo que o que surgiu nesse momento seguinte
foi uma disciplina científica totalmente diferente da que imaginaria
Haeckel para se abrigar sob o termo por ele inventado. No entanto, também
é certo que não se produziu um novo termo para designar
a disciplina. Além disso, os aspectos gerais do domínio,
os objetos que ele abrange, continuaram coerentes com a definição
original: a relação entre organismos e seu ambiente, embora
relação, organismos e ambiente tenham sido totalmente
redefinidos. Como veremos mais tarde, o significado desta apropriação
em termos da estratégia dos agentes envolvidos na formação
do novo campo, quanto à demarcação que impuseram
num antigo domínio de competência, é absolutamente
fundamental para se compreender a história da ecologia.
Figura
1 - Esquema do relacionamento entre os conteúdos de alguns
dos segmentos de texto do apêndice I; o tracejado representa relações
indiretas, a seta representa relações de apropriação
ou citação, a seta dupla representa afinidade e a linha
interrompida representa antagonismo. Os segmentos estão dispostos
de cima para baixo segundo ordem cronológica de publicação
do texto de onde são retirados. Dos autores não comentados
neste ensaio, Ricklefs e Robinson são - evidentemente - autores
que se identificam melhor com a proposta populacional/evolutiva e antagonizam
a perspectiva ecossistêmica. Rizzini é um autor brasileiro
de livros de ecologia vegetal de perspectiva fisiológica. Figura
extraída de M. Coutinho, Reflexões acerca da Estrutura
do Conhecimento Ecológico - representações de natureza
e representações de sociedade. Tese de doutoramento
apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de São
Paulo, São Paulo, novembro de 1994, p. 33.
A
partir de Cowles, em minha figura, vemos que sempre é possível
estabelecer relações entre os discursos, relações
estas que representam a presença subjacente de uns nos outros.
Mas, examinando os conteúdos destes segmentos de texto, vemos que
a cada manipulação das definições anteriores
a palavra sofre novas transformações.
Também
gostaria de chamar atenção para um aspecto significativo
dos discursos científicos: de todos os segmentos estudados, apenas
um representa um discurso que parece ter-se prestado a "trocas" com discursos
não científicos, o de Odum (1971). Enquanto os outros se
limitam a reafirmar a competência biológica sobre o objeto
ambiental, simplesmente ignorando a existência de outros discursos,
ou mais enfaticamente rejeitando os discursos políticos sobre o
ambiente, o discurso de Odum parece tender a incorporar outros significados.
A apropriação de elementos deste discurso científico
por outros reforça esta suposição. Ao mesmo tempo
que o discurso de Odum se presta a estas relações "extracientíficas",
é rejeitado por uma boa parte dos outros segmentos científicos,
como já vimos. O texto de Odum é tomado de um livro-texto
que se filia a uma das tradições da ecologia - a ecologia
de ecossistemas. A maior parte dos outros segmentos foi retirada de textos
de ecologia de populações ou ecologia evolutiva - que, aliás,
apresentam profunda afinidade. A estrutura conceitual destas duas grandes
vertentes e, consequentemente, suas representações sobre
a disciplina a que pertencem são muito diferentes: enquanto uma
se fundamenta no estudo de tais unidades naturais a que chama ecossistemas,
a outra se baseia na população, num caso, ou
no organismo, no outro; enquanto uma produz explicações
funcionais e estruturais, a outra produz explicações históricas.
Isto sugere que alguns conteúdos, uma vez apropriados, se prestam
à construção de novos discursos não submetidos
aos compromissos de cientificidade, enquanto outros não.
Vários
autores sugerem que a explosão de significados com a produção
de novos conteúdos políticos e valorativos aderidos ao termo
ecologia é produto das transformações
na temática ambiental ocorridas nos anos 60. Vejamos o que diz
McIntosh (1984), um dos mais conhecidos historiadores da ecologia e também
reconhecido ecólogo:
"The
science of ecology intruded upon public awareness in America for the first
time in the late 1960's as a result of acute environmental problems.
Because of the context in which this awareness developed, the term
ecology became synonymous with environment and pollution. This was a distortion
of the modern historical development of the science in two respects:
it placed more emphasis upon the inanimate surroundings than upon
the organisms and more emphasis upon the applied than upon the
pure science" (McIntosh, in Egerton, 1984).
McIntosh
constata e lamenta muito essas relações semânticas
que chamei aqui de apropriações e que ele considera uma
"distorção" (apropriação num sentido "errado"
ou "ilegítimo"). A causa parece ser, para o autor, o uso do termo
pelo grande público (public awareness), insubordinado às
regras de conduta e aos consensos da comunidade científica. E a
distorção se materializa em duas tendências: a ênfase
no ambiente inanimado e a ênfase na ciência aplicada. Ora,
estas críticas podem muito bem ser dirigidas por um ecólogo
populacional (como também é McIntosh) ou evolutivo à
ecologia de ecossistemas, pois, nos vários segmentos associados
àquelas vertentes, percebemos que os autores se ressentem da ausência
do organismo na ecologia de ecossistemas (veja o texto de Dajoz, por exemplo).
O mesmo se pode dizer do caráter aplicado da ecologia.
Voltando
a McIntosh, ficamos sabendo que as vozes do grande público passaram
a emitir idéias segundo as duas tendências de distorção
apontadas pelo autor, no final dos anos 60. E também sabemos que
estas tendências já se encontravam no interior da própria
ecologia. Isso parece indicar que as relações de apropriação
que identifiquei acima devem ter começado ou se intensificado nesse
momento, produzindo, então, novos significados associados à
palavra ecologia e novas representações das práticas
designadas por ela - científicas ou políticas.
Resumindo:
a palavra ecologia surgiu no contexto da biologia evolutiva em 1869; foi
tomada por agentes de fora deste campo para com ela constituir uma nova
disciplina com seus objetos e problemáticas próprias entre
o final do século passado e início deste; sofreu diversificação
de significados no interior do campo científico desde então
e finalmente, sobrepondo-se a esta, teve novos significados não
científicos a ela adicionados por volta dos anos 60.
O
que mostra este exercício de reflexão que fiz, tentando
relacionar os segmentos tomados casualmente de textos variados, é
que este tipo de transformação semântica e conceitual
está associado à dinâmica de agentes específicos,
à organização de campos, às estratégias
de legitimação. Também mostra que, para compreender
a diversificação de significados, seja sincronicamente ou
diacronicamente, é preciso interpretar a lógica das relações
sociais que comandam estes fenômenos.
A
história, os jogos polêmicos, a diversidade de mundos vividos
por grupos tão diferentes de agentes sociais foram aqui os cenários
para que o feitor pudesse ser apresentado à ecologia e
à sua diversidade de significados. Ecologia: esta curiosa palavra,
tão fluida, tão flexível, tão própria
desta nossa estranha condição contemporânea.
Abstract:
One of t e main features display by discourse is the availability
of the alternative theorical viewpoints disputing the preference
of the ecologists. It has bee so since the very birth of ecology.
This discursive features has generally been noticed through the
disputes which became popular among certain theoretical perspectives:
early community ecology being opposed by individualistic population ecology
and, afterwards, population ecology opposing ecosystem ecology. It seems
that this trait, rather then representing the development of any everfasting
philosophical debate, expresses the constitution of very different
and discontinuous discursive system under specific social context.
Key-words:
ecological discursive - ecosystem - environmental discussion -
holistic
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