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Artigos
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A Trajetória Latino-Americana para a Modernidade por Jorge Larraín |
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Trajetórias
históricas da modernidade Do
ponto de vista de sua evolução histórica, a modernidade
é um processo complexo que segue direções diferentes(4)
. Freqüentemente se acredita que a modernidade é um fenômeno
essencialmente europeu ocidental, e se esquece sua tendência globalizante
que a faz expandir-se por todo lado, vendo-se obrigada a conectar-se com
realidades diferentes e adquirindo, assim, configurações
e trajetórias diferentes. Sem dúvida, a modernidade nasce
na Europa e constitui um ponto de referência obrigatório
dos processos modernizadores no resto do mundo, mas segue direções
diferentes no Japão e no Sudeste Asiático, na América
do Norte e na Austrália, na África e, por último,
na América Latina(5).
Poder-se-iam distinguir assim ao menos cinco direções diferentes
que divergem sobretudo em seus começos, mas que, à medida
que avança a globalização, começam a convergir.
Fazer uma análise completa dessas cinco trajetórias está
além das possibilidades deste artigo; por isso, após mencionar
de forma muito breve e geral algumas características que diferenciam
as trajetórias norte-americana e japonesa, africana e européia
concentrar-nos-emos na trajetória latino-americana. A
trajetória norte-americana para a modernidade é historicamente
a mais próxima da européia e é a conseqüência
de um verdadeiro transplante cultural para outra terra(6),
mas diferencia-se da européia porque seu progresso inicial é
adiado pelo poder colonial inglês até a independência.
Uma vez alcançada a independência, o processo de construção
da modernidade continua sendo diferente do europeu porque os Estados Unidos
partem sem o peso do regime antigo europeu e, portanto, quase não
conhecem restrições à participação
política, e a questão social apresenta-se aí de forma
muito atenuada (Wagner, 1994: 53). A
trajetória para a modernidade da África é muito diferente,
porque parte duma imposição colonial do capitalismo no fim
do século XIX com a expansão do Império Britânico,
que sufoca pela força um modo de vida tradicional e tribal. Enquanto
a modernidade latino-americana começou com a independência
no início do século XIX, a modernidade africana começou
com sua colonização e se desenvolveu sob o poder colonial
até a segunda metade do século XX. Sofre, portanto, de todos
os traumas e instabilidades que se originam numa situação
colonial muito próxima. Um problema importante da modernidade africana
é que muitos dos países africanos são criações
artificiais que surgiram somando territórios segundo interesses
dos conquistadores, sem considerar importantes divisões tribais
e culturais que ainda subsistem. O
Japão tem também uma trajetória especial para a modernidade
impulsionada pela sua própria classe dominante tradicional como
uma maneira de impedir as tentativas colonizadoras do Ocidente. O processo
começa bem avançado no século XIX com a Restauração
Meiji de 1868. Esta nova elite queria manter um modo tradicional de vida,
mas organizando uma economia e um Estado modernos. Para essa elite era
indispensável passar de um sistema semifeudal a um moderno como
necessidade de sobrevivência nacional. Sem modernização,
os europeus terminariam por se apoderar do país e convertê-lo
numa colônia, como estava acontecendo com outros países asiáticos.
A política anterior de isolamento adotada pelo regime Tokugawa
teve efeito por algum tempo, porém já em meados do século
XIX os países europeus estavam agressivamente "abrindo" toda a
Ásia para o comércio internacional e tinham forçado
o Japão a assinar alguns tratados em que se concediam privilégios
comerciais aos estrangeiros. A reação Meiji foi tratar de
se opor à penetração forânea adotando os mesmos
métodos e instrumentos dos estrangeiros. A
modernidade européia começa a partir de processos endógenos
e de forma incipiente por volta do século XVI e se consolida com
a Ilustração no século XVIII. Poder-se-ia dizer que
a trajetória da modernidade européia evolui historicamente
em cinco fases. Do começo do século XVI até o final
do século XVIII, há uma etapa precursora na qual a modernidade
existe mais como o idéario de alguns filósofos, e tanto
os avanços materiais e políticos quanto os níveis
de consciência popular são baixos. A segunda fase, a partir
da onda revolucionária no fim do século XVIII, cobre todo
o século XIX. Do ponto de vista econômico caracteriza-se
pela Revolução Industrial e é este processo industrializador
e as lutas organizadas da classe operária que levam à abertura
política do sistema. Nesse período as idéias da Ilustração
configuram mais precisamente a modernidade. A vida política começa
a se democratizar, e um publico mais amplo partilha a experiência
de viver uma época nova e revolucionária. Contudo, é
ainda importante a distância entre o projeto da modernidade enquanto
discurso organizado, que estabelece um verdadeiro imaginário da
modernidade, e as práticas sociais e instituições
modernas que cada sociedade tem conseguido realmente implementar e desenvolver
(Wagner, 1994: 4). Daí
que a terceira fase, do começo do século XX até 1945,
seja uma fase de crise e transição. As ambigüidades
do processo modernizador, com suas promessas teóricas e exclusões
práticas e as próprias críticas que estas inconsistências
despertaram, conduzem a um processo de readequação da modernidade
em que a "questão social" assume uma importância fundamental
(id., ibid.: 58). Os princípios liberais são submetidos
à crítica, e pensa-se agora na criação dum
Estado de bem-estar para todos os cidadãos. Essas idéias
se consolidam na prática, numa curta etapa que vai de 1945 até
1973. Cria-se assim, o que Wagner tem chamado de modernidade organizada,
a época de ouro do capitalismo (id., ibid.: 73 e
ss.). Contudo, como se sabe, esta etapa de estabilidade e crescimento
econômico e de consolidação da modernidade organizada
termina no final da década de 60, e a modernidade entra uma vez
mais em crise. Na raiz desta segunda crise da modernidade existe um problema
econômico e de acumulação. Página Anterior • Próxima Página • Primeira Página • Última Página (4)
A idéia de diferentes trajetórias para a modernidade tem
sido desenvolvida por G. Therborn (Therborn, 1995) e por P. Wagner (Wagner,
1994). |
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