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Matraga, seu pai, seu filho
por Renato da Silva Queiroz
(*)



Abstract - Bibliografia

Resumo: O artigo analisa um conto de João Guimarães Rosa, "A Hora e a Vez de Augusto Matraga", acompanhando a trajetória de seu principal personagem por meio de um enfoque antropológico, com destaque para os processos conhecidos como "ritos de passagem".

Palavras-chave: antropologia da literatura - ritos de passagem - liminaridade - ritos de transição

O conto "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" é o último de Sagarana, livro de João Guimarães Rosa que integra o rol dos clássicos da literatura brasileira(1). Sobre "A Hora e a Vez...", há pelo menos três ensaios produzidos por cientistas sociais que se viram seduzidos pela riqueza do conto.

Roberto Da Matta, por exemplo, apanhou-o pela ótica do antropólogo, destacando na análise certas dimensões básicas da cultura brasileira que fazem do herói um "renunciador", ao passo que célebres personagens da literatura universal (e o confronto estabelecido é com o Conde de Monte Cristo), ao contrário, preferiram caminhar pelas sendas da vingança. Já em "Matraga: Sua Marca", Walnice Nogueira Galvão persegue os significados dos brasões, das marcas dos predestinados. Por outro lado, é a salvação, mas aquela que se faz por meio da vontade, da obstinação, o tema eleito por Maria Sylvia de Carvalho Franco em "A Vontade Santa"(2).

Como já são três os ensaios referidos acima, também não resisto e faço minhas a vez e a hora para escrever mais um destes trabalhos, retomando aqui o tema dos ritos de passagem, isto é, as cerimônias que costumam nos acompanhar na passagem de uma condição a outra, de um mundo cósmico ou social a outro. Para ser mais preciso, "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" relata e ilustra, admiravelmente, todas as seqüências daqueles processos de transição que, desde Van Gennep, são conhecidos pelas três etapas em que se desenvolvem - rito de separação, período de margem, rito de reagregação (Van Gennep, 1969: 13-8).

No conto em apreço, Guimarães Rosa arquiteta uma dupla passagem: a reintegração do personagem central do conto ao próprio mundo dos vivos e, logo a seguir, a sua transição para o domínio dos mortos. Como se verá mais adiante, a trajetória de Augusto Matraga é bastante complexa. Dado por morto sem ter de fato morrido, foi preciso "renascer" para que o rito de separação, que aparta para sempre os falecidos dos seres viventes, pudesse ser convenientemente executado(3). Assim, o que conta nessas passagens não é propriamente o corpo, mas a identidade da pessoa, esta sim a verdadeira matéria de que se compõe o jogo das interações sociais.

Não é certo que, abrindo a narrativa, Guimarães Rosa fez de Nhô Augusto Esteves um homem abastado, dono de terras e senhor de jagunços? Não estava ele também formalmente casado(4), muito embora não fosse indiferente às prostitutas do "Beco do Sem-Ceroula"? E seu poder de homem inserido por cima na estrutura de sua comunidade não se manifesta até mesmo no impulsivo ato da compra de uma "mulher à-toa", arrematada "num leilão de atrás de igreja"?

Caberia aqui observar que tal transgressão não se restringe ao comportamento de Nhô Augusto, já que foram alguns outros homens presentes no sagrado leilão que colocaram a mulher à venda. Salta também aos olhos o apelido dado à mulher - "Sariema", nome de animal, de ave, traduzindo a reificação do gênero feminino, a mulher-prenda(5). E a transgressão cometida já prenuncia a tragédia, prefigurando o destino...

Chega a desgraça: a perda das terras, a fuga de Dionóra - a esposa, que carrega consigo a filha -, a traição dos jagunços, enfim, a miséria. Aproxima-se o momento dramático do primeiro rito de separação: sozinho, mas ainda senhor da intemp-rança, Nhô Augusto dirige-se a cavalo, como convém, aliás, àqueles de elevada posição, "teso para trás, rei na sela", aos domínios do Major Consilva, seu principal desafeto. Pancadas e ofensas o aguardam em terras do novo senhor dos seus jagunços. E é assim mesmo que se desenrola o rito. Ferido e depois marcado como se ferra um animal, Nhô Augusto, levado para ser morto no rancho do Barranco, pula para um abismo. Já perdera as posses, a família, os bate-paus e o próprio nome - " 'Não tem mais nenhum Nhô Augusto Esteves, das Pindaíbas, minha gente?!...'", indagou o Major Consilva. "E os cacundeiros, em coro: 'Não tem não! Tem mais não!...'. " Morto estava para o mundo em que desfrutara de identidade e posição social bem definidas.

Neste contexto, o abismo sugere a morte, mas também o útero. A topografia, metáfora da estrutura social, era uma "boca de brejo", e foi lá, recolhido e amparado por um mísero casal de pretos que residia num casebre "mal erguido e mal avistado, no meio das árvores, como um ninho de maranhões", que Nhô Augusto principiou sua vida de Matraga. A propósito, são notáveis as imagens empregadas por Guimarães Rosa: preto e morador de fundo-do-barranco, o casal sinaliza as inserções mais subalternas, o impreciso contorno das fímbrias do sistema social.

Imerso em profunda e prolongada liminaridade, dado como morto, Augusto Esteves troca de nome, muda o comportamento, subordina-se ao casal de pretos, humilha-se e se retempera por meio de trabalho árduo e extenuante. Já não bebe mais, não fuma, não se importa mais com a posse de bens e riquezas.

O Major Consilva declarara aberto o rito de separação - " 'Tempo do bem-bom se acabou, cachorro de Esteves!...'" -, mas é, o padre quem o completa. Chamado pelo casal de pretos para ouvir a confissão de Nhô Augusto, o sacerdote acaba por conduzi-lo não ao "outro mundo", mas ao limbo, universo da liminaridade, em que não se está verdadeiramente vivo nem morto. Nas palavras de Guimarães Rosa, "(...) era como se tivesse caído num fundo de abismo, em outro mundo distante".

Esse período de "margem" é vivido, portanto, longe do lugar de origem. Como se viu, as inversões aqui são múltiplas, e todas elas bem típicas daqueles momentos mais ou menos prolongados em que o transitante, tendo deixado a posição anteriormente ocupada na estrutura de seu grupo, não foi ainda reintegrado, não lhe sendo permitido, pois, assumir novo status na mesma estrutura.

Prolongado período de margem o de Matraga: seis ou seis anos e meio(6), enfiado num "Sitiozinho perdido no sertão mais longínquo", para onde se dirigiu, com o casal de "pretos tutelares", viajando sempre à noite, dormindo durante o dia. "E assim se deu que, lá no povoado do Tombador, (...) apareceu, um dia, um homem esquisito, que ninguém não podia entender. Mas todos gostaram logo dele, porque era meio doido e meio santo; e compreender deixaram para depois."

Esse tempo de penitência é marcado sobretudo pelo trabalho, desprendimento, abstinência sexual, rezas, generosidade, cordialidade, enfim, por tudo aquilo que caracteriza uma absoluta inversão com respeito à vida de Nhô Augusto(7). "O casal de pretos, que morava junto com ele, era quem mandava e desmandava na casa, não trabalhando um nada e vivendo no estadão."

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(*) Professor do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo.

(1) O exemplar de Sagarana utilizado é edição do Círculo do Livro, São Paulo, s./d. O conto se estende da página 279 à 319.

(2) Cf. Da Matta, "Augusto Matraga e a Hora da Verdade". In: Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1979; Walnice Nogueira Galvão, "Matraga: Sua Marca". In: Mitológica Rosiana. São Paulo, Editora Ática, 1978; Maria Sylvia de Carvalho Franco, "A Vontade Santa". In: Trans/form/ação: Revista da FFCL de Assis, 1977, nº 2.

(3) Para Van Gennep, os ritos de passagem acompanham as mudanças de lugar, de posição social, de estado, de idade.

(4) Dionóra, a esposa, cujo nome, contrastando com o caráter de Nhô Augusto, aproxima-se muito de honoris.

(5) Até mesmo a própria esposa tem para Nhô Augusto a dimensão de mero objeto: "Dela, Dionóra, gostava, às vezes; da sua boca, das suas carnes. Só".

(6) Intervalo de tempo, por sinal, que se aproxima dos sete anos bíblicos.

(7) "O que existe de interessante com relação aos fenômenos liminares é que eles oferecem uma mistura de submissão e santidade, de homogeneidade e camaradagem. (...) A liminaridade implica que o alto não poderia ser alto sem que o baixo existisse, e quem está no alto deve experimentar o que significa estar embaixo" (cf. Turner, 1974: 118-9).

 
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