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Meditações sobre a desordem
por Goffredo Telles Jr.
(*)



Abstract - Bibliografia

Resumo: A ordem total do Cosmos. Um equívoco. A desordem é sempre ordem: a desordem no comportamento humano. O pecado. A ausência de uma certa ordem é presença de outra ordem. Tudo está sempre em ordem. A ordem na convicção dos governantes. A desordem: flatus vocis.

Palavras-chave: ordem - desordem - natureza - comportamento humano - pecado - ordem dos governantes

Um dia, o Presidente do Tribunal de São Paulo solicitou-me duas palestras de "preparação para a Páscoa da família forense", a serem proferidas em sessão pública, no Palácio da Justiça, na Sala do Conselho Superior da Magistratura.

Inspirando-me na ebulição política então reinante, sugeri que meus pronunciamentos, nas vésperas da Páscoa, fossem a expressão oral de uma meditação sobre "A Ordem e a Desordem".

E, de fato, nos dias marcados, dissertei sobre o tema proposto.

Lembro-me de que o primeiro pronunciamento foi dedicado ao conceito da ordem, nos mesmos termos com que tal noção se acha consagrada na Filosofia clássica. Recordo, porém, que o segundo, dedicado ao conceito da desordem, exigiu de mim uma abordagem nova, na linha do pensamento bergsoniano. A matéria, a meu ver, merecia meditação séria, por parte de todos quantos quisessem tratar, com profundidade, dos problemas da vida, inclusive da vida política de nosso País.

Depois de haver relembrado a definição da ordem - "disposição conveniente dos seres para a consecução de um fim comum" -, demonstrei que toda existência dos vivos e dos não-vivos, do vegetal, do animal, do homem, e também das sensações, das imagens, das idéias; enfim, todo ser existente resulta de uma disposição certa de seres, isto é, de um arranjo conveniente dos elementos de que ele é constituído.

Logo - disse eu -, todo ser existente resulta da ordem em que se acham os seres de que ele se compõe, e estes seres também resultam da ordem em que se acham os seres de que eles se compõem. E estes, por sua vez ...

O próprio Universo, tido como conjunto de todas as coisas existentes, só pode ser considerado como um todo ordenado.

A Filosofia ensina - lembrei - que o Universo é a diversidade das coisas harmonicamente ordenadas, dentro da unidade do todo.

Os gregos chamavam o Universo de "cosmos", palavra que significa ordem; não o chamavam de caos, palavra que significa ausência de ordem.

Mas observei que, na infinita paisagem do Universo, quaisquer olhos desprevenidos vão divisar áreas de sombra. Nem tudo, ao que parece, é ordem no mundo. A desordem também existe. O comportamento desregrado, a prática do mal, a injustiça, o sofrimento, a dor, todas essas coisas são fatos ocorrentes, e fatos contrários ao que se considera ordem. Mesmo no Mundo Físico, flagrantes violações da ordem cósmica parecem acontecer às vezes, como, por exemplo, as que se manifestam no indeterminismo cinemático dos quanta, verificado na intimidade profunda da matéria; e as que se revelam na entropia crescente em sistemas isolados, ou seja, na delegação qualitativa da energia, verificada em tais sistemas, contrariando o princípio universal da conservação da energia.

Então - disse eu -, uma inevitável pergunta se coloca diante da inteligência humana. Se o conjunto de todos os seres está submetido à ordem universal, como explicar a existência do que é contrário à ordem, ou seja, a existência da desordem?

Como explicar, por exemplo, o pecado?

O problema da existência da desordem só pode ser resolvido se for colocado em seus devidos termos. De fato, ele não passa de um pseudoproblema. É um problema fundado num equívoco.

A desordem - afirmei - não é o contrário da ordem, como se costuma pensar. Ela é, isto sim, uma ordem contrária a outra ordem.

Desordem, em verdade, é apenas um nome: é o nome dado à ordem não desejada, não querida, não procurada. Ou o nome dado à ordem que não deve ser desejada, nem querida, nem procurada. É o nome da ordem que desagrada, desgosta, decepciona, prejudica, infelicita, desola. Às vezes, é o nome da ordem que causa arrependimento. Mas a desordem é sempre uma ordem, eis o que precisa ficar bem claro.

A desordem se pode verificar - expliquei - tanto no mundo da natureza física, como no mundo do comportamento humano.

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(*) Professor Emérito da USP, Prof. Titular do Departamento de Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da USP, autor de O Direito Quântico e Ética: Do Mundo da Célula ao Mundo da Cultura, entre outros livros. Autor da Carta aos Brasileiros.

 
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