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Artigos
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O Sonho Indiano: uma metáfora iniciática na literatura de viagem dos séculos XV e XVI por Adone Agnolin |
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Um
dos elementos fundamentais do sonho indiano tinha sido de fato a riqueza,
sonho que vinha ao encontro das exigências da nascente burguesia
européia. A expansão comercial teria assim constituído
o substrato infra-estrutural destas projeções oníricas.
A história específica da cultura européia continua
entregando à memória uma importante função
cultural, desencadeando contudo uma nova dinâmica cultural que vai
constituindo um processo de produção das visões paradisíacas
e infernais de um Novo Mundo que assumia uma função purgadora
(Mello e Souza, 1987), por meio da viagem através desta 'geografia
moral', que procurava garantir a salvação quase como uma
ressurreição iniciática. Por
outro lado, o sonho indiano era caracterizado pela exuberância fantástica
e monstruosa da natureza, dos homens, dos animais. Para o homem europeu,
este aspecto teria constituído num primeiro momento a compensação
do próprio mundo pobre e limitado, e sucessivamente o fascínio
da diferença: canibalismo, nudez, liberdade sexual, ócio,
poligamia, incesto. Estes prodígios "só se preservaram na
índia e particularmente na Etiópia, que continuaram a ser
os dois viveiros de todas as maravilhas, sobretudo enquanto não
se descobriu o novo continente" (Holanda, 1969: 198). Todas essas imagens
se encontram de forma evidente também nos primeiros relatos de
viagem pela América, em que só se reconhecem pequenas e
graduais modificações. Com
certeza na Idade Média não se reconhecem rígidas
barreiras "entre a literatura científica ou didática e a
literatura de fantasia" (Le Goff, 1970: 256). Contra a constituição
de uma mensuração concreta do espaço conhecido, deve
ter tido uma função decisiva também uma geografia
interessada mais em repartir o cosmo segundo uma organização
qualitativa do espaço, orientando-o entre alto e baixo, céu
e terra, paraíso e inferno. Na
Idade Média ocidental, portanto, afirmou-se uma "geografia do Além"(4),
e não desse mundo. Afinal, este mundo, em cima do qual adejava
a espera do caelum novum e da terra nova, desenhados pela
geografia escatológica agostiniana (Santo Agostinho, A Cidade
de Deus, 20.16), era destinado a desaparecer com o fim dos tempos.
Este horizonte conceitual permitia conceber o mundo só de duas
formas, "aliter in peccatoribus, aliter in sanctis"(5).
Portanto, para a definição do espaço terrestre,
reservado ao exercitium hominis, podia ainda ser suficiente uma
geografia herdada pela latinidade tardia, quando a articulação
vertical do universo não tinha então assumido uma forma
definitiva. Para
o homem da Idade Média, portanto, cada lugar e espaço do
mundo conhecido (e desconhecido) superava assim a própria dimensão
física para tornar-se parte de um complexo sistema simbólico
e evocar realidades e dimensões de ordem metafísica: a Terra
e até as próprias ilhas tornavam-se imagem da Igreja e das
Escrituras, como dos inimigos delas e da depravação humana.
A história não podia ser separada da alegoria. Cada geografia
era então reconduzida à autoridade cosmológica das
Escrituras, na ausência de uma clara delimitação entre
literatura científica e produtos do imaginário. Levado
a se reconsiderar, por causa das progressivas deslocações
dos confins, o mundo antigo tinha assistido a uma rápida dilatação
dos espaços e a uma verificação da própria
identidade diante das novas culturas com as quais se encontrava. Numa
obsessiva procura de certezas, ele via proliferar as mais diferentes viagens.
A ordem cósmica sancionada pelas divindades tradicionais ia se
desagregando para se recompor num caótico cosmo povoado por fantasmas
e démoni entre a terra e o céu, por monstros ameaçadores
nos limites extremos das terras conhecidas. A crise que o mundo antigo
atravessa investe também a visão do universo. Ultrapassar
os confins equivale a superar a "medida" que a cultura grega clássica
tinha estabelecido como limite próprio do homem. Da
mesma forma, a sociedade européia dos séculos XV e XVI,
entre a reiteração de modelos geográfico-cosmológicos
da Idade Média e a reestruturação da nova realidade
geográfica e cultural, começa a delinear, não sem
contradições e arquétipos tradicionais, a nova visão
do universo. A
índia Ocidental a
conexão com a "margem" A
época das descobertas é caracterizada por uma forte integração
religiosa: o descobridor da América pensava de fato na possibilidade
de utilizar o ouro americano numa eventual "Cruzada" contra o "Infiel".
Esta religiosidade mostra-se de forma evidente lá onde Colombo
assume as características daquele que realizava a profecia, subtraindo-se
à atitude empirista de quem procura conhecer, e subordinando-se,
pelo contrário, ao argumento de autoridade que repousa sobre verdades
preestabelecidas. A mesma descoberta representa, então, a realização
da vontade divina preanunciada pelas profecias. É assim que, trazendo
consigo a bagagem conceitual própria do Ocidente, e aplicando-a
ao novo âmbito cultural, ele determina, exemplarmente, o comportamento
próprio de navegantes, conquistadores, missionários e colonizadores
que o seguirão. Sendo assim, os diários nos propõem
de fato relatos de viagem que, se por um lado prestam atenção
à narração exemplar de Marco Polo, por outro parecem
apresentar a empresa inaudita da mesma maneira que aquela de Odisseu.
Da mesma forma, então, Colombo determinava a fundação
de um universo cultural que condicionou por muito tempo o Ocidente. Via
os habitantes das Grandes Antilhas como "necessitados de tudo". Mas com
o fato de reconhecer aos índios uma humanidade suscetível
de civilização, tanto mais urgente quanto mais eram carentes
de bens culturais por um lado, ou submissos a uma civilização
distorcida por outro, o europeu era chamado a uma obra de "recuperação
cultural" do selvagem. "Ao contrário, os bens de que necessitam
os europeus, e que Colombo irá pedir de modo insistente no momento
em que tenta estabelecer uma relação com os índios,
são bens igualmente preciosos, mas são bens naturais: pérolas,
ouro, prata etc." (Mazzoleni, 1986: 73). Além da conotação
defectiva, emerge, porém, a possibilidade daquela relação
de troca, fundamental à economia mercantil européia. A exaltação
da natureza americana na obra de Colombo se contrapõe ao não
reconhecimento dos bens culturais indígenas. Esta relação,
"que irá agir com reciproca vantagem das partes, concretiza-se,
portanto, em uma troca de bens culturais contra bens naturais. Os ameríndios,
cedendo os bens de que a Europa tem tanta necessidade, obterão
em troca uma progressiva promoção cultural e a integração
política" (id., ibid.). Mas
outra atitude exemplar, que contaminará a sucessiva literatura
de viagem, é representada pelo mito do "bom selvagem" (os tainos)
em contraposição ao selvagem mau (os bárbaros e não
humanos Caribi). Esta contraposição reclama para
Colombo e para a própria Europa a função de proteger
o primeiro, mesmo vivendo antes ou fora da cultura. É este "bom
selvagem" que trará para a cena o mito do Paraíso Terrestre
perdido (pelos europeus), em contraposição aos Caribi
(depois Caniba), que através de uma cultura falsa renovam os
esquemas de uma humanidade pré-cósmica. Seja os "bons" tainos,
como os "não humanos" Caribi, ambos são colocados,
pela cultura européia da época, fora das próprias
condições históricas concretas. Evidencia-se uma
ruptura entre a cultura européia e a cultura, com signo negativo,
das novas povoações encontradas. Segundo o historicismo
de Lanternari, não existe possibilidade de separação
entre o mundo dos assim chamados povos "primitivos" e o mundo convencionalmente
conhecido como "histórico", seja este "antigo" ou "moderno". Assume
um significado, para nós particular, o fato de que estes povos
"primitivos" constituem-se como "... um espelho, no qual o homem contemporâneo
reconhece os limites particulares dentro dos quais é estruturada
a nossa civilização (...) isto denuncia as insuficiências
e as contradições próprias da nossa cultura, à
luz de mundos culturais novos" (Lanternari, 1977: 10). Portanto,
a análise das imagens que esses povos foram assumindo no Ocidente
nos revela as exigências próprias da cultura ocidental que
as sustentam e que contribuem para a construção da "alteridade
indígena". Partindo
desses pressupostos, podemos, então, constatar como a história
das descobertas marítimas portuguesas coliga-se às manifestações
próprias da cultura dos séculos XIII e XIV, abrindo-se às
tendências culturais próprias do Humanismo europeu que se
estrutura a partir da segunda metade do século XV. Elementos tipicamente
econômicos e políticos aliavam-se ao espírito religioso
da época na tentativa de rodear o problema colocado pela presença
dos Infiéis, das expedições cruzadas contra eles,
e na fremente necessidade da propagação da fé católica. Assim
Caminha, depois de ter verificado que a gente encontrada nesta "terceira
margem" do Oceano era muito semelhante a ele(6),
e portanto não era infiel, demonstra como o velho espírito
das Cruzadas pode ser definitivamente substituído pelo novo Humanismo.
A instância da propagação da fé católica,
a "verdadeira fé", torna-se prioritária(7). Pero Vaz de Caminha é o grande exemplo da continuidade da cultura religiosa, um típico representante do Humanismo cultural do século XV. A Carta do primeiro cronista do Brasil é testemunha de um verdadeiro espírito religioso cristão, aberto ao conhecimento do outro, dentro dos limites próprios da época. O limite próprio deste conhecimento-abertura em favor do outro resulta bem evidente lá onde o autor ressalta que "pareceme jemte de tal jnocencia que se os home emtendese a eles a nos, que seriam logo cristaãos porque eles nõ teem nem emtendem em nhuua creemça segundo parece. E por tamto se os degredados que aqui am de ficar, aprenderem bem a sua fala e os emtenderem, nom dovjdo segundo a santa tençam de vossa alteza fazerem-se cristaãos e creerem na nossa samta fe, aa qual praza a nosso S. or que os traga, porque certo esta jemte he boa e de boa sijnprezidade (...) e por tanto vossa alteza pois tamto deseja acrecentar na santa fe catolica, deve emtender em sua salvaçam e prazera a Deus que com pouco trabalho sera asy"(8). Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (4)
Interessada mais em uma topografia do imaginário que numa topografia
concreta. |
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