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O Sonho Indiano: uma metáfora iniciática na literatura de viagem dos séculos XV e XVI por Adone Agnolin(*) |
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Resumo:
Este
trabalho é uma tentativa de analisar a relação particular
que os relatos de viagem estabelecem na construção
de uma realidade específica: o Novo Mundo. O universo conceitual
em que os viajantes dos séculos XV e XVI estão mergulhados
sugere-nos, para sua análise, a adoção de
uma "metáfora iniciática". Trata-se de peculiaridades dos
relatos de viagem (com os próprios instrumentos "rituais" de controle,
além de conhecimento e de representação privilegiados)
e dos ritos iniciáticos. A narração da viagem parece
então se configurar, de um lado, como momento de reintegração
no espaço cultural de origem e, de outro, como momento de
reinterpretação de sua cultura. Palavras-chave:
memória - história - imaginário - representação
- alteridade - relatos de viagens - ritos de passagem A
descoberta do Novo Mundo constitui curiosamente um dos fatos históricos
mais importantes e, ao mesmo tempo, menos reconhecidos da história
do Ocidente saindo da Idade Média. Um espaço e um tempo
novos invadiam a cultura européia, desestruturando, simultânea
e imperceptivelmente, todo o sistema gnosiológico e cosmológico
medieval. Desestruturava-se aquela visão do cosmo que tinha tido
o próprio "centro" ideal em Roma ou, alternativamente, em Jerusalém,
e que tinha encontrado no Oceano Índico (sinus barbaricus ou
mare indicum) o próprio horizonte onírico privilegiado.
Tratava-se da mesma visão que, afastando-se idealmente da Europa
mediterrânea, encontrava inquietantes e ameaçadores monstra
(Le Goff, 1977: 243-63). Mas,
entre a segunda parte do século XV e o início do século
XVI, esta desestruturação é ainda imperceptível
e convive com muitos aspectos próprios da cultura medieval. Mesmo
assim, o início do desequilíbrio do sistema cosmológico
começa a encaminhar um processo de adaptação essencial
que vai constituindo um novo ordenamento do espaço. Do
ponto de vista histórico-religioso, trata-se de um processo cultural
em que se concretiza a consciência da desagregação
da visão do mundo dada, constituindo assim as premissas para se
experimentarem novas dimensões de operabilidade no mundo humano,
ou seja, novas hipóteses de valorização do mundo. A
incursão nos desconhecidos, às vezes hostis, espaços
do Oceano Índico antes e do Atlântico depois, começa
a revelar-se uma verdadeira vertigem da cultura européia, em parte
administrada e em parte exaltada por um gênero literário
que assume um destaque particular próprio entre os séculos
XV e XVI: os relatos de viagem. Reiterando amiúde a "velha" percepção
do cosmo medieval, essas relações começam a constituir
a reelaboração de um conhecimento, e de toda uma relação,
com a nova visão do mundo que começava a se destacar. Refundava-se
pouco a pouco toda a sensibilidade perceptiva, depois que se começava
a verificar a inadequação de algumas estruturas significativas
e funcionais do passado. Le
Goff demonstra como o homem da Idade Média, contrariamente aos
homens da Renascença, não sabia olhar. Nutrido de lendas
que julgava verdades, trazia consigo as próprias miragens, persuadido
de ter visto o que ele tinha apreendido (Le Goff, 1977: 257-68). Numa
época na qual o escutar, o sentir, constituía ainda a atitude
predominante com respeito ao ver, os olhos viam, antes de tudo, aquilo
que se ouvia, aquilo que tinha sido referido. Pouco a pouco, a evidência
das realidades geográficas descobertas entre os séculos
XV e XVI ia constituindo uma nova realidade cultural, destinada a desmitificar
os sonhos e as fantasias de um imaginário europeu, já milenário,
para abrir-se à nova época histórica da Renascença.
Contudo, este percurso não se apresenta sempre linear ou destituído
de importantes interconexões com a atitude cultural precedente. Se,
como é sabido, Colombo, impregnado da leitura do Livro das Maravilhas
de Marco Polo e pela Imago Mundi do Cardeal d'Ailly, via a Índia
na América, ele via para escrever narrações que,
por sua vez, teriam sido ouvidas. Assim, nele, o pensamento medieval aliava-se
às características do aventureiro intrépido de uma
nova era, aquela das navegações e das descobertas, da mesma
forma que o costume de ouvir aliava-se àquele de ver. Na
definição de Aristóteles, "devemos preferir um impossível
que seja verossímil a um possível que seja incrível"
(Aristóteles, Poética, 1460a25-7). Se juntarmos a
isso o maravilhoso e o irracional, com o movimento que conduz um homem
longe da sua terra (id., ibid., 1460a12-3; 1455b17) obtemos, o
esquema da viagem: trata-se, no fundo, do emblema mais significativo da
dialética cultural entre memória e história, no caso
específico, da relação entre o pensamento medieval
e a descoberta do Novo Mundo. Mesmo
representando-se como produto de uma herança cultural, a projeção
de um imaginário maravilhoso representa de fato uma mediação
cultural do homem diante de uma realidade desconhecida(1).
Esta mediação do maravilhoso, contudo, não se dá
fora de uma experiência concreta e de uma racionalização
do real: diríamos que quanto mais um mundo torna-se "outro", tanto
mais ele se manifesta numa mediação suspensa entre o imaginário
e o real. Uma realidade, por mais nova que seja, não pode nunca
se configurar como "alteridade" absoluta, mas sempre se nos oferece como
processo de interpretação do outro através de si
mesmo. Além
das coordenadas geográficas, da topografia e da toponímia,
no esforço de adequar um universo em perfeita sintonia com uma
realidade caracterizada pelo imperativo econômico, existem em cada
viagem também outras coordenadas que respondem a uma relação
bem diferente com a realidade e que exprimem um universo conceitual do
qual os relatos de viagem nos dão conta. Esse
universo conceitual no qual os viajantes dos séculos XVI e XVII
se adentram nos sugere, para a sua análise, a adoção
de uma "metáfora iniciática". Trata-se de individualizar
as características comuns e as diferentes peculiaridades entre
os relatos de viagem (com os próprios instrumentos "rituais" de
controle, além de conhecimento e de representação,
privilegiados) e os ritos iniciáticos.
Do ponto de vista antropológico, de fato, as narrativas de viagem
nos aparecem como um verdadeiro e próprio "rito de passagem" do
próprio relator não tanto, ou não exclusivamente,
na direção de uma realidade diferente, mas na direção
da comunidade que ele tinha deixado, ao partir(2).
Com relação a isto, diríamos que o maravilhoso, ligado
indissoluvelmente às narrativas, "revela mais sobre a ideologia
que o engendra e consome do que sobre a realidade que declara reproduzir"
(Giucci, 1992: 16). A
narração da viagem parece então se configurar, de
um lado, como momento de reintegração no próprio
espaço cultural e, de outro, como momento de reinterpretação
da própria cultura. Depois da saída, da separação
e sobretudo depois da conexão com a margem, o "rito" transformou
não só o sujeito, mas principalmente o seu espaço
cultural originário. Neste aspecto vemos o afastamento mais significativo
do esquema iniciático. De
fato, ressaltamos que, enquanto na perspectiva tradicional é fundamentalmente
o drama mítico que estrutura a ordem do mundo, neste caso o ordenamento
é constituído por um pré-ordenamento fortemente condicionado
(i. é., interpretado) por uma nova ordem que constitui a alternativa
ao presente histórico. O mito perde o seu poder exclusivamente
paradigmático em relação ao presente, para assumir,
de forma complementar e interpretativa, também a característica
de uma perspectiva escatológica. Assim,
em contraposição ao rito que tem uma dinâmica própria
dentro da qual acontecem as mudanças, parece "se concretizar a
tomada de consciência da não atualidade, da desagregação
da visão do mundo dada e (...) criam- se as premissas para experimentar
novas dimensões da operabilidade no mundo humano, novas hipóteses
de valorização do mundo" (Massenzio, 1980: 151). O afastamento
do esquema iniciático das relações de viagem está,
portanto, na reviravolta da dialética mito/história colocada
numa nova relação com as categorias culturais de caos/ordem. Se,
de fato, o rito iniciático se caracteriza pela exigência
de transformar o jovem num membro efetivo da comunidade - para fazê-lo
conforme a "norma" comunitária através de uma segregação,
realizada num contexto diferente daquele normal -, o objetivo não
é somente providenciar "a perpetuação da própria
existência", mas sobretudo defender "a própria civilização,
isto é, as próprias tradições, a própria
linha de conduta: através das iniciações, a
sociedade perpetua-se, regenera-se, tal e qual ela quer ser" (Brelich,
1969: 24). Nos relatos de viagem, ao contrário, encontramos muitas
vezes uma crítica à sociedade (ocidental) que os viajantes
deixaram, ao partir (sociedade que constitui amiúde a motivação
principal da viagem). Essa
crítica permite, às vezes, uma supervalorização
do mundo "selvagem" que, pouco a pouco, se descobre em todo o seu fascinante
exotismo, além de algumas depravações características.
Por fim, este percurso fecha-se com a reintegração no espaço
cultural originário, mas somente em favor da "vitalidade crônica"
de "um antimodelo que - oposto ao Ocidente - identifica suas peculiaridades"
(Mazzoleni, 1986: 219; idem, 1992). Tratar-se-ia enfim do constituir-se
de uma verdadeira e própria visão profética, qual
antecipação de uma futura dimensão da nova ordem,
seja como resgate à crise presente na sociedade ocidental, seja
na tentativa de orientar normativamente a necessidade de transcender à
mesma crise. O interesse para com o Novo Mundo, com as miragens de riquezas secretas, difundia-se nos reinos da Europa Ocidental e trazia, nos novos e ilimitados territórios, grupos de pouco prováveis civilizadores. Quando ainda as "Colunas de Hércules" representavam um confim intransponível, o único caminho percorrível pelo homem conduzia às índias, que tinham sido o objetivo da viagem de Colombo. Mas estes territórios, também depois de Le Divisament dou Monde de Marco Polo, permanecem por longo tempo interditados ao homem ocidental. Este universo continua alimentando as fantasias oníricas da Idade Média. A sua configuração, mesmo cartográfica, se desenvolverá, aliás, paralelamente à descoberta e descrição do Novo Mundo. O espaço concedido ao homem ao longo de toda a Idade Média limita-se a um espaço além do qual encontra-se o Anticristo; os povos que "vivem aos quatro cantos da terra", Gog e Magog; e "ferocissimae gentes", que "alimentam-se de carne humana ou de animais crus"(3). Paradoxalmente entretanto, neste mesmo espaço, deposita-se (e este espaço alimenta) a esperança de encontrar o acesso ao paraíso terreno. Característica importante esta, que já se vinha delineando nessas narrativas de via em, lá onde entrevemos o estabelecimento de relações necessárias entre a função dos relatos e o consolidar-se do mito do Paraíso Terrestre nos séculos XV e XVI. Próxima Página • Última Página (*)
Laurea em Filosofia e pesquisador em História das Religiões
na Universidade de Pádua, Itália. Doutorando em Sociologia
da Universidade de São Paulo. Pesquisador do Núcleo Interdisciplinar
do Imaginário e Memória - NIME-USP. Quero agradecer pela
revisão da minha tradução à Profa. M. de Lourdes
Beldi de Alcântara, à Profa. Sheila Maria Doula e ao Prof.
Mário Yasuo Kikuchi. |
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