Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações

Introdução à Herpetologia do Brasil (1)
O contexto científico e político da expedição bávara ao Brasil de Johann Baptist von Spix & Johann Georg Wagler

por P. E. Vanzolini (2)



Abstract - Bibliografia

Resumo: Acompanhamento crítico de uma das expedições científicas mais famosas do século XIX, a de Spix e Martius (1817-1820), detendo-se principalmente em seus resultados zoológicos, referentes a répteis e anfíbios. Inicia por uma discussão dos naturalistas envolvidos no trabalho, sua formação, patrocínio, atuação no campo e, posteriormente, na redação dos resultados. Refaz, em seguida, o itinerário dos naturalistas do Rio de Janeiro a Belém do Pará, discutindo o tempo transcorrido, as condições de transporte, saúde e de trabalho, o material colhido, as dúvidas sobre o resultados.

Palavras-chave: herpetologia - naturalistas - Viagem pelo Brasil - Spix & Martius

O Systema Naturae de Lineu, que chegou à maturidade por volta de 1758, foi o clímax da primeira fase da zoologia moderna, isto é, um catálogo profissional dos animais conhecidos. Sua importância é comprovada por ter sido escolhido como o fundamento da nomenclatura zoológica, mas também pelo grande número de traduções e adaptações do systema e de obras gerais semelhantes (por exemplo, Lecépède, Cuvier) feitas no fim do século XVIII e início do XIX. O conhecimento de animais despertou o apetite por outros, e a comunidade científica despertava para as oportunidades apresentadas pelas viagens oceânicas extensas de exploração geográfica e pela abertura dos continentes colonizados. Naturalmente, entre estes, a América do Sul despertava muita curiosidade, aumentada por estar fechada a outras nações por seus donos, Portugal e Espanha.

Inicialmente, Portugal tinha conservado o Brasil fechado apenas por razões comerciais. Nos séculos XVI e XVII houvera grandes conflitos entre os países europeus, principalmente França e Holanda, a respeito do domínio das costas da América do Sul e do direito de aí comerciar. Depois, a descoberta de ouro e diamantes no interior trouxe novas restrições. No Brasil, somente pessoas devidamente autorizadas podiam residir nos distritos mineiros e mesmo essas poderiam ser "exterminadas" (ou expulsas do território) sem aviso prévio. A situação piorou com a Revolução Francesa. O vento de liberdade que fez soprar pelo mundo, coincidentemente com o despertar de sentimentos nativistas nas colônias, provocou revoluções republicanas bem-sucedidas na América do Sul. A Coroa portuguesa, monarquia por direito divino, odiava e temia as idéias "modernas" sobre o que quer que fosse; tanto que o ilustre Humboldt foi não só proibido de pôr os pés no Brasil estaria com a cabeça a preço, se tentasse.

Foi precipitada uma mudança nesse estado de coisas com a invasão de Portugal pelos exércitos napoleônicos comandados por Junot. A corte, sob a proteção inglesa, refugiou-se no Brasil, que foi elevado da condição de colônia para a de Reino Unido.

Do ponto de vista científico, isso teve duas conseqüências imediatas. Primeira, a presença da corte no Rio de Janeiro implicou a presença de um corpo diplomático, e muitos diplomatas ou eram interessados em ciência ou tinham interesse em promover a visita de cientistas, tornando difícil a recusa de uma licença. Por exemplo, o Conde Langsdorff, cônsul russo de 1813 a 1820, era um naturalista conhecido que vivia há muitos anos no país e ajudou muitos colegas. Da mesma maneira, Saint-Hilaire chegou em 1815 com o embaixador francês (3).

Uma segunda conseqüência da fuga da Corte Portuguesa para o Brasil foi que Metternich nela enxergou uma possível arma a usar em sua cruzada contra o liberalismo(4). Consequentemente, arranjou um casamento de interesse de Estado entre D. Pedro, o herdeiro aparente do trono de Portugal, Brasil e Algarves, e a Arquiduquesa Leopoldina, filha do Imperador Francisco I da Áustria. A arquiduquesa era uma pessoa culta, inteligente e sensível, que, apesar do persistente sotaque alemão, tornou-se uma imperatriz amada e patriótica do Brasil.

No séquito da nova rainha havia um grupo importante de naturalistas de diversas partes do Império Austríaco: Natterer, Pohl, Mikan, Schott, Raddi. Por uma especial combinação, havia também dois naturalistas bávaros, Johann Baptist von Spix e Karl Friedrich Philipp von Martius. As fontes publicadas não esclareceram as razões de sua inclusão; acho que foi porque o seu rei, Maximiliano da Baviera, era sogro de Francisco da Áustria.

Os naturalistas

Johann Baptist von Spix(5) (fig. 1) nasceu em Höchastad-an-der-Aisch, Baviera, em 9 de fevereiro de 1781, e morreu em Munique, em 15 de maio de 1826. Pretendia fazer uma carreira religiosa, mas, após dois anos num seminário teológico de Würzburg, mudou para medicina e se formou em 1806. Foi para Paris, em 1809, para se especializar em anatomia comparada, provavelmente no laboratório de Cuvier. De volta a Munique, publicou uma longa crítica a todas as classificações zoológicas, de Aristóteles a seus dias. Por causa desse trabalho foi indicado para curador do museu da Academia Bávara de Ciências. Em 1813, publicou nos Denkschriften da Academia um artigo sobre primatas, principalmente sobre algumas espécies do Novo Mundo. Este artigo parece ter tido pouca repercussão; pelo menos, não consegui encontrar dele nenhuma citação substantiva. Então, em 1815, Spix publicou sua Cephalogenesis, pequena monografia sobre anatomia e embriologia comparada do crânio dos vertebrados, que é citada de maneira neutra em algumas fontes do início do século XIX (como a Erpétologie Générale de Duméril, Bibron e Duméril).

Em 1817, Spix estava nesse ponto quando foi escolhido para juntar-se à expedição para o Brasil: 36 anos, boa formação, posição profissional respeitável e algumas publicações sólidas, se não brilhantes. Era, sem dúvida, uma escolha natural para a metade zoológica da tarefa.

Próxima PáginaÚltima Página


(1) Fac-símile Reprints in Herpetology. Society for the Study of Amphibians and Reptiles, 1981 (com autorização da Sociedade Patrocinadora). Tradução de Miriam L. Moreira Leite.

(2) Museu de Zoologia-USP.

(3) Uma apresentação completa da exploração científica do Neotrópico, encontra-se em Papavero (1971, 1973).

(4) A história das relações diplomáticas entre a Áustria e o Brasil no século XIX é contada competentemente por Ramirez (1968), que trabalhou nos arquivos oficiais vienenses. O tradutor de seu livro (uma tese de doutorado inédita da Stanford University) acrescentou notas e comentários do ponto de vista brasileiro.

(5) As notas sobre Spix foram tiradas de Gistl (1835b) e de diversas enciclopédias do século XIX. As sobre Martius são principalmente da introdução à tradução brasileira da Reise, por Merxmüller (1971).

 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI