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Artigos
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Meditações sobre a desordem por Goffredo Telles Jr. |
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No
mundo da natureza, a desordem dos elementos é sempre uma
ordem produzida por forças físicas ou químicas,
ou físico-químicas, mas ordem que contraria interesses humanos,
não sendo, portanto, a ordem desejada pelo homem. Por
exemplo, as desordens orgânicas, as doenças de todas as espécies,
são ordens - ordens rigorosas de fenômenos, encadeamento
de causas e efeitos, disposições impostas às coisas
para os desígnios da natureza. Embora sejam ordens, recebem
o nome de desordens, porque não são ordens convenientes
para fins humanos: produzem sofrimento e tristeza. A
visão das ruínas deixadas por um incêndio ou por um
furacão faz surgir, no espectador humano, sentimentos de angústia,
de aflição, de temor ou, ao menos, sensações
de tristeza ou de mal-estar. Ali está, de certo, na desolação
dos escombros, no caos dos destroços, na confusão das coisas
destruídas, uma imagem flagrante da desordem. Sucede,
porém - disse eu -, que, se o espectador se detiver na meditação
sobre qualquer dessas catástrofes, uma evolução espontânea
de seu espírito irá transformando impressões, e acabará
por fazer pensar que tudo, afinal, naquela cena de tragédia, pode
ser explicado pelos fatos que ali aconteceram. O espetáculo aberto
diante de seus olhos, responsável pela referida imagem da desordem
é composto de elementos que são os efeitos certos de causas
certas. Estas causas é que espalharam as coisas por toda parte,
e as puseram nos lugares em que se encontram. Tendo havido tais causas,
os efeitos só poderiam mesmo ser aqueles. Cada coisa, portanto,
na localidade flagelada, estará ocupando, após o sinistro,
seu lugar próprio, ou seja, o lugar que ela não poderia
deixar de ocupar, em virtude do que ali aconteceu. Cada coisa estará
em seu preciso lugar em razão dos antecedentes. As coisas foram
transportadas por forças naturais e inelutáveis, conduzidas
para as situações em que se acham. Elas foram dispostas
pelas energias que movem a matéria para fins que necessariamente
existem, mas que escapam ao entendimento humano. Em razão desses
fins, todas aquelas coisas estão dispostas convenientemente.
Estão, pois, em ordem. Por
que, então -perguntei -, o homem confere a essa ordem o nome de
desordem? A
resposta é simples. A essa ordem, o homem confere o nome de desordem
porque ela não é a ordem que o homem deseja, a ordem que
o satisfaz. Ela não constitui a ordem que lhe é conveniente.
Pelo contrário: ela é a ordem que o desgosta e infelicita. Exprimindo
inconformismo, o homem chama de desordem a ordem que ele encontra,
no lugar da ordem que ele quer. Mas o nome que ele confere à disposição
das coisas não altera, evidentemente, a realidade objetiva. O que
ele chama de desordem continua sendo uma ordem. Em
suma, a desordem é a ordem que não nos convém.
É a ordem que não queremos (ou que não deveríamos
querer). Não
havendo o referido inconformismo - não havendo desgosto, contrariedade,
prejuízo para o homem -, nenhum fenômeno da natureza, nem
mesmo um cataclismo, receberá o nome de desordem. A explosão
de uma estrela, uma supernova, é uma colossal catástrofe
nas imensidões dos céus. Mas ninguém a chamará
de desordem. Por quê? Porque a destruição de
uma estrela e o lançamento de seus destroços pelo firmamento
não afetam interesses humanos. Todos dirão, simplesmente,
que a supernova se situa dentro dos planos da natureza e pertence à
ordem do Universo. E, realmente, estarão certos. No
mundo do comportamento humano - continuei -, a desordem ou é
voluntária ou é involuntária. Pode
alguém, voluntariamente, produzir a desordem? Pode, deliberadamente,
dispor as coisas de maneira inconveniente para outrem, como seria
o caso, por exemplo, de quem baralhasse, por malícia, os livros
de uma biblioteca. Essa disposição é conveniente
para a pessoa que a fez, pois alcança o fim ou objetivo almejado.
Que fim, que objetivo será este? É o de criar uma disposição
inconveniente para outra pessoa. Para a outra pessoa, a disposição
baralhada dos livros é uma desordem - uma desordem produzida
intencionalmente por alguém. Mas tal disposição,
chamada desordem, não é ausência de
ordem, uma vez que ela é uma ordem deliberadamente dada às
coisas. A
desordem é voluntária quando a disposição
dada às coisas é disposição conveniente
para a consecução dos fins de quem a fez deliberadamente,
mas inconveniente para a consecução dos fins de outrem.
Enquanto disposição conveniente, a disposição
é ordem; enquanto disposição inconveniente,
a disposição é desordem. É
evidente - disse eu - que a mesma ordem pode ser ordem e desordem,
isto é, pode ser ordem para alguém e desordem para outrem;
pode ser disposição para os fins de alguém, e disposição
inconveniente para os fins de outrem. No
caso especial do pecado, a desordem voluntária é conveniente
e inconveniente ao mesmo tempo, para a própria pessoa que o pratica
- e não há necessidade de fazer a demonstração
de uma tal evidência. O
certo é que a desordem voluntária nunca exclui a ordem.
Pelo contrário, ela é sempre uma ordem, como se acaba de
verificar. A desordem - continuei -, a desordem no mundo do comportamento humano, pode ser involuntária. Ela é involuntária quando a disposição das coisas é dada com a intenção de ser conveniente e, depois, é julgada inconveniente. Mas, neste caso, também, a desordem não é ausência de ordem. Ela é uma ordem na intenção que a inspirou. Ela é, como foi dito, a disposição conveniente segundo o julgamento de alguém, embora essa disposição possa depois ser tida como inconveniente, segundo outro julgamento. Página
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