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O Sonho Indiano: uma metáfora iniciática na literatura de viagem dos séculos XV e XVI
por Adone Agnolin



Abstract - Bibliografia

Exemplar nessa perspectiva é a descrição feita por Alvar Núñez Cabeza de Vaca da sua desventurada expedição na Flórida, iniciada no ano 1527 (Cabeza de Vaca, 1989). No naufrágio, os homens da frota aparecem como a própria imagem da morte, inconsciente emblematização da "passagem", da "transição". E é a nudez dos náufragos, à qual Cabeza de Vaca volta amiúde, que os torna como recém-nascidos na nova realidade: através do sofrimento e da morte, a nudez torna-se o signo distintivo de uma nova vida.

É interessante depois observar como os índios também interpretaram a vicissitude desses homens. Viram ser trazidos pelo mar seres diferentes e tomados pela doença e, colocando estes fatos dentro de um acontecimento "iniciático" de sofrimento, morte e ressurreição, permitiram a eles o acesso, na cultura indígena, à condição de xamãs.

Mas a metafórica vicissitude iniciática de Cabeza de Vaca se repropõe, e fala, através da reaproximação à cultura européia. É aqui que, em oposição à nudez que o tinha caracterizado durante sete anos, a Roupa torna-se o signo distintivo da própria cultura; assim: "Chegados a Compostela, o governador nos reservou um caloroso acolhimento e nos ofereceu quanto possuía para nos vestir. Mas eu, por muitos dias, não pude vestir aqueles vestidos, nem dormir a não ser no chão" (Cabeza de Vaca, 1989: 122).

Uma vez tendo perdido, junto com a Roupa, a própria identidade cultural ocidental, Cabeza de Vaca tinha sido iniciado em uma nova cultura, modelo opositivo àquele do Ocidente. Esta segregação, dirigida por um contexto diferente daquele "normal", restituiu-o à própria realidade de pertinência através de outro importante signo, distintivo da sua cultura ocidental: a escrita. Esta técnica, porém, modificava radicalmente o poder e os limites espaço-temporais próprios do ritual iniciático. O respeito aos tabus é quebrado e a incursão no novo espaço geográfico não nos oferece mais um espaço revelado, mas profanado. Desta forma, "perdida cada relação direta ou indireta com o rito, o conto se faz ele mesmo rito no momento em que permuta o descobrimento dos sacra e do segredo com o desmascaramento das lógicas coercitivas e impessoais que dominam a vida social e subtraem a identidade ao homem; ou torna-se narração consolatória, que porém não funda de jeito nenhum a realidade..." (Scarpi, 1992: 183). Nesta nova dimensão cultural, só a técnica da escrita parece de qualquer forma poder garantir um reconhecimento dos produtos culturais daqueles povos que, encaminhados na direção de uma violenta crise de desintegração, serão destinados a tornar-se um objeto de consumo ocidental e, só como tais, reconhecidos (Lanternari, 1974: 27-55). O serviço de Cabeza de Vaca à cultura ocidental torna-se assim maior do que ele mesmo pensara ao dirigir a Carlos V a súplica de acolher a narração "... como meu serviço, porque é o único bem que pôde trazer consigo um homem escapado nu a uma triste sorte" (Cabeza de Vaca, 1989: 4).

Abstract: This article tries to analyse a specific relation between Travel Narratives and the construction of the New World reality. By XV and XVI centuries, travellers entered a conceptual universe that suggests an "iniciatic metaphor" to its analysis, or to explicit common and different characteristics among Travel Narratives and iniciation rites by means of privileged rites control instruments, knowledge and representations. By this way, travel narrative configure a moment of reintegration in the cultural space of the traveller and, in another, as a reinterpretations of his culture.

Key words: memory - history - imaginary - representation - alterity - travel narratives - passage rites

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