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Matraga, seu pai, seu filho
por Renato da Silva Queiroz



Abstract - Bibliografia

O encontro com o bando do famigerado "seu" Joãozinho Bem-Bem - "o arranca-toco, o treme-treme, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tiraprosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa" - concede a Matraga a oportunidade da vingança, o retorno ao mundo de origem. Mas, se assim fosse, a passagem não se completaria, pois a reintegração o situaria em idêntica posição, no mesmo status de onde fora apartado por força do rito de separação. É preciso passar para permanecer: um transitante que retorna à condição de origem não cumpre a passagem, correndo o risco, portanto, de se ver eternamente mergulhado no limbo da marginalização. Como se disso tivesse plena consciência, é o próprio Matraga quem considera: " 'Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém não me faz virar e nem andar de fasto!' ".

E Matraga, determinado que estava a ir para o céu nem que fosse a porrete, abdicou da sedutora idéia da vingança. Mas nem por isso deixou de desfrutar do convívio efêmero, porém gratificante, de "seu" Joãozinho Bem-Bem. O chefe do bando identificou em Matraga as marcas da vida antiga. " 'Ferrugem em bom ferro!' " - sentenciou, admirando as habilidades do nosso herói no manejo da arma de fogo. Eram, a rigor, dois iguais - "Nossos anjos da guarda combinaram", disse o líder do bando -, transitantes, errantes, perdidos nas trilhas do sertão. Sempre ciganeando, "seu" Joãozinho Bem-Bem não se lembrava sequer do seu lugar de nascimento: " 'Isso sim, que sou... Sou da beira do rio... Sei lá de onde é que sou ' ?' ".

Um belo dia Matraga achou por bem partir. Tal decisão lhe ocorre ao final da estação das chuvas - e a imagem de purificação assim criada é claríssima - , posto que já "estava madurinho de não ficar mais". Solitário, vagou pelos caminhos do sertão e chegou, finalmente, ao local concebido por Guimarães Rosa para servir de cenário ao rito de reagregação. O nome do lugar: arraial do Rala-Coco. O reencontro com "seu" Joãozinho Bem-Bem, a agitação do lugarejo, a execução iminente de um dos filhos de um velho (e a anunciada violação das suas filhas) a título de vingança pela morte de um jagunço do famigerado bando. O velho implora que o matem, mas que deixem em paz o restante da família. A recusa do chefe dos jagunços: " 'É a regra... Senão, até quem é mais que havia de querer obedecer a um homem que não vinga gente sua, morta de traição?... É a regra'". Matraga se compadece e defende o velho. Por fim, a luta.

Feridos mortalmente Matraga o "seu" Joãozinho Bem-Bem. Este último morre primeiro, e Matraga revela-se aos presentes (" 'Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas! '", entre os quais, por sinal, estava um "meio parente" - para bem marcar a restauração dos vínculos passados, reclamando assim o reconhecimento da antiga identidade. Mas Matraga não é mais simplesmente Matraga, e também não é mais Nhô Augusto: é homem novo, é Augusto Matraga, aquele que retorna ao mundo de onde havia sido apartado(8), exibindo, contudo, novas feições, revelando insuspeitado caráter.

A luta é o apropriado rito que, a um só tempo, reagrega e separa. Tem lugar "bem no centro do arraial, numa casa de fazendeiro". E a passagem, portanto, é dupla: a da fase de margem para a nova identidade, para o novo status na estrutura social dos seres viventes (num breve e derradeiro convívio com estes últimos) e, dessa nova condição, para o mundo dos mortos. Mas não um morto como outro qualquer. Um santo: " 'Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim...'", falou o velho.

" 'ó gostosura de fim-de-mundo!... '. "

Abstract: The article analyses a short story by João Guimarães Rosa, "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", approaching his main character's course of life from an anthropological viewpoint, with special emphasis on processes known as "rites de passage".

Key-words: "rites de passage" - Augusto Matraga - Guimarães Rosa -anthropological approach - liminarity

Referências Bibliográficas

CARVALHO FRANCO, M. S. "A Vontade Santa". In: Trans/form/ação: revista da FFCL de Assis. Assis, nº 2, 1977.

DA MATTA, R. Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.

DOUGLAS, M. Pureza e Perigo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

GUIMARÃES ROSA, J. Sagarana. São Paulo: Círculo do Livro, s./d.

NOGUEIRA GALVÃO, W. Mitológica Rosiana. São Paulo: Editora Ática, 1978.

TURNER, V. O Processo Ritual. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.

VAN GENNEP, A. Les Rites de Passage. Paris: Mouton and Maison des Sciences de L'Homme, 1969.

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(8) Segundo Mary Douglas, a santidade é a condição daqueles que são "postos à parte" (cf. Douglas, 1976).

 
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