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Indígenas e Camponeses: Uma relação de conflitos
Regina de Toledo Sader



Bibliografia

Cícero Mendes dá mais importância aos índios em seus escritos. Figura interessante, é um ex-lavrador, antigo membro da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Imperatriz, possuía suas terras no Alto Pindaré. Na época da grande grilagem dessa área, que abrangeu Imperatriz, João Lisboa, Açailândia e Santa Inês, perdeu tudo. Descendente de uma das poucas famílias antigas que ainda permanecem na área, escreveu seu livro numa linguagem simples, quase coloquial. Este me interessou particularmente pela visão que se pode obter do que significam e significaram os índios para boa parte dos habitantes da área.

Logo nas primeiras páginas, Cícero Mendes refere-se aos indígenas como uma das pragas que os primeiros ocupantes tiveram de enfrentar:

"(quero falar) o nome dos heróis sertanejos do século passado, que sofreram muito para nos fazer felizes, enfrentando a luta com índios que foi muito longa e as onças, e também a febre e as cobras, o reumatismo crônico. (...) E aí para chegar ao último tabuleiro, em rumo noroeste da margem esquerda do Rio Pindaré, a três léguas mais ou menos, os fazendeiros chamavam de Centro da Aldeia, pois tinha uma aldeia que eles calculavam trinta mil índios mais ou menos da tribo dos Gaviões. Estes viviam dando prejuízo aos fazendeiros, pois comiam todos os gados que por descuido dos donatários chegavam até lá (...)".

É evidente que o número de indígenas está exagerado, mas isso talvez seja importante para ressaltar ainda mais a grandeza dos "heróis sertanejos", cujo gado invadia a terra dos índios, causando prejuízo primeiro a estes, que revidavam comendo as reses. Isso significa que os "donatários" começavam o avanço inexorável sobre as terras ocupadas pelos índios.

Para o autor, que assimila os indígenas às características do quadro natural, e os considera fonte de prejuízo, são heróis que reverenciam aqueles que começam o extermínio e a escravidão:

"Teodoro sonhava com a fundação de uma cidade e de uma fazenda, e como há pouco tinha se casado, resolveu ir atacar os silvícolas. Mas como? Foi então que ele se lembrou de Passondas de Carvalho, que era muito destemido, tanto na caça aos índios, como nos trabalhos de geografia, tinha uma copiosa inteligência, dedicava-se bastante nas divisões das fazendas e suas documentações. A luta continuou pela conquista. O Brejeiro tinha sete cães afanados na caça de índios e a luta se foi estendendo heroicamente, sendo que outros homens notáveis tomaram parte (...)".

A luta pelo espaço aparece evidente nesse universo camponês do qual faz parte Cícero. Teodorico havia se casado "há pouco" e atacou os índios porque necessitava ter terras onde pudesse criar seu gado e fazer sua roça. E faz apelo a seus amigos. Uma frase utilizada nessa passagem ilustra o problema da luta, se não a travada no século passado, pelo menos a vivida pelo próprio autor: Passondas dedicava-se às divisões de fazendas e à sua documentação. E Cícero Mendes perdeu suas terras, que lhe haviam sido cedidas, conforme disse em entrevista, pela família Milhomem, que até a abertura da Belém-Brasília fazia parte da elite dominante local. Mas, por não Ter documentação sobre as mesmas, perdeu-as quando começam as grandes grilagens.

Mas vejamos como nosso autor continua sua descrição sobre a luta contra os índios:

"Em fevereiro de 1901 os índios foram convidados para ajudar no massacre do Alto Alegre; mas foi estranha a cena, pois os selvagens desapareceram misteriosamente sem deixar nenhum vestígio. No dia 13 de março de 1901 eles reapareceram lá, onde mataram 4 padres, 7 freiras e todos os assistentes que havia na missa. Terminada a horrorosa cena, eles não voltaram mais para o Canto da Aldeia (...) e para mostrar suas artimanhas, cortaram todos os postes da linha telegráfica que ligava a fronteira do nosso sertão com o Engenho Central, hoje Pindaré-Mirim, e que tinha sua última estação num lugar denominado Presídio. Este nome foi dado porque, quando eles prendiam alguns índios, eram trazidos até ali para certificar suas características (...)".

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