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Artigos
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As Felizes Culpas do Ocidente por Dario Sabbatucci |
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A
salvação da natureza Para
não nos deixar envolver desde o início por conteúdos
político-ideológicos que, se assumidos em função
de nosso encaminhamento, desviariam a nossa atenção do problema
real, tentaremos reduzir a mensagem indigenista dos índios à
ecologia. No fundo, o tema ecológico é nela recorrente e
vemo-lo formulado em toda a sua extensão na assembléia de
Genebra do ano passado: "A Filosofia Indígena e a Terra". Quase
a dizer: quem mais que nós, "povos da natureza" (Naturvölker,
como os definia tempo atrás a etnologia alemã), pode erigir-se
em defensor da mesma natureza?
A ecologia foi antes um ramo da biologia que estudava a relação
entre os organismos vivos e o ambiente. O nome desta disciplina biológica
foi dado por E. Haeckel em 1866. No começo do nosso século,
encontrou aplicação prática na agronomia, especialmente
nos EUA. Nos anos 1950, começando pelos EUA, tornou-se uma ciência
autônoma, analítica e experimental. Paralelamente, sempre
nos anos 50, e devido à iniciativa dos Estados Unidos, esta "ciência
moderna" transformou-se em uma "ciência em moda". Graças
à ação da mídia, divulgaram-na como valor,
e não como uma problemática científica, mantida evidentemente
inacessível aos profanos. Dela distorceram objetivos e finalidades.
Transformaram-na em uma espécie de cruzada em defesa da natureza.
Assim, na linguagem comum, o termo ecologia tornou-se sinônimo de
"defesa da natureza". A
substituição dos problemas ecológicos pelos valores
ecológicos criou um movimento ético-fílosófico
(quase religioso) ao qual poderíamos dar o nome de "ecologismo".
É um movimento que encontrou dois canais de difusão que,
convencionalmente, chamaremos "marxista" e "tradicionalista". O
ecologismo marxista tem a ver com Marx de forma totalmente indireta. Serve-se
da análise de Marx sobre as sociedades humanas abstraindo-a do
contexto sociológico e projetando-a na consideração
da relação homem-natureza (ou entre cultura e natureza).
Neste caminho, acaba por individualizar substancialmente a "exploração"
da natureza pelo homem, que vem equiparada eticamente à exploração
do homem pelo homem. Naturalmente, nesta equiparação existe
alguma coisa que não funciona: lá onde na análise
de Marx o sujeito e o objeto da exploração são humanos,
na proposição ecológica o sujeito é humano
e o objeto é extra-humano (sobre-humano? divino?). Remedia-se,
então, contaminando dois sistemas intelectivos, aquele que se refere
à contraposição homem/natureza, do qual partiram
os ecologistas, e aquele que nasce da contraposição cultura/natureza.
Dessa maneira, inventa-se ou reinventa-se o "homem natural" (o Naturmensch
dos etnólogos alemães), e ele é tomado como objeto
de exploração por parte do "homem cultural" (o Kulturmensch,
o "civilizado", que os etnólogos alemães contrapunham
ao "incivil" Naturmensch). Com esta operação
recupera-se "a exploração do homem pelo homem" e ele é
ainda enquadrado no esquema político do anticolonialismo e do antiimperialismo:
o Kulturmensch é o europeu colonialista e o Naturmensch
é o indígena explorado pelo europeu colonialista;
tal identificação do Kulturmensch, afinal, vinha
da etnologia alemã, que de fato não contra unha uma cultura,
a européia, a outras culturas, mas como a cultura, que se contrapunha
à natureza(3). Essas
teses do ecologismo marxista aparecem pontualmente nos discursos dos expoentes
do neo-independentismo indígena; não só as assimilaram,
mas tomaram também consciência de que, com elas, poderiam
insinuar-se na intelligencija mundial e adquirir uma credibilidade
política dificilmente alcançável por outro caminho.
Não foi por isso, porém, que renunciaram a um outro caminho,
sempre ficando na brecha aberta pelo ecologismo: trata-se do canal de
difusão que chamamos "tradicionalista". O
canal tradicionalista é aquele que reduz o ecologismo nos termos
de um objetivo político-filosófico-religio, que é
comumente conhecido com o nome de "tradicionalismo". É um objetivo
não facilmente alcançável como o marxista. Genericamente,
em nível da prática política, vem caracterizado como
reacionário de direita, em contraposição a uma esquerda
revolucionária, mas suas teses circulam de várias formas
também nos ambientes e partidos da esquerda progressista. Mais
indicativo, pelo menos do ponto de vista histórico, é o
vínculo deste com o romantismo. Podemos até dizer que se
trata de um romantismo atualizado. A atualização é
dada por uma espécie de mimetização que pela postura
torna dificilmente localizável o objetivo tradicionalista, nos
termos do atual alinhamento político, além das suas raízes
românticas. Apenas a título de orientação,
e sempre com uma finalidade de redução de cada coisa à
mensagem neo-indianista, apontaremos dois esquemas fundamentais de análise. O
problema da relação entre o homem e o seu ambiente, isto
é, o problema ecológico, que se tornou primário
no ecologismo, foi singularmente colocado e resolvido pelo romantismo
nos termos de uma "alma nacional", que junta, espiritualmente, um território
e os seus habitantes. Daí derivara tanto o nacionalismo como movimento
político, quanto o estudo do folclore como movimento seja científico
seja literário. Hoje temos também um folclorismo político
que, nos partidos de esquerda, ocupa o lugar do nacionalismo, este relegado
aos partidos de direita. Ainda que isto não apareça de forma
explícita na teoria e prática do Ocidente, tendo sido reservado,
eventualmente, aos povos emergentes do terceiro mundo. Isto, a passagem
do Ocidente para o Terceiro Mundo, pode de fato ser visto nos termos de
uma passagem do folclorismo ao nacionalismo: no Ocidente, distingue-se,
com o instrumento das tradições populares, a cultura dos
oprimidos (cultura subalterna), daquela dos opressores (cultura hegemônica);
o nacionalismo assimilado pelos países do Terceiro Mundo, contemporaneamente,
é assumido nos termos de uma justa revolta das culturas indígenas
(= dos povos oprimidos) contra a cultura dos opressores ocidentais. Trata-se,
em suma, do resgate das "almas nacionais" que "espiritualmente" ligam
determinados povos aos territórios dos próprios "pais".
Para traduzir esta proposição romântica na linguagem
indigenista que nos propuseram os profetas neo-indígenas: os "espíritos"
(da terra e dos antepassados) guiam e inspiram as atividades antiocidentais
dos indígenas autóctones. O
segundo esquema de análise parte da consideração
do romantismo como expressão alemã de uma recusa da Revolução
Francesa. Tal linha reacionária explicitou-se tipicamente na própria
França, na época da restauração, com pensadores,
como J. de Maistre, L. G. A. Bonald e R. Chateaubriand, aos quais faz-se
remontar a formulação do tradicionalismo histórico.
Hoje, a partir destes pressupostos, o tradicionalismo se apresenta como
um movimento de procura do modelo cultural a ser contraposto ao mundo
moderno; e trata-se, naturalmente, de um modelo cultural baseado na revivescência
de ideologias, costumes, visões do mundo variadamente transmitidas
através de um passado "paradisíaco" (o "paraíso perdido").
Dentro desta linha de idéias insere-se perfeitamente a cruzada
ecologista pela restauração de um "paraíso perdido",
e inserem-se perfeitamente as nostalgias do "paraíso perdido" que
levam ao resgate os profetas do neo-indianismo. Retomamos
o nosso discurso: das duas vertentes ecologistas (a marxista e a tradicionalista)
os nossos profetas tomam a mancheias. Mas atenção: afirmando
isto não diminuo nem a personalidade deles, nem a qualidade das
suas mensagens, nem a dignidade de sua luta; pelo contrário, reduzo-os,
a produtos daquela mesma cultura ocidental que eles contestam. Essa
operação deveria servir: para conhecer melhor a mesma cultura
ocidental objeto da contestação; para fornecer novos elementos
de juízo a todos quantos se interessam, a qualquer título,
pelos novíssimos movimentos indigenistas dos próprios índios;
para impedir a distorção paracientífica - quaisquer
que sejam as finalidades disso - das elaborações das ciências
ocidentais, como parece que aconteceu com a ecologia transformada em ecologismo
salvador. Inventar, em nome da ecologia, uma condição natural
qualquer, para ser contraposta à condição determinada
pela cultura ocidental é, pelo visto, uma "mistificação
literária", típica da mesma cultura ocidental. Digo "mistificação
literária", porque evoca os Poemas de Ossian, aquela
mistificação que conseguiu tanto sucesso entre os românticos
de toda a Europa, respondendo plenamente ao gosto da época. Agora
a questão é: que parte têm os índios nesta
mistificação? E como ela responde aos gostos de nossa época? Os
índios sonham com uma volta ao tempo no qual a pradaria era cheia
de bisões, cuja caça bastava para supriras suas necessidades.
Os ecologistas ajudam-nos a sonhar, asseverando que aquela era a "condição
natural" do continente norte-americano; convidam-nos a reestabelecê-la
promovendo a volta dos bisões, e esta promoção torna-se
um elemento recorrente nos programas neo-independentistas. Descuida-se,
por outro lado, de qualquer aprofundamento científico contrastante
com o juízo de valor expresso acerca da pressuposta condição
natural; por exemplo, o fato de que o equilíbrio ecológico
da América Setentrional tenha sido perturbado pelos próprios
bisões antes que pelo homem, pois que se deve a eles a formação
da pradaria, um ecossistema diferente daquele que antecedeu o aparecimento
e a difusão do bisão. Definir como "natural" uma condição,
somente porque retida como ótima pelos índios e pelos ecologistas,
é com certeza arbitrário; mas pouco importaria o arbítrio
se ele não reduzisse os índios a "caçadores de bisões"
e não gratificasse os ecologistas com uma paisagem romântica
(pradaria + bisões + índios) a ser consumida nos week-ends.
Quero dizer que, nesta direção, a relação
entre o homem e o seu ambiente viria a ser resolvida com a transformação
do homem-índio em elemento da paisagem. Trata-se,
enfim, da mesma orientação que a ONU-UNESCO tomou depois
da contestação global e da revolução cultural
da memória de 1968, quando proclamou 1970 o "ano ecológico".
É a orientação que tem levado hoje a discutir no
Palácio das Nações o tema "Os povos indígenas
e a Terra". Esta associação entre os índios e a Terra
constitui uma maneira totalmente nova de repropor os "povos da natureza",
os Naturvölker, que há um tempo vinham contrapostos
aos Kulturvölker, como o selvagem ao civilizado e, amiúde,
como o animal ao homem. Agora, vista a estrita associação
deles com a Terra, estes "homens da natureza" (Naturmenschen) arriscam-se
a passar do reino animal para o reino vegetal, se não, de todo,
ao reino mineral. Pelo visto, como se dizia acima, arriscam-se a se tornar
parte integrante da paisagem. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (3)
De tudo isso nós nos podemos servir mesmo para passar da teoria
à práxis política: a cultura que "explora" a natureza
é a ocidental; o termo "ocidental", na linguagem corrente, indica
politicamente as democracias liberais em contraposição às
democracias socialistas; com isso torna-se funcional também a limitação
do "ocidental" realizada na terminologia política: uma argumentação
a mais contra a América na polêmica EUA-URSS. |
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