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Introdução à Herpetologia do Brasil
O contexto científico e político da expedição bávara ao Brasil de Johann Baptist von Spix & Johann Georg Wagler

por P. E. Vanzolini



Abstract - Bibliografia

Rio São Francisco

Seis espécies têm como localidade "Flumen Sti. Francisci", o Rio de São Francisco: Bothrops tessellatus, Caiman fissipes, Emys depressa (também Província do Rio), Iguana caerulea, I. emarginata e I. viridis (também Rio Itapicuru).

Spix e Martius atravessaram o São Francisco três vezes(1). Na primeira, no caminho de Minas Gerais para o Paraná, chegaram a um rancho, Capão, uns 30 km rio acima de Pedras da Cruz (hoje Pedras de Maria da Cruz, 15º37'S, 44º23'W). A estação era favorável, e a coleta foi boa. Em seguida atravessaram o rio para Januária (então Porto do Salgado, 15º29'S, 44º23'W), onde fizeram nova coleta.

De Januária foram para o Paraná e, na volta, atravessaram o São Francisco do Carinhanha para Malhada (14º21'S, 43º47'W). Como o local era insalubre, não ficaram.

O último encontro com o rio foi na travessia Juazeiro-Petrolina, no caminho para o Piauí e Maranhão. Ficaram em Juazeiro (09º24'S, 40º30'W) várias semanas, fazendo pequenas excursões pela vizinhança; uma delas, para o Rio Salitre (embocadura a 09º29'S, 40º39'W), está mencionada especificamente na Reise. Tendo atravessado o rio para o Registro de Juazeiro (atual Petrolina), não se demoraram, mas prosseguiram para o Piauí.

Rio ltapicuru

A viagem pelo Piauí não deixou marcas nos livros herpetológicos de Spix. Depois da Bahia, a primeira localidade citada é o Rio Itapicuru no Maranhão (Itapicuru na ortografia de Martius). Registraram: Elaps martii, Bufo semilineatus, B. globulosus, Iguana viridis (também do São Francisco) e Kentropyx calcaratus.

Spix e Martius atingiram o rio em Caxias, que escrevem "Cachias" (04º50'S, 43º21'W), e desceram calmamente até o atual Arraial (02º37'S, 44º41'W)(2).

Pará

"Pará" no século XIX designava a província, mas também como abreviatura de Santa Maria de Belém do Grão Pará, a atual cidade de Belém (01º26'S, 48º29'W). Duas espécies são explicitamente atribuídas à cidade, Stenostoma albifrons e Chelys matamata.

Dizia-se que uma espécie, Anolis violaceus, existia em "confinibus Parae" Acho que, como no caso da Bahia, é uma referência aos subúrbios da cidade, e não às fronteiras da província. Spix e Martius atravessaram as fronteiras do Pará apenas uma vez, rapidamente, ao subir o Amazonas; todo material da região é chamado "flumen Amazonum " ou alguma variação gramatical disso. Quanto ao mais, os naturalistas não viajaram na Província do Pará, a não ser por uma rápida excursão de Martius sozinho(3), em 1820, para ver a "pororoca". Subiu o Rio Guamá (cuja embocadura fica em Belém propriamente dita) até a embocadura do Capim (01º41'S, 47º7'W).

Três espécies referem-se ao Pará sem outra qualificação: Rana pachypus var. 1, Iguana squamosa (também na Bahia) e Scincus bistriatus. Acredito que a cidade de Belém deveria ser considerada como sua localidade.

Rio Amazonas

O Amazonas quando entra no Brasil adquire o nome de Solimões, que mantém até a boca do Negro, onde volta a ser Amazonas, ou, no uso local, o Baixo Amazonas. Como se disse na discussão do itinerário, os canais a oeste de Marajó e do Rio Pará não são considerados parte do Amazonas. Spix e Martius parecem ter estado conscientes disto(4), embora exista uma citação perturbadora: dizem que Chelys matamata existe "perto da cidade de Belém em águas estagnadas do Rio Amazonas". Creio ser melhor considerar esta referência como um lapsus calami e tomar "flumen Amazonum " neste caso como a faixa do rio entre a embocadura do Tajapuru (01º02'S, 51º02'W) e a embocadura do Negro (03º08'S, 59º55'W) e os canais paralelos ("paranás"e "furos") seguidos normalmente pelos viajantes em embarcações pequenas.

As espécies rotuladas "Rio Amazonas" são Natrix sexcarinata, Xiphosoma dorsuale, Bothrops furia, B. taeniatus, Testudo sculpta, T. carbonaria, Rana gigas, R. palmipes, R. coriacea, R. miliaris, Hyla affinis, H. variolosa, H. abbreviata, Bufo lazarus, B. naricus, B. nasutus, Pipa cururu (também na Bahia), Caiman niger, Lophyrus ochrocollaris, L. aureonitens, Leposoma scincoides. Três dos nomes se aplicam a espécies que não se sabe se existem na Amazônia: Bothrops taeniatus (= B. jararaca), Hyla abbreviata (= thoropa miliaris) e Rana miliaris (= T. miliaris).

Rio Solimões

As espécies seguintes estão listadas no Solimões: Elaps melanocephalus, Natrix cinnamomea, N. occipitalis, N. semilineata, Xiphosoma ornatum, Micrurus spixii, Emys amazonica (também Rio Javari e Rio Branco), E. rufipes, E. erythrocephala, E. canaliculata, E. dorsualis, E. stenops, Kinosternon brevicaudatum, Testudo hercules, Rana scutata, Bufo maculiventris, B. proboscideus, Caiman niger (também Amazonas), Lophyrus rhombifer, L. margaritaceus (também da Babia) e L. xyphosurus. Três dessas espécies não são conhecidas como do Solimões: Emys erythrocephala (= Podocnemis erythrophala), Lophyrus rhombifer (= Enyalius c. catenatus) e Lophyrus margaritaceus (= E. c. catenatus).

Localidades específicas no Solimões

Ega, Ecgá ou Ecga, a atual Tefé, foi uma estação produtiva na subida do Solimões. A localidade ( 03º12'S, 64º42'W) fica na embocadura interna do canal ("furo"), de uns poucos quilômetros de comprimento, que liga o Lago de Tefé ao Solimões. As espécies encontradas em Tefé ou seus arredores são: Elaps triangularis, Dryinus aeneus, Hyla papillaris, H. cinerascens, H. nigerrima, H. coerulea, H. bufonia, Jacaretinga punctulatus, Lophyrus Pantera, Crocodilurus ocellatus e Scincus nigropunctatus. A não ser pela última, todas as epécies ocorrem na área.

O Rio Tefé é um rio estreito, mas razoavelmente longo - de uns 350 km -, que corre para a extremidade sul do lago. Não fica claro o limite entre o lago e o rio e, em vez de uma foz, existe um labirinto de canais estreitos que correm entre manchas de floresta alagada. Martius não menciona trabalho feito no rio(5) mas cinco espécies de sapos estão atribuídas a ele: Hyla trivittata, H. stercoracea, H. nebulosa, H. geographica e H. zonata. H. stercoracea (= Hylodes nasus) e H. albopunctata não se conhecem da Amazônia. Rana megastoma foi coletada em Castro de Avelães, atual Amaturá, na margem direita do Solimões a 03º29'S, 68º06'W(6). Crocodilurus amazonicus foi coletado em São Paulo de Olivença (03º30'S, 68º45'W).

Finalmente, o Javari, que penetra no Solimões a 04º21'S, 70º02'W, do lado direito, e constitui a fronteira peruana, é, com o Solimões e o Branco, a localidade tipo da Emys amazonica. Spix não explorou pessoalmente o rio, mas ficou em Tabatinga, do outro lado do Solimões.

Rio Japurá

Martius continuou pelo Japurá da foz (03º08'S, 64º66'W) até as quedas de Araracuara (00º24'S, 72º17'WO), então em território disputado, hoje da Colômbia. As espécies mencionadas são Elaps schrankii, E. langsdorffi, Natrix scurrula e N. sulphurea.

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(1) Para a primeira travessia, ver Reise, vol. 2, livro 4, p. 529 seg. (trad. p. 190); para a segunda, ver 2, 6, 1, p. 582 (p. 237); para a terceira, ver 2, 8, 2, p. 752 (p. 399).

(2) Não existe ambigüidade quanto ao ponto de embarque, Caxias. O ponto em que os Viajantes trocaram a tropa não é tão fácil de localizar; era um rancho naquela época e atualmente é uma vila, mas manteve o nome original.

(3) Martius sobre o Guamá: ver Reise, vol. 2, livro 8, cap. 3, p. 957 (trad. p. 80).

(4) Para a compreensão de Martius da geografia do Pará oriental, ver Reise, vol. 3, livro 8, caps. 1-2.

(5) A estada em Tefé está coberta no vol. 3, livro 9, cap. 2, da Reise.

(6) A aldeia (chamada Avalães na Ranae, mas corretamente na Reise) estava reduzida a três famílias quando Spix a visitou. Não pude encontrar o nome do local nas fontes habituais, mas Loureiro (1978) a menciona.

 
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