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Ecologia Polissêmica
Marilia Coutinho
(*)



Abstract - Bibliografia

Resumo: Uma das principais características exibidas pelo discurso ecológico é a disponibilidade de perspectivas alternativas, disputando a preferência dos ecólogos. Tem sido assim desde o nascimento da ecologia. Essa característica foi, em geral, identificada através de disputas notórias entre certos referenciais teóricos: entre a ecologia de comunidades do início do século e a ecologia de ecossistemas. Estas oposições, ao contrário de um eterno debate filosófico, expressam a constituição de sistemas discursivos descontínuos e muito diferentes, sob contextos sociais específicos.

Palavras-chave: discurso ecológico - ecossistema - meio ambiente - holístico

O que é ecologia?

Apenas uma reflexão rápida e superficial, em que se procure buscar um conteúdo associado a esta palavra, já é capaz de indicar que a pergunta acima não é trivial: qualquer pessoa minimamente familiarizada com o termo pode lembrar mais de um significado para ela, sem grande esforço intelectual.

Essa experiência em si não tem nada de extraordinário, pois parece pouco contestada a idéia de que um termo não possui um sentido na língua, e sim muitos sentidos. Assim, diante da pergunta, podemos nos recordar de várias definições independentes. Podemos associar ecologia a "preservação", a uma "disciplina científica", a um "movimento político" ou mesmo a uma "filosofia" ou "religião". Por que pudemos fazer estas associações, que, dentro de uma certa racionalidade admitida, são até mesmo incompatíveis e contraditórias? Por que pudemos construir tantos significados diferentes? O fato é que, diante do desafio cognitivo de definir ecologia, recuperamos significações já interiorizadas que integram nosso aparato cognitivo naquele momento. Esses sistemas integrados de significações são a base da nossa existência cultural, o que remete à questão de como pudemos nos apropriar de tantas significações diferentes associadas à ecologia. De fato, a idéia de que a língua não é um acervo estático de signos, significantes e seus usos e que não somos simplesmente usuários, mas construtores, e que a mobilização de recursos lingüísticas na produção dos discursos constitui uma ação propriamente social (cf. Possenti, 1988), nos remete à idéia de que, para prosseguir nossa reflexão, devemos voltar nosso olhar para as comunidades que partilham tais recursos. Aqueles significados que estávamos investigando são construidos, atualizados e modificados socialmente. Além disso, ecologia, pelo menos quanto à maioria de seus significados, remete a discursos institucionalizados, o que implica que existem agentes legítimos quanto à competência de produzir e fazer circular tais discursos. Isso significa, além disso, que a análise daquelas significações conduz à análise destes discursos institucionais e portanto a uma análise documental(1). Tentemos, portanto, seguir os percursos daquelas significações. Vejamos como se expressa essa polissemia em alguns tipos de registro disponíveis. Estes segmentos de textos em que a palavra ecologia é definida ou utilizada foram retirados dos mais variados tipos de publicação: livros e periódicos científicos, obras de divulgação e de comentário político, a grande imprensa diária, e outros gêneros intermediários(2).

Pude listar pelo menos 30 significados diferentes de ecologia, alguns com diferenças sutis, mas importantes. Tome-se, por exemplo, a própria definição de ecologia como ciência: Ecologia é uma ciência. Mas que tipo de ciência? Vejamos alguns exemplos:

1. In part as a result of this realization, ecology has evolved from a sub-discipline in biology to a branch of science on its own that includes due involvenlent of many aspects of the functioning of human society (Geerling et al., 1986: 211).

2. The problem of disappearing species has hitherto been tackled mainly from the standpoints of biology and ecology, with less attention to the economic and institutional factors that bring species under threat (Myers, 1976: 193).

3. L'écologie est la science qui étudie les conditions d'existence des êtres vivants et les interactions de toutes sortes qui existent entre ces êtres vivants d'une part, entre ces êtres vivants et le milieu d'autre part. Ainsi définie 1' écologie est une science biologique très vast dont il est parfois difficile de cerner les limites. Ceci est d'autant plus marqué que, à l'heure actuelle, le mot écologie sert à qualifier un très grand nombre d'idées et d'activités qui n'ont rien à voir avec cette science et que l'on nomme parfois écologisme pour bien marquer la différence. D'autres chercheurs ont de l'écologie une conception plus étroite. Pour eux le domaine de l'écologie se limite à ce que nous appelerons l'écologie des écosystèmes. Ils considèrent l'étude des populations comme une discipline distincte, que l'on peut appeler dynamique des populations et ils excluent l'écologie des individus, ou autoécologie que s'apparente alors à la physiologie (écophysiologie) et à la biogeographie. Si l'on adopte ce dernier point de vue l'écologie peut être définie comme l'étude de la structure et du fonctionnement des écosystèmes (Dajoz, 1985).

No segmento 2, a ecologia era uma subdisciplina da biologia e se desenvolveu no sentido de tornar-se uma ciência autônoma. Então a ecologia:

a. era uma disciplina biológica,
b. não é mais.

Se não é mais biológica, então o que é agora? Neste mesmo segmento, vemos que esta nova ciência autônoma inclui aspectos do funcionamento da sociedade humana. De modo que a ecologia não é mais biológica não por ter deixado de ser biológica, mas porque é mais do que biológica: é também social.

No segmento 2, aparentemente ela também não é biológica, pois os pontos de vista da biologia e da ecologia são mencionados aditivamente. Mas também não inclui os aspectos econômicos e institucionais que obviamente estão implicados na definição do segmento 32.

Finalmente, no segmento 3 a ecologia é uma disciplina plenamente biológica, mesmo que vasta. O segmento 3 também mostra o conflito de definições e a defesa deste autor quanto à competência biológica da ecologia. De fato, o ponto de vista de que a ecologia é uma disciplina biológica, ainda que com competência para compreender objetos sociais (e os abrange a partir de sua perspectiva biológica), é hegemônico entre os cientistas. Além disso, o segmento 3 deixa entrever um outro conflito que se expressa na própria definição do objeto natural da ecologia, ao qual voltarei a seguir.

Então, aqui temos exemplos de definições que associam ecologia a uma disciplina biológica, a uma ciência natural e a uma ciência mais do que natural também social. Mas há mais diversidade no que diz respeito ao entendimento da ecologia como ciência. Vejamos a seguinte passagem:

Meanwhile in psychology, Gibson has proposed an "ecological theory of perception" which makes information central, (...) In the cases above, ecological value and amounts of information matched nicely and this might suggest that ecological epistemology could be pursued entirely in terms of information maximization (Grandy, 1987: 197).

O que pode tornar uma teoria da percepção particularmente ecológica? Vemos que a ecologia aqui diz respeito ao instrumento para descrever fenômenos relativos a informação. Aqui a ecologia está muito próxima à cibernética e à teoria da informação, fontes de tantos modelos, analogias e metáforas nas teorias "biológicas" da ecologia(3). Algo mais ou menos semelhante pode ser observado num texto de Bateson em que ele justifica sua ecologia das idéias em função da natureza "ecológica" das questões abordadas:

How do ideas interact? (...) What are the necessary conditions for (or survival) of such a system or subsystem? (Bateson, 1972: 494).

É possível inferir que a concepção subjacente de ecologia aqui é a de urna ciência dos sistemas. A ecologia, despida de seu estofo biológico, natural ou mesmo social adquire aqui o status de uma referência teórica geral, um sistema filosófico - é a universalidade sem limite.

Há também concepções da ecologia como ciência das interações de qualquer objeto com seu ambiente, o que permite construir diversos novos domínios(4).

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(*) Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da Universidade de São Pauio.

(1) A análise destes discursos é sempre uma análise documental, pois é sempre possível referir os textos aos contextos institucionais que os compreendem; ver M. Pêcheux, Analyse Automatique du Discours (Paris, 1969).

(2) Refiro-me aqui a livros como os de F. Capra (Capra, 1986), ou o de G. Bateson (Bateson, 1972), que ficam entre o texto acadêmico e o texto de divulgação.

(3) Refiro-me aqui à estrutura teórica da ecologia de ecossistemas. Esta vertente é representada, por exemplo, por E. P. Odum, cujo segmento de texto é analisado aqui.

(4) Por exemplo, a proposta de Steward de se utilizar do conceito de ecologia para entender o efeito do ambiente sobre a cultura (Steward, 1955).

 
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