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Artigos e Publicações

Introdução à Herpetologia do Brasil
O contexto científico e político da expedição bávara ao Brasil de Johann Baptist von Spix & Johann Georg Wagler

por P. E. Vanzolini



Abstract - Bibliografia

Não se dava o mesmo com Karl Friedrich Philipp von Martius (fig. 1), o companheiro que lhe designaram. Nascido em Erlangen, em 17 de abril de 1794, faleceu em Munique, em 13 de dezembro de 1868. Martius, o filho de um farmacêutico, estudara medicina em sua cidade natal, e se formara em 1814. Sua dissertatio inauguralis era sobre as plantas dos jardins botânicos de Erlangen; pouco depois (1817) publicou (sem dúvida, como decorrência) a flora criptogâmica da região. Entrou na Academia Bávara como aluno em 1814, e foi nomeado assistente em 1816. A expedição para o Brasil foi seu primeiro emprego profissional.

Figura1. Da esquerda para a direita, Johann Baptist von Spix (Gistl, 1835b); Karl Friedrich Philipp von Martius (cortesia do Hunt Institute, Pittsburgh); Johann Georg Wagler (Gistl, 1835a).

A viagem

A História Natural, como incluía na época a Etnologia, era uma parte - possivelmente a mais importante - da tarefa dos viajantes, mas de maneira alguma a única. Receberam instruções para obter toda informação possível sobre mineração comércio, agricultura, indústria, colonização, estradas, administração geral na verdade, sobre todas as atividades econômicas possíveis. Tinham um mandato amplo e, em grande parte, orientado para o comércio. Fizeram tudo isso e registraram em incrível detalhe. Logo que voltaram para a Europa, começaram a publicar a Reise, que continua inexaurível e em muitos aspectos é uma fonte insubstituível informação sobre os lugares e a época. Nesse quadro, a zoologia é uma infeliz exceção.

De fato, a Reise contém descrições meticulosas e vivas do itinerário; quando estou lendo sobre regiões que conheço, não consigo deixar de me envolver constantemente e antecipar o que veria e recompor no pensamento a paisagem e a disposição. O livro tem uma preocupação constante com geografia, geologia e botânica das regiões visitadas, com muitas referências surpreendentes à literatura. A parte etnográfica, embora eminentemente dogmática (depois de um ou mais dias entre determinado grupo de índios, Martius escrevia: "estes índios são"...), é uma fonte insubstituível sobre uma série de tribos. As referências a animais, contudo, têm geralmente uma veia romântica, lírica, no caso dos pássaros e das borboletas, ou temerosa e trêmula sobre jacarés monstruosos. São poucas as notas específicas de história natural e muito raramente é possível ligar espécimes a lugares ou situações - um aspecto em que Wied, por exemplo, é excelente.

A Reise foi publicada em três volumes de texto, um atlas e um apêndice. Supostamente Spix colaborou no 1º volume, o único publicado em vida, mas o estilo é evidentemente de Martius. Isso é compreensível: Spix estava consciente da proximidade da morte e esforçava-se ao máximo para terminar os textos zoológicos.

Uma palavra final sobre a Reise refere-se à competência de Martius como botânico. Não esqueçamos que ele tinha 23 anos quando se decidiu por esse campo e que sua experiência botânica prévia limitava-se à flora da Europa Central. Durante suas viagens no Brasil desenvolveu-se em muitas direções. Não é preciso comentar sua coordenação e participação direta na Flora Brasiliensis. Menos conhecido é o fato de que foi o primeiro naturalista a compreender a natureza fundamental dos domínios morfoclimáticos intertropicais do Brasil. Algumas de suas definições (como silva horrida, aestu aphylla, das caatingas semi-áridas) são clássicas, mas, mais do que isso, percebeu que os habitantes tinham uma apreciação aguda das facies das principais formações vegetais. Assim, embora nosso assunto seja Spix, Martius nem sempre pode ser deixado de lado. A amizade entre eles foi desse tipo, durante a viagem (como somente uma leitura da reise pode fazer justiça) e ainda mais depois da morte de Spix, quando Martius cuidou com todo o zelo da herança intelectual do amigo.

O Itinerário

É evidentemente necessário compreender os caminhos seguidos por Spix e Martius em suas viagens, do ponto de vista prático da identificação de localidades-tipo. Contudo, é uma necessidade menor, se comparada à de seguir a percepção que tiveram dos principais tipos de vegetação. O texto da Reise é detalhado, e o mapa que a acompanha, grosseiro como não pode deixar de ser, tão repleto de localidades que torna uma tarefa imediata passar a limpo o itinerário. É notável que, com a única exceção da estrada entre Rio de Janeiro e São Paulo, por razões políticas que virão explicadas abaixo, os velhos caminhos são usados até hoje; a maioria agora está debaixo de asfalto ou concreto.

Apesar de trabalho prévio de outros autores sobre este fácil itinerário, preferi listar todas as localidades(1), e identificar especificamente aquelas necessárias para a preparação do mapa (fig. 2), ou outras merecedoras de menção. No que segue, utilizo nomes correntes, omitindo comentários sobre ortografia imprópria ou obsoleta e mudanças de nomes; estas serão discutidas somente quando tiverem uma importância específica.

Rio de Janeiro e vizinhança

Spix e Martius chegaram em 15 de julho de 1817 ao Rio e lá ficaram até 8 de dezembro. Naturalmente, perderam muito tempo em contatos administrativos e sociais, mas também, como qualquer outro viajante contemporâneo, fizeram coletas significativas nas florestas dos arredores da cidade.

Fazenda Mandioca

Durante sua estada no Rio, Spix e Martius, como todos os naturalistas europeus contemporâneos, visitaram a Fazenda "Mandioca", propriedade do Barão Langsdorff, o cônsul russo e por sua vez um bom naturalista, nas fraldas da Serra dos órgãos, ao norte do Rio. Foram um pouco além da fazenda, chegando perto de Três Rios, próximo ao Rio Paraíba. Não é possível avaliar exatamente a extensão da viagem, mas, aparentemente, levou entre uma e duas semanas; foi o primeiro contato real com a Floresta Atlântica.

Rio de Janeiro a São Paulo

A política colonial portuguesa ligava as principais cidades brasileiras diretamente a Lisboa, não entre elas. Assim, nessa época, o caminho entre o Rio e São Paulo era complicado: do Rio seguia-se pela costa e em Itaguaí subia-se a Serra do Mar, entrando em São Paulo perto de Bananal e alcançando o Vale do Paraíba (a rota natural) somente em Lorena. A viagem levou de 8 a 31 de dezembro de 1817, e aparentemente não houve muita coleta. Foi o último contato dos naturalistas com a faixa atlântica do Sudeste brasileiro.

Figura 2. Itinerário de Spix e Martius (caminhos laterais omitidos) sobre o pano de fundo dos domínios morfoclimáticos do Brasil: 1. Rio de Janeiro. 2. Bananal. 3. São Paulo. 4. Sorocaba. 5. Três Corações. 6. São João del Rei. 7. Ouro Preto. 8. Diamantina. 9. Araçuaí. 10. Montes Claros. 11. Brasília de Minas. 12. Januária. 13. Vão do Paraná. 14. Carinhanha. 15. Caitité. 16. Livramento do Brumado. 17. Maracás. 18. São Félix. 19. Salvador. 20. Ilhéus. 21. Camamu. 22. Queimadas. 23. Senhor do Bonfim. 24. Juazeiro. 25. Oeiras. 26. Regeneração. 27. Teresina. 28. Caxias. 29. São Luís. 30. Belém. 31. Foz do Tocantins. 32. Breves. 33. Foz do Tajapuru. 34. Porto de Moz. 35. Santarém. 36. Manaus. 37. Tefé. 38. Tonantins. 39. Castro de Avelães. 40. São Paulo de Olivença. 41. Tabatinga. 42. Araracuara, 43. Barcelos. 44. Boca de Canumã. 45. Maués. 46. Parintins. O mapa-base, modificado de Ab'Saber (1977), foi preparado especialmente para este artigo por Azis N. Ab'Saber, a quem estendo meus agradecimentos.

São Paulo a Ipanema

Os produtos minerais do Brasil, como foi dito, eram as principais preocupações dos naturalistas, e principalmente de Martius. Por isso, sua primeira excursão ao interior foi à fábrica de ferro de Ipanema, perto de Sorocaba, em São Paulo. É uma área de vegetação mista, com subtipos mais úmidos e mais secos de florestas e alguns enclaves de formações abertas. De Sorocaba, Spix e Martius visitaram Porto Feliz, o início do caminho fluvial para o Mato Grosso. Voltaram a Sorocaba a fim de empreender a próxima fase da viagem para Villa Rica (atual Ouro Preto), centro da região de mineração do ouro em Minas Gerais. É impossível dizer exatamente quanto tempo os naturalistas ficaram na área de Sorocaba, pois as datas no diário são incompatíveis: teriam deixado São Paulo em 9 de janeiro e Sorocaba no dia 10. A próxima data explícita, 14 de fevereiro, refere-se a Campanha, no estado de Minas; provavelmente saíram de Sorocaba em 30 de janeiro.

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(1) Na descrição do itinerário, utilizei principalmente a tradução brasileira, com recurso freqüente ao original para verificar a ortografia e os erros e esclarecer pontos duvidosos.

 
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