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Incluem-se
entre as desordens involuntárias as desordens resultantes de desmazelo,
imprudência, imperícia. O exame de todos esses casos de desordem
leva sempre à conclusão de que são ordens, como as
demais.
Quem
joga as coisas descuidadosamente dentro de uma gaveta, com o intuito de
abrir espaço sobre a mesa, faz ordem: não ordem na gaveta,
mas ordem sobre a mesa. Na gaveta, note-se, as coisas atulhadas também
estarão em ordem: não, evidentemente, na ordem buscada pelo
homem, mas na ordem em que as dispuseram as forças da natureza,
ao serem lançadas por mão desleixada.
Os
livros despejados por um caminhão sobre um terreno não são
uma biblioteca; são um montão de livros. Para quem os quisesse
como biblioteca, acham-se tais livros na mais completa desordem. Mas para
quem quis livrar-se deles, talvez queimá-los numa fogueira, os
livros se acham convenientemente amontoados, isto é, acham-se em
ordem. A desordem para a biblioteca é ordem para a fogueira.
Uma observação ainda pode ser feita - disse eu - sobre este
último exemplo. Os livros despejados de qualquer maneira, amontoados
em confusão sobre um terreno, caíram e deslizaram uns sobre
os outros, e se imobilizaram, afinal, em seus respectivos lugares. Submetidos
a forças físicas inelutáveis, os livros ficaram dispostos
numa ordem semelhante à ordem das ruínas deixadas pelo furacão.
Bergson
demonstrou que tudo quanto o homem chama de desordem é
sempre ordem. Diz o filósofo que a desordem tida como ausência
de ordem é impossível, por ser intrinsecamente contraditória.
Ela há de ser, forçosamente, não a ausência,
mas a presença de uma ordem, embora esta ordem desagrade, prejudique,
infelicite.
Na
realidade, a ausência de uma certa ordem não é
desordem, mas a presença de outra ordem.
Suprimir
uma ordem é fazer outra, como sucede quando a ordem ditada pela
vontade é substituída pela ordem imposta pelo furacão.
Logo, a desordem não existe.
A
desordem não é a ausência da ordem, mas a ausência
de uma certa ordem.
De
real, o que existe é a ordem. Nunca se viu a ausência da
ordem, como nunca se viu o nada. Se, na disposição
das coisas, não há uma vontade humana criando a ordem, é
porque há determinismo físico; se não há determinismo
físico, é porque há uma vontade humana. Mas, dentro
da realidade, a ordem existe sempre: eis o fato.
A
desordem, pois, não pertence à realidade. Não passa
de uma pseudo-idéia, de uma ilusão.
O
que a realidade ensina - observei - é que tudo quanto se chama
"desordem" compreende dois elementos, a saber: 1. fora do homem, uma ordem
criada pela vontade humana ou resultante do determinismo físico;
2. dentro do homem, uma representação ou idéia de
ordem - um imaginário da ordem -, diferente da primeira, mas que
é a que interessa ao próprio homem.
A
desordem, portanto, é composta de duas ordens: uma, objetiva;
outra, subjetiva.
Eis
por que a desordem não pode ser ausência de ordem. Não
sendo ausência de ordem, é presença de ordem. Logo,
a desordem é ordem.
O
que faz que, a essa ordem, se confira o nome de desordem é
o desacordo entre a ordem existente na realidade e a idéia
que o homem faz da ordem. É o desacordo entre a realidade e o imaginário.
Por
outro lado, jamais se dará à ordem o nome de desordem
quando a ordem real coincide com a idéia de ordem.
Em cada homem, a realidade será tida como ordenada na exata
medida em que ela corresponde a seu pensamento.
A
ordem, pois, para cada ser humano, é um certo acordo entre o sujeito
e o objeto. Neste sentido, ordem é o espírito se encontrando
com as coisas.
Mas,
neste sentido - como bem salienta Bergson -, as noções convencionais
de ordem e desordem, autolimitando-se, são exclusivamente práticas,
a serviço da linguagem e da ação, são mais
nomes do que idéias. O homem dá o nome
de "desordem" à ordem que não lhe convém.
É
assim que se diz que uma biblioteca está em desordem quando a ordem
dos livros nas estantes não é a ordem que agrada ou que
serve a fins estabelecidos.
É
assim, igualmente - afirmei -, que os governantes, em regimes de força,
chamam os adversários da ordem vigente de promotores da desordem,
de subversivos ou de demagogos, enquanto estes consideram demagogos, subversivos
e partidários da desordem precisamente aqueles que defendem a ordem
vigente.
O
nome desordem, cujo uso simplifica a linguagem, não tem,
contudo, nenhum emprego na especulação filosófica,
porque não significa nada de verdadeiro, não representa
coisa alguma, flatus vocis.
Nada
mais é preciso acrescentar para deixar demonstrado que tudo
está em ordem no Cosmos.
Abstract:
The total order o Cosmos. The enigmatic existence of disorder.
A pseudo problem, a misjudgement. Disorder is always order: an order that
does not suit us. Disorder in nature. Disorder in human behaviour.
The sin. The lack of a certain order is the presence of another
order. Everything is always in order. Order of government agents.
The disorder: flatus vocis.
Key-words:
order - disorder - nature - human behaviour - sin
Referências
Bibliográficas
BERGSON,
H. L'Évolution Créatrice. Paris: Presses Universitaires
de France, 1948.
______.
La Pensée et le Mouvant, II e III. Paris: Presses Universitaires
de France, 1950.
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