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Artigos
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Resenha: A Cor dos meus Sonhos: Entrevistas com Georges Raillard / Joan Miro. Resenhado por Maria Luisa Sandoval Schmidt (*) |
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Edição:
Tradução de Neide Luzia Rezende. 4ª edição.
São Paulo: Estação Liberdade, 1992. 213p. A
recente exposição de obras, pinturas e esculturas de Joan
Miró, realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São
Paulo nos meses de janeiro e fevereiro, trouxe às prateleiras
das livrarias paulistanas várias publicações sobre
o pintor. Entre elas, está A Cor dos meus Sonhos, contendo entrevistas
concedidas por Joan Miró a Georges Raillard. Entre
os dias 3 e 8 de novembro de 1975, Raillard percorreu o conjunto de
ateliês nos quais Miró trabalhava em Palma de Maiorca -
Son Abrines, ateliê de gravuras, ateliê de litografia, Son
Boter - acolhendo e registrando o desejo do artista de falar e de ampliar
sua comunicação com o público. No dia 5 de dezembro,
após o vernissage da exposição antológica
das obras de Miró realizada na galeria Maeght em Barcelona, uma
última entrevista foi realizada. Como
adverte Raillard, no prefácio do livro, a série de entrevistas
pode decepcionar o leitor que busca a revelação de segredos
biográficos ou que aprecia o relato de historietas. No
cenário dos ateliês, Miró dispõe-se a revelar
"sua obra em andamento" e, neste rito de apresentação,
as palavras procuram fazer ver, mais do que explicar ou contar. Durante
as conversações, Miró lança um apelo à
nossa atenção em direção à vitalidade
das matérias e das idéias. Sua fala é modulada
pela mesma energia e intensidade que caracterizam suas obras, pela mesma
força que almeja arrancar da estagnação e da "preguiça
mental" o espírito dos homens. Esquivando-se dos exercícios
de teorização e escapando sempre da interpretação
simbólica dos elementos recorrentes de sua obra, Miró
nos puxa para a arena de sua atividade criativa: luta incansável
contra o conformismo de toda "concepção senilizada de
pintura" e embate cotidiano com a resistência das matérias.
Interessa-lhe fazer e provocar uma revolução permanente
no interior da qual as transformações plásticas
implicam, necessariamente, transformações de idéias. O
ato de poesia - e Miró não estabelece nenhuma diferença
entre poesia e pintura - constitui o centro de irradiação
de suas idéias e opiniões. O movimento dos temas que se
encadeiam mimetiza o próprio movimento de criação,
configurando um corpo comunicável desconcertante e perturbador.
O corpo das formas de suas obras que quer tocar, impressionar, chocar
o espírito se re-apresenta nas palavras que quase querem dizer,
em síntese: veja, é assim que eu faço! A
atividade criativa constitui-se como aprendizado de liberdade. Miró
descreve uma espécie de ritual que começa com o seu caminhar
pelo ateliê, olhando para os materiais (sente-se atraído
tanto por um papel especial japonês quanto por um papel de embrulho),
para as telas nas quais simultaneamente trabalha, para as manchas de
tinta no chão ou na mesa. Responde ao chamado das coisas, da
matéria. Prioriza o material em detrimento do instrumento e é
da vida do material que recebe o estímulo para iniciar seu trabalho:
"O papel de pacote já teve uma existência antes, aproveito
essa vida" (p. 155). O começo, análogo ao nascer, é
sua razão de viver e, no ponto de partida, nem reflexão
intelectual, nem sentimentos. Sobre a sua motivação, diz:
"Preciso de algo que me provoque uma emoção. E a emoção
que me move. Não é algo do domínio do sentimento:
é como se um alfinete me espetasse" (p. 110). A
imagem do alfinete, ser de ínfima proporção, associada
ao choque que desencadeia a criação, nos aproxima do modo
singular através do qual Miró "hierarquiza" o poder estimulador
das coisas. Para ele, "um talinho de capim tem mais importância
do que uma grande árvore; uma pedrinha, mais do que uma montanha:
uma libelulazinha, tanto quanto uma águia" (p. 54). Quando passeia,
não olha a paisagem, mas o sol e o céu e em Son Abrines,
localizado diante de uma magnífica paisagem mediterrânea,
trabalha no andar inferior, com as janelas fechadas para a paisagem
- "O que existe quando trabalho é isto aqui: esta manchinha branca
no chão" (p. 41). Ao mesmo tempo, os elementos que dão
origem às formas aparentemente simples e parcimoniosas com que
Miró constrói sua obra são, para ele, universos.
Isto fica claro quando declara que "um único espinho é
o resumo de todas as outras plantas" (p. 54) ou quando diz, literalmente,
que o que chama de mulher não é a criatura "mulher", mas
um universo.
O surgimento destes universos é fruto de uma aventura que se
apóia no tempo e no acaso: "Quando desço ao ateliê
e pinto, não sei para onde vou" (p. 58). Miró mantém
muitas telas em andamento, por acabar, iniciadas em épocas diferentes.
Volta a elas numa sincronicidade com processos de amadurecimento cujos
tempos variam, às vezes quatro ou cinco anos, às vezes
quarenta. Paralelamente, deixa-se levar por acidentes como um escorrimento
de tinta ou uma imperfeição numa chapa de cobre. Não
há gratuidade, porém, na invenção destes
universos. O sentido do conjunto de sua obra revela-se como direção,
rumo e, por isso, reside adiante, na potência transformadora do
gesto de criação e seu impacto sobre as pessoas. Este
sentido não é informado por uma noção de
representação do mundo, nem pela de exteriorização
do "mundo interno" do artista. Por este motivo, talvez, Miró
se mostre tão esquivo à interpretação de
símbolos, reiterando, sempre, que o lado plástico supera
o simbólico em sua produção. Trata-se, para ele,
de buscar o "choque das formas no espírito". A tradução
interpretativa, bem como toda elaboração intelectual,
ficam aquém do poder que atribui a toda expressão plástica.
Em várias passagens das entrevistas manifesta um desconforto
com relação às tentativas de explicação,
como quando afirma que, se pudesse explicar suas telas, isso seria uma
coisa intelectual, fria e morta: coisa de teórico. Ou quando,
veementemente, concorda com Raillard sobre uma observação
deste sobre seu modo de encarar a interpretação: "Sim!
Não traduzo nada" (p. 147). Nos
temas abordados em conexão com o processo de criação,
Miró apresenta a mesma disposição de combate e
resistência a tudo que represente aprisionamento e cerceamento
da expressão: o horror ao franquismo; o ódio ao dogma;
a desconfiança com relação ao virtuosismo que,
acredita, leva à acomodação; as ligações
com o movimento surrealista e com o comunismo; a aversão à
publicidade, à comercialização das obras de arte
e aos burgueses. Em
um único momento concede a Raillard sua concordância em
relação a uma interpretação de sua obra.
Falando sobre dois elementos bastante presentes em suas pinturas - pássaro
e personagem -, atribui ao pássaro o significado de liberdade,
pelo seu movimento ascendente na tela, e à personagem o significado
de prisão. Esta oposição diz muito sobre aquilo
que está no centro de sua prática, mas é, talvez,
do embate destes elementos que a obra de Miró retira seu sentido.
Ninguém melhor do que ele mesmo ara dar este testemunho: "E minha
pintura não é, em absoluto, um diário secreto.
E uma força de combate que se exterioriza" (p. 181). (*) Professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. |
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